Dossiê HSM

O futuro das pessoas e da gestão

Quatro pilares, em atuação interdependente, permitem antecipar os próximos anos das empresas: sustentabilidade, capital, trabalho e inovação
O artigo é de autoria coletiva da Falconi Consultores, escrito a 14 mãos pela presidente, Viviane Martins, com Fernando Ladeira, Flávio Boan, Leandro Mineti, Luiz Prates, Marina Cavalieri, Marcos Silva.

Compartilhar:

Prever o futuro talvez seja um exercício esotérico, mas planejar para o futuro é um exercício fundamental para empresas. Se por um lado empresas de grande porte ficam mais enxutas com a digitalização acelerada, negócios pequenos ganham relevância e começam a concorrer com grandes negócios.

Empresas de todos os tamanhos precisam se tornar negócios digitais, com segurança, agilidade e capacidade de adaptação. Traçar a direção a seguir nos próximos três ou cinco anos é o que vai nortear a evolução ou a transformação de empresas.

Há quase uma década apoiávamos a estratégia de uma empresa no “plano 2020”, que parecia distante o suficiente para alcançarem a visão. E 2020 chegou, tão rápido, tão incerto e tão duro. Mas esse foi um marco histórico. No Brasil, todo o contexto de 2020 provocou, acentuou ou acelerou mudanças muito importantes em quatro pilares-chave que certamente influenciarão os próximos anos das empresas, de maneira interdependente: sustentabilidade, capital, trabalho e inovação.

## Sustentabilidade e capital
O ano de 2020 abriu as portas para o desenvolvimento sustentável. A percepção de riscos empresariais, de vulnerabilidade e o repensar de valores demandam um posicionamento mais sustentável das empresas, de marcas e dos seus líderes. Resultados econômico-financeiros continuam importantes, mas não são suficientes. De resultados passamos à geração de valor, abrangendo curto, médio e longo prazos, como fruto de um conjunto de dimensões sobre as quais cada empresa tem responsabilidade: seu impacto na sociedade, no meio ambiente, nas pessoas e nas relações éticas com todas as partes com as quais se relaciona. A evolução nessas dimensões estará diretamente relacionada à perpetuidade dos negócios.

A adoção de práticas ESG (meio ambiente, social e governança) deixará de ser um diferencial e se tornará mandatória para empresas que almejam crescer ou manter clientes, funcionários e investidores. Essa é uma jornada que não admite superficialidade, deve ir além dos powerpoints. Precisa estar pautada no propósito da empresa, que será a afirmação de sua identidade. O trabalho em ESG deve ser perene, não um projeto temporário implementado por uma força-tarefa. A implementação deve ser estruturada e trazer resultados mensuráveis em todas as dimensões citadas. Para tanto, ESG deve fazer parte do modelo de negócio da empresa e de suas estratégias, desdobradas para envolver todos os níveis da organização, tornando-se modelo mental do time e da cultura da empresa.

Nessa tendência, o setor financeiro ressalta a relevância do tema ao incluir critérios de sustentabilidade para priorizar investimentos, criando espaço também para uma futura bolsa de valores voltada a negócios menores e de impacto social. Em capital, para um país com taxas de juros historicamente altas, uma taxa tão baixa mudou a regra do jogo. Há maior interesse e disponibilidade de recursos para a economia real. Como consequência, o crescimento dos fundos de venture capital (os VCs) no Brasil fomenta o já crescente interesse em startups no âmbito dos investimentos privados, e deve fazer parte da estratégia das empresas como inovação e investimento.

## Trabalho
Divergindo de previsões proféticas sobre o fim de escritórios e a migração dos centros urbanos para cidades periféricas, acreditamos no trabalho parcialmente remoto como modelo mais frequente. Depois de tantos meses privados de convívio, a necessidade gregária do ser humano foi reafirmada. Reuniões virtuais indubitavelmente trazem eficiência, mas é difícil manter a coesão cultural da empresa em um ambiente de negócios relacional como o brasileiro, onde muita coisa era resolvida no café, no corredor. Ao modelo parcialmente remoto somam-se formas de contratação mais flexíveis, por entregas ou projetos, e modelos de carreira com diversas ramificações, como resposta à velocidade das transformações.

As mudanças no modelo de trabalho e seus impactos nas relações profissionais resultarão em novos modelos organizacionais. Modelos anteriores eram construídos para uniformizar o controle e devem ser substituídos por novas dinâmicas que promovam maior criatividade, velocidade e responsabilidade das pessoas. O controle sobre atividades cederá espaço para a autonomia e para o protagonismo de pessoas e times.

Os líderes deverão definir mais claramente as entregas e os resultados esperados, prover os recursos necessários e desafiar o time a desenvolver seu próprio caminho, a tomar suas decisões. Delegação e autonomia mudarão de patamar em modelos organizacionais mais simples e horizontalizados. Engajar o time nesse novo patamar demandará mais transparência das lideranças e da empresa, elemento fundamental na construção e no fortalecimento da confiança.

Se as novas relações de trabalho trazem uma pitada do modelo startup para as empresas tradicionais, vem daí também o empurrão para a inovação. Até 2020 muitas empresas procrastinavam a inovação em seus negócios. Algumas esperavam determinadas soluções “amadurecerem” no mercado, o custo de certas tecnologias baixar, outras achavam que isso não eratão urgente ou eram simplesmente ineficazes em suas inovações.

O ano de 2020 disruptou essa mentalidade. Inovação surgiu como modo de sobrevivência no momento agudo da crise, mas sua importância vai muito além. Inovação gera capacidade de adaptação nas empresas e lhes permite propor uma nova dinâmica ao mercado e novos hábitos aos consumidores. Porque, se sua empresa não o fizer, alguém o fará.

## Inovação
Inovação e tecnologia andam juntas. No Brasil, tecnologias no campo da inteligência artificial (IA) precisarão ganhar velocidade e ampliar a disseminação. Para isso, desmistificar a IA é o primeiro passo. Ela deixa de ser um tópico acadêmico e distante, passando a ter um papel central na resolução de problemas práticos das empresas.

Um dos paradigmas mais promissores do machine learning, o aprendizado por reforço, deverá se consolidar nos próximos anos como uma alternativa viável para os problemas de negócio. Aqui, busca-se criar agentes inteligentes que aprendem a alcançar objetivos por tentativa e erro, interagindo com o ambiente ao longo do tempo. A consolidação dessa tecnologia poderosa e flexível no ambiente de negócio elevará os patamares de resultados de diversos setores, desde a otimização do portfólio de investimentos até o controle de sistemas industriais complexos.

Os avanços nas técnicas de aprendizado de máquina dedicadas ao processamento de linguagem natural vão viabilizar tarefas complexas, como desenvolver um novo design de produto, utilizando somente descrições em texto livre. Essa capacidade vai expandir muito o número de profissionais aptos a utilizar IA para gerar resultados práticos no seu dia a dia, o que vai acelerar o profundo processo de transformação que essa tecnologia gera no mercado de trabalho. Por fim, o crescente impacto da IA na sociedade tornará cada vez mais prementes os avanços em modelagem causal, interpretabilidade de modelos complexos e privacidade, com o objetivo de atender as novas exigências éticas e legais associadas à utilização desses sistemas.

Aliado à inteligência artificial, o uso de Low-
-code e No-code permitirá a inovação em escala. Envolver tecnologias prontas e acessíveis para trazer o poder de modularidade, aprendizado e integração trará a tecnologia ao alcance de qualquer área, extrapolando a TI. Esse será um caminho importante para oferecer a melhor experiência. O conceito de experiência do cliente se expande para experiência total, de criação da melhor experiência geral para todas as partes, combinando a experiência do cliente (CX), do funcionário (EX) e do usuário (UX).

Entender de maneira mais profunda o comportamento dos consumidores, e o que eles desejam em curto, médio e longo prazo, passa a ser ainda mais relevante para os negócios, com coleta de dados a partir de interações digitais e estudos etnográficos. Além de ser utilizado para entender o comportamento dos consumidores, os dados das pessoas podem ser utilizados para influenciar comportamentos (fala-se já em IoB – sigla em inglês de internet dos comportamentos), podendo se tornar uma ferramenta poderosa para organizações públicas e privadas.

A inovação provoca forte mudança também na gestão. Inovação aberta será expandida para “gestão aberta”, uma vez que as empresas estarão cada vez mais conectadas com ecossistemas de parcerias e alianças. Em breve, o ecossistema será mais importante que as empresas. Estas serão grandes plataformas modulares nas quais as funções de apoio e soluções finalísticas poderão contar com módulos externos, que poderão ser intercambiáveis à medida que melhores soluções surgirem. O grande desafio será a integração e as interfaces entre os módulos, que poderão ser gerenciados com aplicação de inteligência artificial para assegurar a função de um grande sistema aberto. A gestão estratégica, entretanto, permanecerá como uma atribuição essencialmente humana e proprietária da empresa.

## Interdependência
Por fim, a combinação dos pilares de inovação, tecnologia e novas relações de trabalho requer competências e habilidades multifuncionais para as quais não estamos preparados. De acordo com o último relatório The future of jobs do Fórum Econômico Mundial (outubro de 2020), 40% das habilidades dos profissionais tidas como essenciais hoje mudarão.

O trabalho do futuro requer human skills, cujo desenvolvimento deve combinar conceitos teóricos e a experiência prática, sem a qual o aprendizado não se consolida. Aqui também a inteligência artificial nos ajudará a compreender mais profundamente os indivíduos para orientar seu desenvolvimento naquelas necessidades a serem estimuladas para que eles possam contribuir plenamente com os objetivos organizacionais.

Ficam em xeque os treinamentos tradicionais, pasteurizados. Múltiplos instrumentos de aprendizagem precisam ser combinados dentro de um ambiente de comunidade que propicie colaboração e troca de experiências, para que os estímulos mantenham o profissional engajado em seu desenvolvimento. Senão sempre haverá algo mais cativante no streaming.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Nem todo problema precisa de inteligência artificial

A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Por que a filosofia voltou a ser uma ferramenta de gestão

Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

A tecnologia muda. A essência da advocacia permanece.

Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Chega de olhar pelo retrovisor

A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de agosto de 2026 08H00
Este artigo explora por que empatia, hospitalidade, escuta e construção de vínculos podem se tornar os ativos mais valiosos da próxima década.

Dr. Henrique Moura - Chefe da Fonoaudiologia do BP Paulista e BP Mirante. Além de atuar como Professor da Pós Graduação e do Mestrado do Hospital Israelita Albert Einstein

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de agosto de 2026 08H00
A pressão para adotar inteligência artificial cresce em praticamente todos os setores, mas muitas iniciativas continuam fracassando pelo mesmo motivo: começam pela tecnologia e não pelo problema. Com exemplos da indústria e reflexões sobre governança, processos e tomada de decisão, o artigo mostra por que a maturidade digital de uma organização não deve ser medida pela quantidade de projetos de IA que ela anuncia, mas pela sua capacidade de transformar desafios reais em resultados concretos.

Marcelo Paiva - Diretor de Operações da Formel D

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
9 de agosto de 2026 14h00
Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.

Estela Brunhara - Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo

3 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Liderança
9 de agosto de 2026 08H00
Ao recorrer a pensadores como Foucault, Hannah Arendt e Kant, o artigo mostra por que cultura, ética, reflexão crítica e capacidade de julgamento continuam sendo ativos indispensáveis para líderes e organizações que desejam tomar melhores decisões em um mundo cada vez mais automatizado.

Denilson Shikako - CEO e fundador da Fábrica de Criatividade

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Inovação & estratégia
8 de agosto de 2026 14H00
Depois de testemunhar a digitalização dos processos judiciais e a transformação tecnológica da profissão jurídica, o autor reflete sobre a próxima grande mudança da advocacia. O artigo argumenta que a inteligência artificial deve ser vista como uma ferramenta de ampliação das capacidades humanas, e não como substituta das competências que tornam o trabalho jurídico verdadeiramente valioso.

Flávio Pinheiro Neto - Sócio-fundador do escritório Flávio Pinheiro Neto Advogados

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de agosto de 2026 08H00
A tecnologia já tornou possível identificar padrões, prever comportamentos e agir antes que problemas aconteçam. O desafio agora não é tecnológico, mas cultural: desenvolver lideranças capazes de tomar decisões baseadas em probabilidades e reorganizar a gestão em torno do que está prestes a acontecer, e não apenas do que já aconteceu.

Wilian Luis Domingues - CIO da Tempo

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
7 de agosto de 2026 14H00
A inteligência artificial deixou de ser apenas uma ferramenta de apoio para se tornar uma infraestrutura capaz de reorganizar decisões, processos e modelos de trabalho. Em um cenário marcado pelo avanço dos agentes inteligentes, o desafio das lideranças já não é implementar tecnologia, mas redesenhar a forma como humanos e máquinas colaboram para gerar valor.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de agosto de 2026 09H00
Programas de startups, laboratórios de inovação e investimentos em inteligência artificial tornaram-se comuns nas grandes organizações. O problema é que poucas conseguem transformar experimentação em resultado de negócio. O artigo discute como estruturar processos que convertam conhecimento externo em decisões estratégicas capazes de gerar crescimento, adaptação e vantagem competitiva.

Roberta Barros - Gerente de Strategy, Innovation & Ventures na Deloitte.

7 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
6 de agosto de 2026 17H00
Tarifas, conflitos geopolíticos, rupturas nas cadeias de suprimentos e mudanças regulatórias expõem uma fragilidade comum em muitas organizações: a dependência de um único cenário de futuro. Ao analisar os efeitos recentes do tarifaço sobre produtos brasileiros, o artigo argumenta que a verdadeira vantagem competitiva não está em prever corretamente o próximo choque, mas em construir operações capazes de se adaptar rapidamente a diferentes realidades sem comprometer resultados.

Átila Persici Filho - CINO, professor de MBA e Pós-Tech na FIAP e Conselheiro de Inovação.

12 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
6 de agosto de 2026 08H00
Trinta e cinco anos após a criação da Lei de Cotas, a inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho continua sendo medida principalmente pelo número de contratações. O desafio agora é outro: garantir experiências de trabalho dignas, acessíveis e capazes de promover desenvolvimento, pertencimento e crescimento profissional.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo