Cultura organizacional
5 minutos min de leitura

Quando a remuneração variável é um contrato de confiança, e não um benefício

Remuneração variável não é um benefício extra: é um contrato psicológico que define confiança, engajamento e cultura. Quando mal estruturada, custa caro - e não apenas no caixa
Cofundador da Mereo, HR Tech presente em mais de 40 países e responsável por atender a 10% das 500 maiores empresas do Brasil. É graduado em Engenharia de Controle e Automação pela PUC-MG e aprimorei minha formação na University of Chicago e em Stanford.

Compartilhar:


Bônus. Palavra mágica que adoça o vocabulário corporativo e que funciona como uma espécie de “santo graal” no universo dos colaboradores do Brasil e do mundo. Mas como, de fato, as empresas lidam com a mecânica de remuneração variável?

Em pesquisa recente realizada pela Mereo, HR Tech, presente em mais de 40 países, responsável por atender cerca de 10% das 500 maiores empresas do Brasil, se constatou que a maioria das corporações adota estratégias de bonificação. Mas qual estratégia? A resposta é simples e direta: algumas pagam, mas poucas, de fato, usam a remuneração variável como uma alavanca de performance. Explico.

A remuneração variável costuma ser tratada como um cálculo financeiro. É uma letra fria. Ou seja, lança-se mão de um percentual da folha de pagamento, um valor ao fim do ano, um “extra” condicionado ao resultado obtido naquele período e pronto. Só que na prática a realidade é outra.

O bônus é algo extremamente sensível. Porque é um contrato psicológico de justiça laboral entre a empresa e seus colaboradores. E esse é um entendimento tão simples quanto. Portanto, tratá-lo à luz de uma calculadora financeira faz com que a essência seja perdida, ou seja, o engajamento genuíno corporativo vai embora.

Portanto, quando esse contrato é bem desenhado, o bônus direciona energia, disciplina a execução e reforça cultura. Agora, quando é mal estruturado, produz exatamente o oposto: frustração, cinismo e perda silenciosa de engajamento. E esse custo raramente aparece no Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE).


Leitura criteriosa

Tomando o cuidado de levar em conta que as empresas respondentes do levantamento já tem no seu dia a dia estruturas formais de pagamento de bônus, essa pesquisa, contudo, revelou padrões importantes. Quais sejam: regras definidas, metas formalizadas, notas de performance, targets por cargo, gatilhos financeiros e mecanismos de proporcionalidade.

Mesmo assim é preciso ler esses dados com prudência.

Esse recorte não significa que o mercado, como um todo, já opere com modelos maduros ou bem estruturados. Ainda existe uma parcela significativa de empresas sem qualquer programa formal de bônus – ou com modelos frágeis, improvisados, excessivamente subjetivos e pouco conectados à estratégia.

O que os dados revelam, contudo, é outra coisa: onde a remuneração variável existe, a expectativa por coerência e justiça é mais alta. E isso aumenta o risco de erro. Porque, quando há regras, elas são analisadas. Quando há fórmulas, elas são testadas. Quando há metas, elas são comparadas.

Portanto, ter bônus não é suficiente. Ter um bônus coerente, explicável e sustentável é o verdadeiro desafio.

Isso nos leva a outro pensamento: o conceitual. Porque o bônus certo sempre responde a três conceitos: elegibilidade, gatilhos e regras. E essas marcações se transformam em três questões:

1) Quem participa? (Elegibilidade)

Nem todo mundo precisa estar no programa – mas quem está fora precisa entender o porquê, uma vez que elegibilidade mal definida cria narrativas paralelas, ressentimento e a sensação de privilégio mal explicado.

2) Quando existe bônus? (Pool e gatilhos)

Bônus precisa de condição de existência. Sem gatilho financeiro, vira risco de caixa. Com gatilho confuso, vira risco de credibilidade.

3) Como o valor é calculado? (Regras, metas e nota de performance)

A fórmula não precisa ser complexa. Ela precisa ser consistente e previsível. O colaborador deve conseguir entender como suas entregas se convertem em reconhecimento.

Quando essas três respostas estão claras, o bônus vira instrumento de execução. Quando não estão, vira loteria.

Com essa análise debaixo do braço, é possível observar onde os programas mal estruturados costumam falhar. E eles saem do trilho invariavelmente na intenção, e não no desenho.

Quer um exemplo? Na elegibilidade. Quando ninguém entende quem entra e quem fica de fora, o discurso de meritocracia perde força rapidamente.

Quer outro? Em gatilhos frouxos.Porque eles revelam uma lógica pouco clara de financiamento. E ele, bônus, passa a depender mais do “ano” do que da performance, minando a relação entre esforço e recompensa.

Já no que diz respeito ao regramento. Bem… O caldo entorna de vez quando elas são alteradas no fim do “jogo”, quando se vê no fechamento do ciclo, que havia condições não explicitadas. E a sensação é simples: tudo estava armado.


Virada

O fato é que há um ponto de virada. Mas é preciso tratar o bônus como sistema, não como planilha. As empresas que usam a remuneração variável como alavanca real de gestão tratam o tema como um sistema, não como um cálculo isolado.

Na prática, isso significa seguir uma lógica simples e rigorosa. Qual seja:

Elegibilidade → Pool → Gatilhos → Ciclos → Regras de cálculo → Governança

Porque um bom programa de bônus precisa ser auditável – não apenas do ponto de vista jurídico, mas cultural. E auditável é quando o colaborador entende o jogo, o líder consegue explicar sem improviso, o diretor-financeiro confia nos impactos financeiros e a empresa não depende de exceções para fechar a conta.

Em outras palavras, se a empresa estiver disposta a testar a saúde do seu programa de bônus, recomenda-se três perguntas simples:

  1. Para um colaborador: “O que você precisa entregar para ganhar bônus?”
  2. Para um líder: “Explique o cálculo em dois minutos.”
  3. Para o diretor-financeiro: “Qual é o risco financeiro do programa em cenários diferentes?”


Se as respostas forem confusas, divergentes ou cheias de “depende”, provavelmente o programa está pagando bônus, mas cobrando um preço alto em confiança, alinhamento e cultura. E, em gestão de performance, confiança é o ativo mais caro que existe.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Cultura organizacional
13 de janeiro de 2026
Remuneração variável não é um benefício extra: é um contrato psicológico que define confiança, engajamento e cultura. Quando mal estruturada, custa caro - e não apenas no caixa

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
12 de janeiro de 2026
Empresas que tratam sucessão como evento, e não como processo, vivem em campanha eleitoral permanente: discursos inflados, pouca estrutura e dependência de salvadores. Em 2026, sua organização vai escolher maturidade ou improviso?

Renato Bagnolesi - CEO da FESA Group

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
9 de janeiro de 2026
Alta performance contínua é uma ilusão corporativa que custa caro: transforma excelência em exaustão e engajamento em sobrecarga. Está na hora de parar de romantizar quem nunca para.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança