Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
4 minutos min de leitura

Gestão na era da IA: como liderar quando a tecnologia sabe mais do que você

Se a IA sabe mais do que você, qual é o seu papel como líder? A resposta não está em competir com algoritmos, mas em redefinir o que significa liderar em um mundo onde informação não é poder - decisão é.
João Roncati é CEO da People+Strategy, consultoria de estratégia, planejamento e desenvolvimento humano.

Compartilhar:


A inteligência artificial deixou de ser uma promessa distante e passou a ocupar um papel central nas decisões corporativas. Hoje, algoritmos analisam volumes massivos de dados, identificam padrões invisíveis ao olhar humano e oferecem recomendações em uma velocidade inalcançável para qualquer gestor. Diante desse cenário, uma questão se impõe às lideranças: como exercer autoridade, visão e direção quando a tecnologia parece “saber mais” do que você?

Em primeiro lugar, é necessário dizer que estou ciente de que a IA hoje é um processador de altíssimo nível e, tecnicamente, não é uma “inteligência”. É justamento o uso da palavra inteligência que embaralha um olhar não qualificado. Mas o que importa nesta abordagem é o papel do líder, que não está em competir com a IA, nem em tentar dominá-la tecnicamente em todos os níveis. O verdadeiro desafio da liderança contemporânea é outro: aprender a liderar com a IA, e não apesar dela e nem em detrimento de pessoas da sua equipe talvez mais qualificadas do que ele mesmo para operá-la.

Estudos acadêmicos reforçam essa mudança de paradigma. Uma pesquisa publicada na Scientific Reports demonstra que a adoção bem-sucedida de tecnologias avançadas, como a inteligência artificial, depende menos da sofisticação da ferramenta e mais da capacidade da liderança de integrá-la à cultura organizacional, aos processos e às estratégias de longo prazo. Em outras palavras, a tecnologia sozinha não transforma empresas – são as decisões humanas que determinam seu impacto real. E isto serve para qualquer tecnologia!

Ao mesmo tempo, dados de mercado revelam um descompasso importante dentro das organizações. Pesquisas internacionais indicam que cerca de 87% dos executivos já utilizam inteligência artificial em suas rotinas profissionais, enquanto apenas 27% dos colaboradores fazem o mesmo. Esse dado não aponta apenas para uma diferença de acesso, mas para um desafio de liderança: como engajar pessoas, redesenhar fluxos de trabalho e criar confiança em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos, pretensa e informalmente invadido pelo uso de IA de forma não sistêmica.

Esse cenário evidencia uma mudança profunda no papel do gestor. Se antes liderar estava, senso comum, associado a deter conhecimento técnico e respostas prontas, hoje o valor do líder está cada vez mais ligado à sua capacidade de interpretar informações, fazer perguntas melhores, mobilizar recursos eficientemente (como a IA) e tomar decisões contextualizadas. A IA pode indicar caminhos, mas não define prioridades, valores ou impactos humanos. Essa responsabilidade continua sendo, essencialmente, da liderança.

A literatura recente sobre gestão e inteligência artificial aponta que líderes eficazes nesse novo contexto são aqueles capazes de combinar visão estratégica, pensamento crítico e ética. Não se trata apenas de entender como acumular e analisar dados, mas de compreender suas limitações, seus vieses e suas consequências para a sociedade. Afinal, decisões influenciadas por IA podem ser eficientes, mas nem sempre são justas, empáticas ou sustentáveis se não estiverem submetidas por códigos de ética definidas por seres humanos, por assim dizer.

Essa dificuldade de adaptação já aparece de forma clara em pesquisas com executivos. Um levantamento da Liz Mohn Foundation mostra que, embora muitos líderes reconheçam o potencial da IA para apoiar tarefas como planejamento e análise, apenas uma parcela ainda limitada a utiliza em decisões mais complexas, como gestão de pessoas, resolução de conflitos ou desenvolvimento de equipes. Possivelmente muitos líderes não compreenderam como usa a IA, como extensão de sua própria capacidade intelectual.

Na prática, liderar na era da IA exige uma mudança de mentalidade. O gestor deixa de ser o principal detentor e integrador do conhecimento (o que já é desafiador) e passa a atuar como construtor sistêmico: alguém que conecta dados, pessoas e propósito. Isso implica assumir um papel mais estratégico, mais relacional e, paradoxalmente, mais humano em um ambiente cada vez mais automatizado.

Talvez um dia, a IA possa substituir a capacidade humana de decisão e julgamento, mas hoje ela mais expõe nossas fragilidades.. Ela escancara a necessidade de competências que nenhuma tecnologia consegue replicar: sensibilidade, ética, visão sistêmica e capacidade de lidar com ambiguidades. Em um mundo onde uma “ferramenta” (a IA) parece saber mais, liderar bem significa saber decidir melhor. A ideia genérica mas comum, de que o domínio do gestor era conquistado com mais informações está definitivamente enterrada.

As pessoas que compreenderem essa transição não apenas adotarão IA de forma mais eficaz, como construirão culturas mais maduras, resilientes e preparadas para o futuro, fortalecendo as organizações. Porque, no fim, a tecnologia pode processar dados, como um recurso poderoso, mas é o ser humano que tinge com ética e propósito o seu uso: o ser humano é o único recurso que define se outros recursos serão eficientes e geradores de valor, ou ineficientes e destruidores de valor.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Fomento para inovação: Alavanca estratégica de crescimento para as empresas

O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados.  Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Quanta esperança você deposita em 2026?

No início de 2026, mais do que otimismo, precisamos de esperança ativa – o ‘esperançar’ de Paulo Freire. Lideranças que acolhem perdas, profissionais que transformam desafios em movimento e organizações que apostam na criação de futuros melhores, um dia de cada vez.

Liderança, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de janeiro de 2026
Se a IA sabe mais do que você, qual é o seu papel como líder? A resposta não está em competir com algoritmos, mas em redefinir o que significa liderar em um mundo onde informação não é poder - decisão é.

João Roncati - CEO da People+Strategy

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de janeiro de 2026
Como o mercado está revendo métricas para entregar resultados no presente e valor no futuro?

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

5 minutos min de leitura
Inovação
20 de janeiro 2026
O volume e a previsibilidade dos instrumentos de fomento à inovação como financiamentos, recursos de subvenção econômica e incentivos fiscais aumentaram consideravelmente nos últimos anos e em 2026 a perspectiva é de novos recordes de liberações e projetos aprovados. Fomento para inovação é uma estratégia que, quando bem utilizada, reduz o custo da inovação, viabiliza iniciativas de maior risco tecnológico, ajuda a escalar e encurtar o tempo para geração de valor dos projetos.

Eline Casasola - CEO da Atitude Inovação, Atitude Collab e sócia da Hub89 empresas

5 minutos min de leitura
Liderança
19 de janeiro de 2026
A COP 30 expôs um paradoxo gritante: temos dados e tecnologia em abundância, mas carecemos da consciência para usá-los. Se a agenda climática deixou de ser ambiental para se tornar existencial, por que ainda tratamos espiritualidade corporativa como tabu?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

7 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de janeiro de 2026
Falar em ‘epidemia de Burnout’ virou o álibi perfeito: responsabiliza empresas, alimenta fundos públicos e poupa o Estado de encarar o verdadeiro colapso social que adoece o país. O que falta não é diagnóstico - é coragem para dizer de onde vem o problema

Dr. Glauco Callia - Médico, CEO e fundador da Zenith

7 minutos min de leitura
Liderança, ESG
16 de janeiro de 2026
No início de 2026, mais do que otimismo, precisamos de esperança ativa - o ‘esperançar’ de Paulo Freire. Lideranças que acolhem perdas, profissionais que transformam desafios em movimento e organizações que apostam na criação de futuros melhores, um dia de cada vez.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
15 de janeiro de 2026
A jornada de venda B2B deve incluir geração de demanda inteligente, excelência no processo de discovery e investimento em sucesso do cliente.

Rafael Silva - Head de parcerias e alianças da Lecom

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
14 de janeiro de 2026
Cumprir cotas não é inclusão: a nova pesquisa "Radar da Inclusão" revela barreiras invisíveis que bloqueiam carreiras e expõe a urgência de transformar diversidade em acessibilidade, protagonismo e segurança psicológica.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
13 de janeiro de 2026
Remuneração variável não é um benefício extra: é um contrato psicológico que define confiança, engajamento e cultura. Quando mal estruturada, custa caro - e não apenas no caixa

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

5 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional, Estratégia
12 de janeiro de 2026
Empresas que tratam sucessão como evento, e não como processo, vivem em campanha eleitoral permanente: discursos inflados, pouca estrutura e dependência de salvadores. Em 2026, sua organização vai escolher maturidade ou improviso?

Renato Bagnolesi - CEO da FESA Group

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança