Liderança
8 minutos min de leitura

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.
Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B, +20 anos de experiência nos mercados de tecnologia da informação, computação em nuvem, cibersegurança, inteligência artificial e transformação digital. Ao longo de sua trajetória, liderou iniciativas de crescimento, go-to-market, desenvolvimento de negócios, vendas complexas. É Engenheiro Eletricista pela UNESP, pós-graduado em Administração de Empresas pela FGV EAESP e possui especialização em Inteligência Artificial e Estratégia de Negócios pelo MIT Sloan School of Management. Atua como membro de comitês estratégicos e conselhos consultivos, além de mentor, palestrante e professor de MBA, contribuindo para o desenvolvimento de lideranças e para a formação de organizações mais inovadoras, competitivas e preparadas para os desafios da nova economia.

Compartilhar:

Há algo de quase contraditório em Guimarães Rosa. Poucos escritores brasileiros produziram uma linguagem tão livre, inventiva e imprevisível. E, por trás daquela liberdade, havia um rigor quase obsessivo.

Em uma entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz, durante o Congresso de Escritores Latino-Americanos, em Gênova, em janeiro de 1965 (entrevista ao crítico alemão Günter Lorenz), Rosa explicou seu processo começando por uma palavra pouco associada à genialidade: “Primeiro, há meu método, que implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original”.

Vale reparar no ponto de partida. Não era apenas inspiração. Havia método.

Talvez essa seja uma boa provocação para o momento que estamos vivendo.

Produzir nunca foi tão fácil. Nem entregar algo apenas razoável

Em poucos segundos, uma ferramenta de inteligência artificial escreve um e-mail, estrutura uma apresentação, resume uma reunião, gera uma análise ou organiza uma proposta comercial. Modelos, templates e playbooks também colocaram boas práticas ao alcance de praticamente qualquer profissional.

A produção se tornou abundante. A qualidade, não necessariamente.

Nunca foi tão fácil produzir muito e, ao mesmo tempo, entregar algo apenas razoável.

Não estou falando de pessoas medíocres. Estou falando da mediocridade como resultado: aquela entrega correta o suficiente para passar, parecida o suficiente com tantas outras para não incomodar e rápida o bastante para que ninguém pergunte quanto pensamento realmente existiu por trás dela.

É nesse ponto que método volta a importar.

Em muitas organizações brasileiras que conheci, capacidade de resolver ainda funciona quase como uma moeda de liderança. O gestor que entra na negociação crítica, destrava o problema na véspera do prazo ou salva uma entrega recebe reconhecimento. E faz sentido: resolver é importante.

O problema começa quando passamos a valorizar mais a intervenção do que aquilo que poderia ter evitado a necessidade dela.

Quem apaga o incêndio aparece. Quem construiu o processo que reduziu a chance de o incêndio acontecer quase nunca recebe a mesma visibilidade.

Método não é o oposto de criatividade

Em mais de duas décadas trabalhando com tecnologia, negócios e vendas complexas, vi profissionais extremamente inteligentes colherem resultados inconsistentes e outros, nem sempre os mais brilhantes da sala, construírem trajetórias muito mais sólidas. Com o tempo, uma diferença foi ficando evidente para mim: os segundos haviam desenvolvido um método.

Método para preparar uma reunião. Para entender um cliente antes de oferecer uma solução. Para construir uma tese comercial. Para revisar aquilo que parecia pronto. Para ouvir o que não havia sido dito. Para aprender depois de perder.

Não era burocracia. Era disciplina aplicada à qualidade.

Existe uma tendência de associar método a rigidez, como se criatividade dependesse principalmente de inspiração, intuição ou liberdade para improvisar. Guimarães Rosa é um bom lembrete de que essa oposição é falsa. Uma das linguagens mais inventivas da nossa literatura nasceu também de enorme rigor sobre cada palavra.

Método não elimina criatividade. Reduz a dependência do acaso.

Isso vale para praticamente tudo que exige decisão dentro de uma organização. Uma boa negociação raramente nasce apenas do improviso de um vendedor talentoso. Há pesquisa, preparação, leitura política, construção de hipóteses, escuta, análise de risco e acompanhamento. O improviso continua tendo lugar. Só não deveria carregar sozinho a responsabilidade pelo resultado.

O que aprendi quando o método deixou de ser apenas meu

Meu método veio da engenharia antes de chegar às vendas. A formação técnica me ensinou a construir estruturas mentais para navegar situações pouco previsíveis. Durante muito tempo, tratei isso como uma característica pessoal. Era meu jeito de preparar uma reunião, construir uma tese ou revisar uma proposta antes de enviá-la.

Funcionava para mim.

A limitação apareceu quando passei a responder por resultados que não dependiam mais apenas das minhas próprias mãos. O time tinha gente boa, mas os resultados oscilavam demais. Havia trimestres excelentes e outros difíceis de explicar. Muitas vezes, a diferença estava simplesmente em quem conduzia determinado negócio.

A qualidade dependia da pessoa, não do sistema.

Levei algum tempo para perceber isso porque o sintoma se parecia com virtude. Eu entrava nos negócios mais difíceis, revisava as propostas críticas, ajudava a preparar as reuniões decisivas. Frequentemente funcionava. Mas cada intervenção bem-sucedida ensinava também alguma coisa ao time: aquele padrão continuava sendo meu.

Foi quando percebi que estava usando meu próprio método para compensar a falta de método coletivo.

Enquanto ele fosse apenas meu, eu continuaria fazendo parte do gargalo.

Liderar é instalar o método, não exercê-lo sozinho

Método individual tem um teto: o próprio profissional. Um líder com ótimo repertório, critério apurado e disciplina pessoal pode melhorar muitos resultados. Mas, se tudo isso permanecer concentrado nele, a organização continua dependente.

Durante muito tempo, nos acostumamos à imagem do gestor como aquele que resolve melhor do que todos: decide rápido, enxerga antes, entra na reta final e salva o negócio.

É uma imagem sedutora. E cara.

Quando a qualidade depende continuamente da presença de uma pessoa específica, ela deixa de ser uma capacidade organizacional.

Para mim, a mudança de perspectiva foi esta: liderar não é apenas produzir boas decisões. É construir um ambiente em que boas decisões continuem acontecendo quando você não está na sala.

Isso exige abrir mão de alguma centralidade. Distribuir método significa reduzir a dependência que o time tem do líder. E isso nem sempre é confortável. Ser procurado para todas as decisões importantes pode parecer reconhecimento; muitas vezes, também é sinal de que alguma capacidade ainda não foi transferida.

O papel do líder muda. Ele deixa de ser apenas aquele que entrega a solução e passa a explicitar os critérios e as rotinas que ajudam outras pessoas a chegar a boas soluções.

Na prática, três movimentos fizeram diferença para mim.

Tornar o próprio método visível

Pensar em voz alta. Mostrar por que uma hipótese foi descartada. Explicar quais informações pesaram mais numa decisão e quais foram consideradas secundárias.

O time não aprende apenas com a decisão final. Aprende observando o caminho que levou até ela.

Dizer claramente o que significa “bom”

Enquanto qualidade for apenas percepção, ela muda de pessoa para pessoa. Quando o padrão ganha critérios explícitos, qualquer profissional consegue avaliar melhor uma entrega e, inclusive, discordar do líder com argumento.

Isso exige uma contrapartida importante: disposição real para ouvir.

Proteger o padrão quando mantê-lo fica inconveniente

É relativamente fácil defender qualidade quando há tempo, orçamento e tranquilidade. O padrão é testado quando o prazo aperta, a pressão sobe e aceitar uma entrega apenas razoável parece a saída mais simples.

É nesses momentos que a equipe descobre o que realmente importa para a liderança.

Essas práticas produzem um efeito cumulativo. Critérios mais claros melhoram as discussões. Discussões melhores reduzem retrabalho. O time ganha autonomia e o líder recupera uma coisa que perde rapidamente quando centraliza tudo: tempo para pensar.

O movimento contrário também acontece. A pressa produz entregas frágeis. As entregas geram retrabalho. O retrabalho leva o gestor a aumentar o controle. Com mais controle, ele próprio se torna gargalo e perde o tempo que precisaria para melhorar o sistema.

Os dois ciclos podem se alimentar por muito tempo. A diferença está em qual deles a liderança escolhe fortalecer.

A IA tornou a falta de método mais cara

É aqui que a inteligência artificial muda a escala do problema. Durante muito tempo, parte da vantagem profissional estava na capacidade de produzir. Escrever uma primeira análise, estruturar uma apresentação, sintetizar grande quantidade de informação ou criar rapidamente uma proposta exigia tempo e experiência.

Agora, essas capacidades estão amplamente disponíveis. Quando todos ganham velocidade, velocidade sozinha perde valor como diferencial.

A IA distribuiu produção. Não distribuiu, na mesma proporção, método.

Uma equipe pode gerar dezenas de alternativas, propostas, análises e apresentações em um espaço de tempo que nenhum gestor consegue acompanhar manualmente.

Isso expõe o limite da liderança baseada em revisão e controle. Não há capacidade humana de inspeção que cresça na mesma velocidade da produção automatizada.

Por isso, método deixa de ser apenas uma boa prática de gestão e passa a ser uma condição para escalar qualidade.

Organizações que já possuem critérios claros, formas de revisar, responsabilidades definidas e capacidade distribuída de avaliar o que produzem conseguem incorporar IA a uma lógica existente.

As que dependem do heroísmo de algumas pessoas correm outro risco: produzir mais rápido aquilo que já não sabiam avaliar de maneira consistente.

A tecnologia não corrige falta de método. Pode amplificá-la.

Responder pelo que colocamos no mundo

Quanto mais observo carreiras longas, menos acredito que excelência seja resultado de grandes momentos isolados. Ela aparece muito mais na repetição de pequenas disciplinas.

Preparar antes. Perguntar melhor. Ouvir quem discorda. Revisar uma hipótese. Registrar o aprendizado depois de perder.

Nada disso é particularmente glamouroso.

Guimarães Rosa tratava cada palavra como algo pelo qual precisava responder. Não precisamos transportar para a vida corporativa o grau de rigor de um dos maiores escritores da nossa literatura. Mas existe ali uma ideia que vale preservar.

Ser responsável pelo que colocamos no mundo.

Em uma época de produção quase infinita, excelência talvez seja justamente a capacidade de não aceitar automaticamente aquilo que a ferramenta, o template, a rotina ou o hábito ofereceram primeiro.

Não nos falta talento.

Falta, muitas vezes, transformar talento em método, e método em capacidade coletiva.

Talvez essa seja uma medida mais exigente de liderança: não o padrão que você consegue produzir quando está presente, mas aquele que consegue deixar instalado quando não está.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que Guimarães Rosa pode ensinar sobre liderança na era da IA

Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

O caso Abril não foi uma crise da mídia. Foi uma crise de adaptação

Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Seu valor termina quando sua performance cai?

Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

A contradição que desafia a ONU: É possível falar em inclusão global sem Taiwan?

Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

O próximo Pix será de competências

Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
30 de setembro de 2026 14H00
Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Juliana Tubino - Cofundadora do Ecossistema Octo e coautora do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

6 minutos min de leitura
ESG
30 de setembro de 2026 08H00
Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução