Uncategorized

O “círculo virtuoso” da Delta

O presidente, Edward Bastian, conta como a companhia aérea global superou a concordata e fez um turnaround baseado em pessoas –e revela a ambição para o futuro, que inclui o uso de biocombustíveis
Colaboradora de HSM Management.

Compartilhar:

> **Saiba mais sobre  Ed Bastian**
>
> **Quem é:** Presidente e membro do conselho de administração da Delta Air Lines (também atua no conselho da Gol, da Aeromexico e da Virgin Atlantic). 
>
> **Marca:** Foi o grande responsável, com sua equipe, por dar solidez financeira à Delta. 
>
> **Trajetória:** Chegou em 1998 como vice-presidente de finanças e controladoria; em 2000, tornou-se VP sênior e, em 2005, CFO. 

Antes de 1978, o setor de aviação comercial dos estados Unidos era regulamentado e as tarifas, astronômicas. Quando veio a desregulamentação, as viagens aéreas se tornaram mais acessíveis, mas o mercado como um todo passou a ser conhecido por seus altos e baixos. 

O setor se mantinha apegado a maneiras antigas de fazer negócios e encarava com normalidade essa montanha-russa, porém, às vezes, ficava paralisado e empresas desapareciam. em 2005, a Delta air lines, terceira maior companhia aérea dos EUA na época, foi uma das vítimas desse ciclo perverso de ascensão e queda: a empresa pediu concordata. Contudo, logo começou a rever seus processos, visando não só a recuperação, mas maior estabilidade. Para isso, seria necessário quebrar a rotina, o que exigiria pensar de modo diferente sobre o negócio da aviação comercial em cada um de seus aspectos. 

Dezenove meses e muitos cortes de custos depois, a empresa se reergueu, com a ajuda dos bancos e sob a batuta do então executivo-chefe de finanças Edward “Ed” Bastian. Em 2007, Richard H. anderson assumiu como CeO da empresa e hoje ele e Bastian, que se tornou presidente e membro do conselho de administração, dividem o comando. 

A nova liderança formalizou a virada com um assim chamado “plano de voo”, que via na aviação um negócio como outros. Assumiu o controle de seu custo variável mais alto –combustível–, reestruturou a frota de modo eficiente, investiu mais nos produtos, focou colaboradores. também investiu em alguns mercados, como os emergentes Brasil e México, adquirindo participação em empresas locais. em entrevista exclusiva a HSM Management, Bastian detalha o novo modelo de negócio da companhia, que se chama “círculo virtuoso” e inclui ações de sustentabilidade. 

> **Fatos e números  da Delta Air Lines**
>
> **Fundada  em 1924**
>
> Mais de  **165 milhões**  de passageiros  por ano; 
>
> **323 destinos  em 59 países.** 
>
> **80 mil** colaboradores
>
> **766** aeronaves
>
> **US$ 1,6 bilhão** – lucro líquido nos três primeiros trimestres de 2014, mais que o lucro total de 2012.
>
> **US$ 37,7 bilhões** – vendas em 2013, um crescimento expressivo em relação a 2009, quando somaram US$ 28 bilhões.
>
> **US$ 823 milhões** – quantia prevista para distribuição de lucros aos colaboradores  em 2014.
>
> **US$ 4 bilhões** – lucro antes dos impostos previsto em 2014, o maior da história da aviação comercial mundial.
>
> **Volta** – as ações da Delta quase triplicaram de valor nos últimos dois anos; voltaram a integrar o índice de ações S&P 500.

**Vocês pediram concordata em 2005 e agora estão anunciando um lucro recorde. Como foi possível fazer esse turnaround?** 

Atribuo isso ao modelo de negócio que desenvolvemos, chamado “círculo virtuoso”, com dois focos: os colaboradores –que cuidam dos clientes– e as metas de negócios. Sobre as metas, todo ano a Delta cria um “plano de voo” que as define. O deste ano, por exemplo, tem metas em cinco colunas: serviço ao cliente, operações, pessoas, receita e finanças. E “pessoas” é a coluna central, para mostrar que são a força por trás de nosso sucesso. Não à toa nossa distribuição de lucros aos colaboradores é tão importante: a quantia reservada para isso apenas no terceiro trimestre [de 2014] é de US$ 384 milhões. Mantermo-nos ligados aos valores de nosso fundador, C.e. Woolman, também ajuda; eles falam de liderança servidora, de respeito.

**Como a compra de uma refinaria de petróleo em 2012 entra nesse modelo de negócio?** 

Esse movimento correspondeu a uma meta: foi um ataque direto à maior despesa da Delta, o combustível, que constitui cerca de 30% dos custos gerais da empresa. eu sei que a Delta surpreendeu muita gente ao comprar a refinaria na Pensilvânia, porque foi a primeira vez que isso ocorreu no setor de aviação. No entanto, reflete um pensamento de longo prazo. A aquisição se provou muito benéfica para a Delta, porque cada centavo de combustível economizado equivale a US$ 40 milhões de economia na operação. Com a refinaria, reduzimos entre um e dois centavos abaixo da média do setor por litro. 

**A compra de participação em empresas aéreas latino-americanas também deve ser vista como surpresa?** 

Não. a classe média dos países latino-americanos, em expansão, explica a estratégia. ela cresceu 50% de 2003 a 2009 e continua a se fortalecer. Outro fator relevante é a enorme comunidade hispânica nos estados Unidos, que faz cada vez mais turismo na região. além disso, Brasil e México são vistos como motores do crescimento regional ao longo dos próximos seis anos –as viagens corporativas entre os eUa e os países latino-americanos aumentaram 14% ano após ano ao longo dos últimos três anos, e o PIB nesses países está previsto para crescer 4% ao ano até 2020. Por tudo isso, projeta-se um crescimento do tráfego aéreo anual de 6,9% ao longo dos próximos 20 anos entre os eUa e a região, um dos maiores aumentos mundiais. e estamos bem posicionados, tanto com mais de 1,2 mil voos semanais para 46 destinos em 27 países como com as parcerias com a Gol e a aeromexico.

**Como a Delta fortalece a marca no Brasil?** 

Com a Gol. está desenvolvendo uma campanha conjunta de marketing que inclui mídias sociais e marketing tradicional. Vai do fato de que, perto da porta de embarque dos aviões da Gol, o passageiro lê “em parceria com a Delta” às duas patrocinarem eventos como o Rock in Rio. 

> **A RELAÇÃO COM O BRASIL**
>
> A Delta Air Lines considera a região da América Latina e Caribe fundamental para seu crescimento e desenvolveu uma estratégia de aquisições para ampliar a presença aqui. Ela teve início em meados de 2011, com a compra de participação de 3,5% na companhia aérea Aeromexico e, no caso do Brasil, foi impulsionada pela assinatura do acordo “Open Skies”, de céus abertos, assinado entre o País e os EUA e que estará completamente implantado em 2015. 
>
> O acordo prevê a ampliação de opções de frequências e de rotas, o que deve fazer a Delta aumentar seu número de voos semanais ligando os dois países –hoje são 42, que conectam os EUA a São Paulo, Rio e Brasília. A oferta vai crescer dois dígitos já este ano ante 2013. “O Brasil é o sexto maior mercado em venda de passagens do mundo”, lembra o presidente da Delta, Ed Bastian. Para reforçar a estratégia, em dezembro de 2011, a Delta anunciou a compra de participação de 3% no capital da brasileira Gol Linhas Aéreas por US$ 100 milhões –e um assento no conselho de administração da empresa. 
>
> O fato de terem públicos-alvo diferentes –a Gol atende a classe média, inclusive emergente, do Brasil e a Delta, o público executivo– não importou. “Juntas, Delta e Gol cobrem 99% dos pontos de demanda entre Estados Unidos e Brasil, o melhor de qualquer aliança”, destaca Bastian. E a Gol controla 37% dos espaços dos estratégicos aeroportos de São Paulo –Cumbica e Congonhas. A parceria vem ampliando as sinergias operacionais entre as empresas. A Delta está focando o compartilhamento de expertise com a Gol, de modo que ambas apliquem, de forma bem-sucedida, iniciativas de rede, gestão de receitas, vendas, operações e economias de custo a suas operações, melhorando a experiência do cliente. No que diz respeito a vendas, as equipes trabalham juntas para alavancar as duas redes combinadas, tanto em contratos corporativos como com agências de viagem. 

**A Delta conseguiu resolver sua crise mais aguda com o que muitos veem como uma ação sustentável em relação aos colaboradores. E quanto à próxima crise, climática?**

No início de 2014, mais de 73 mil voos de todas as companhias foram cancelados nos EUA pelas nevascas. a associação Internacional dos transportes aéreos (Iata) definiu metas para reduzir as emissões de carbono do setor e trabalhamos para alcançá-las com melhoria tecnológica, melhoria da eficiência operacional, melhoria do tráfego aéreo e da infraestrutura de aeroportos, e medidas econômicas positivas –como apoio à redução geral de emissões de CO2.

Na questão tecnológica, a Delta entende o potencial dos combustíveis biojet, considera a possibilidade de pagar mais por eles e está buscando parcerias na área. Participamos do projeto de combustíveis biojet do Fórum econômico Mundial, que montou um banco de dados sobre as iniciativas nesse campo. Com nosso foco contínuo em renovação da frota e em iniciativas de melhoria de tráfego aéreo e aeroportos, com nosso programa de reciclagem, robusto no ar e em terra, fomos incluídos no índice Dow Jones de sustentabilidade, nos eUa, por três anos consecutivos.

**Vocês vêm mudando o setor?** 

Acho que nossa abordagem transformacional tem, sim, um efeito cascata sobre o setor de aviação comercial, nos EUA.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O que os lugares ensinam sobre controle

Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Circulando pelo mundo, com sotaque brasileiro

Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Organizações vivas: o que o levain ensina a quem lidera?

Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Inovação farmacêutica brasileira: um ponto de inflexão nas análises do setor

Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento.
Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

O cliente não compra tecnologia. Compra conforto.

Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Marketing, Estratégia
21 de outubro de 2026 12H00
Marca de empresa é criada, marca de lugar é descoberta. Os gestores corporativos têm muito o que aprender com o “place branding” sobre gerir algo que não tem dono

Caio Esteves

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
21 de outubro de 2026 08H00
Os padrões abertos já permitem que uma credencial de competência seja lida em qualquer país. O que ela significa depende de quem constrói o trilho por onde ela passa. Europa e Ásia já fizeram essa escolha, e o Brasil tem todas as peças para fazer a sua.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por POK Brasil
8 minutos min de leitura
ESG, Liderança
20 de outubro de 2026 08H00
Ao celebrar 13 anos de atuação, o Grupo Mulheres do Brasil reafirma seu compromisso com a construção de uma sociedade mais justa, inclusiva e diversa. Mas sua trajetória revela um impacto que vai além das causas e dos projetos: a força de uma rede capaz de conectar mulheres, criar oportunidades, fortalecer vínculos e promover desenvolvimento pessoal e coletivo.

Alexandra Segantin - CEO do Grupo Mulheres do Brasil

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de outubro de 2026 14H00
Ao acompanhar o desenvolvimento de um levain, o autor encontrou paralelos inesperados com a vida nas organizações. Alimentar, observar, ajustar o ambiente e respeitar o tempo do processo são gestos que ajudam a entender uma das funções mais importantes da liderança: criar condições para que pessoas e equipes alcancem seu potencial coletivo.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

11 minutos min de leitura
Estratégia
19 de outubro de 2026 08H00
Este é o quinto artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira. Após examinarmos a posição global do país, o acesso a medicamentos e a capacidade científica e industrial, a conversa com Norberto Prestes, da Abiquifi, amplia a investigação para as conexões entre empresas, pesquisadores, universidades e financiamento. Como avaliar investimentos e resultados com informações pouco comparáveis? Entre orçamentos de P&D, incentivos acadêmicos e descobertas de pequenas equipes, buscamos parâmetros para examinar como o conhecimento se converte em aplicações, capacidade econômica e benefícios para a população.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

22 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, User Experience, UX
18 de outubro de 2026 15H00
Recursos avançados, aplicativos e conectividade impressionam, mas raramente são o motivo principal de uma decisão de compra. O que as pessoas realmente buscam é uma solução capaz de tornar a vida mais simples e agradável. O artigo explora por que o sucesso de produtos inteligentes depende menos das funcionalidades e mais da capacidade de entregar uma experiência intuitiva e consistente.

Euclides Ciruelos - Idealizador da SmartLy, diretor responsável técnico da Hotfloor

5 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
18 de outubro de 2026 09H00
Inclusão não se resume ao acesso ao emprego. Ela envolve reconhecimento, desenvolvimento, representatividade e perspectivas reais de carreira. O artigo reflete sobre os avanços conquistados, os desafios que persistem e o papel das organizações na construção de ambientes onde todas as pessoas possam prosperar.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

5 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
17 de outubro de 2026 15H00
Em um momento em que denúncias de assédio, investigações internas e crises de liderança ganham cada vez mais espaço nas organizações, cresce a necessidade de diferenciar autoridade de poder. O texto analisa por que líderes que dependem do cargo ou da imposição para obter resultados acabam comprometendo justamente aquilo que mais precisam preservar: pessoas, confiança e performance.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Estratégia
17 de outubro de 2026 09H00
O artigo propõe uma reflexão sobre como energia, bem-estar, desenvolvimento de lideranças e autonomia deixaram de ser temas periféricos para se tornarem elementos centrais da infraestrutura necessária para escalar negócios sem esgotar os recursos humanos que tornam esse crescimento possível.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

6 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia
16 de outubro de 2026 15H00
Algoritmos, preferências pessoais e vieses cognitivos influenciam diariamente a forma como enxergamos o mundo, muitas vezes sem que percebamos. Em tempos de polarização, excesso de informação e mudanças rápidas, cultivar curiosidade, escuta ativa e abertura para pontos de vista diferentes pode ser um diferencial importante para quem deseja construir decisões mais inteligentes e sustentáveis.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução