Gestão de Pessoas

“Vendendo” vagas: o que é essencial e o que é secundário

Reflexões a partir do diálogo entre uma fera do employer branding e dois talentos do mercado
Atua como consultora em projetos de comunicação, employer branding e gestão da mudança pela Smart Comms, empresa que fundou em 2016. Pós-graduada em marketing (FGV), graduada em comunicação (Cásper Líbero) e mestranda em psicologia organizacional (University of London), atuou por 13 anos nas áreas de comunicação e marca em empresas como Johnson&Johnson, Unilever, Touch Branding e Votorantim Cimentos. É professora do curso livre de employer branding da Faculdade Cásper Líbero, um dos primeiros do Brasil, autora de artigos sobre o tema em publicações brasileiras e internacionais e co-autora do livro Employer Branding: conceitos, modelos e prática.

Compartilhar:

Acompanhei uma troca de mensagens muito rica no LinkedIn. O diálogo aconteceu entre um profissional de employer branding que acompanho sempre, o Nate Guggia, um da área de tecnologia e outro de recrutamento. Optei por traduzir e adaptar a conversa porque nada que eu escrevesse poderia substituir a riqueza da troca de ideias e o quanto ela serviu para colocar em ordem muitas observações e ideias que já vinham borbulhando por aqui.

A postagem original falava sobre uma das diferenças fundamentais entre vender um produto e “vender” um emprego. Nate, o autor do texto, escreveu que, ao vendermos um produto, precisamos quase sempre de um esforço grande para estar presentes na mente do comprador, a fim de que ele nos escolha quando entrar no “modo compra” (quando timing e necessidade/desejo se alinham).

Ao “vendermos” um emprego, estamos falando com um comprador que está quase sempre em “modo compra”, posicionado em uma escala que vai de “estou muito feliz onde estou, mas posso ouvir mais sobre uma oportunidade interessante” até “meus boletos estão vencidos e/ou odeio meu chefe, preciso de um emprego novo hoje”, etc.

## Confira a conversa
Nate Guggia: “Vender um trabalho como se vende um produto é o caminho certo. Para desenhar a linha mais reta possível entre você e seu potencial comprador, você precisa mapear que informação iria querer se já estivesse aberto à ideia de ‘comprar’ um novo emprego. Depois de mapear, compartilhe essas informações. Essa é a diferença entre vender ‘gracinhas’ de cultura que só você acha legal e vender as informações que ajudam candidatos de todos os níveis na escala de interesse a optar por começar ou não uma conversa com o seu recrutador.”

### Primeira resposta ao post original, vinda de um profissional de tecnologia
Comentário do profissional de tecnologia: “Quase discordo da parte de ‘gracinhas de cultura’, porque se tem isso na descrição de uma oportunidade já sei que é melhor evitar a empresa – então é o tipo de informação útil, mesmo que não da forma que quem escreveu ou falou pensou que seria.”

“Nessa amostra de um, que sou eu, o que funciona é saber logo de cara o que a empresa faz e o tamanho da equipe em que vou estar. Isso me ajuda a entender se eu gostaria de fazer parte desse fluxo de valor e qual seria o impacto do meu trabalho. O restante (benefícios, cultura, salário) quase sempre fica dentro de uma variação esperada e é secundário. Sei que outras pessoas têm diferentes estilos e prioridades, portanto, imagino que esse trabalho com talentos seja muito mais arte que ciência.”

Se você trabalha com uma marca empregadora, a frase “imagino que esse trabalho com talentos seja muito mais arte que ciência” deve ter soado como música para os seus ouvidos. Por mais que ferramentas cada vez mais sofisticadas e pautadas por tecnologia nos ajudem, essa diversidade de prioridades e estilos é bem difícil de captar sem inteligência e sensibilidade humanas.

Fazer um bom trabalho de marca empregadora sem dados é muito difícil. Mas fazer apenas com dados é certeza de fracasso. Gente não é só razão e ação – longe disso.

Comentário do profissional de atração de talentos: “Outra coisa a se pensar é que a compra de um trabalho versus a compra de um produto é, em muitos casos, uma decisão guiada por emoções, algo a ser levado em consideração.”

Resposta de Nate: “No post, falo especificamente do topo do funil de recrutamento, aquele momento em que o candidato opta por entrar ou não no processo. Na minha opinião, essa decisão é menos baseada no emocional e mais pelo tático da verificação de aspectos básicos da oportunidade.”

“Se uma oportunidade não cumpre os requisitos mais básicos para um candidato, ele não vai seguir no funil. Depois dessa fase, aí sim percebo que a balança começa a pender mais para o emocional do que para o tático. Quando o candidato chega ao final do processo, aí sim temos muito emocional envolvido. Assim, combinar emoção e requisitos básicos na hora certa é mágico.”

## O que tirar dessa troca de ideias?
Acho que cada leitor, a partir de seu ponto de vista – comunicador, recrutador, profissional de marketing, cultura, consultor – pode fazer reflexões muito diferentes a partir desse diálogo. Compartilho aqui as minhas:

– Devemos olhar com muito cuidado para pesquisas e estudos que encontramos com manchetes na mídia especializada do tipo “Propósito é o que conta para talentos” ou “Cultura é o fator mais importante para talentos escolherem um trabalho”. Falei um pouco sobre isso em um [artigo anterior](https://www.revistahsm.com.br/post/employer-branding-e-proposito-alguns-cuidados) e o diálogo acima reforça que o básico é o que direciona decisões iniciais sobre entrar ou não em um processo. A mágica está em quando e como trazer propósito, cultura e outros temas afins para a conversa.
– Em gestão da mudança, um outro tema que estudo e adoro, a máxima “what’s in it for me” (ou “o que tem aí para mim?”) guia muito do trabalho de cuidar do lado humano das mudanças organizacionais. As pessoas querem saber primeiro sobre como aquela mudança – isso inclui mudança de emprego – será para elas, diretamente. Isso fica claro no comentário do profissional de tecnologia, quando ele diz que desejaria saber como é o time e qual é o impacto do seu trabalho. Costumamos deixar essas informações para quando as pessoas já estão mais para o fim do funil.
– Esse último ponto eu conecto com o amadurecimento do trabalho de marca empregadora. De acordo com o modelo [de maturidade desenhado por Ellis e Mosley (2020)](https://www.linkedin.com/posts/brunagmascarenhas_employerbranding-marcaempregadora-evp-activity-6793161680714002432-cpBB?utm_source=linkedin_share&utm_medium=member_desktop_web), as empresas nos dois níveis mais avançados (de um total de cinco) têm uma certa descentralização do trabalho de marca empregadora, com diferentes áreas já conscientes, capacitadas e seguras para falar de si mesmas como empregadoras. Isso mesmo: a instituição é a empregadora e pode (e deve!) falar do macro, mas do micro – do miúdo do dia a dia de se trabalhar nessa instituição – quem fala é a própria área.

E a suas reflexões, quais foram? Quero muito saber!

Compartilhar:

Artigos relacionados

Nenhuma estratégia é melhor do que a lente que a criou

Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Centauros corporativos: quem está no controle da inteligência?

Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Cláusula de raio: proteção legítima ou barreira à concorrência?

Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo