Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
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A fadiga de decidir em tempos de excesso

Todos os dias, tomamos milhares de decisões, muitas delas de forma automática. Entre vieses cognitivos, excesso de informação, escassez de tempo e a crescente presença da inteligência artificial, a capacidade de decidir com qualidade tornou-se um ativo cada vez mais valioso. O artigo discute por que preservar o julgamento humano é essencial para navegar em um cenário de complexidade crescente.
Nossa missão é fortalecer um ecossistema dinâmico de colaboração onde startups, empresas e pesquisadores colaboram para desenhar soluções inovadoras e discutir desafios e avanços significativos para o âmbito corporativo. Sempre com uma abordagem sistêmica e inovadora, promovendo reflexões sobre o futuro, visando impulsionar transformações reais e criativas.
Fundadora da RK Mentoring Hub, atua nod esenvolvimento de lideranças e na construção de culturas organizacionais fortes e sustentáveis. Especialista em Transformação Cultural, Engajamento e Carreira Executiva, trabalha para alinhar objetivos individuais e estratégicos, fortalecendo a confiança, o respeito à diversidade e o pensamento crítico — competências essenciais para prosperar em tempos de mudança. Psicóloga, com pós-graduações em Administração de Empresas (IBAM Londres) e Economia Comportamental (FIA Business School), possui mais de 25 anos de experiência em Gestão Estratégica de Recursos Humanos. Prepara líderes para navegar em cenários instáveis, formar equipes de alta performance e consolidar a reputação e os resultados de organizações em diferentes culturas. Cultura

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O quanto deixamos de ganhar por medo de perder? Estudos derivados da Teoria da Perspectiva indicam que uma perda tende a ser percebida como aproximadamente duas vezes mais intensa do que um ganho equivalente. E é exatamente este dado que deixa a tomada de decisão uma tarefa árdua e tremendamente evitada nos dias de hoje. Buscamos atalhos mentais na iminência de fugirmos do trabalho exaustivo de tomar decisões.

A saga começa ao acordar. Para isso, a moda contemporânea tem acompanhado a tendência do preto, branco e o básico repetido diariamente nas vestimentas do cotidiano. O jeans e aquela básica branca ou preta, corta caminho para menos uma decisão no dia. Em seguida, vem o café da manhã, com fórmulas prontas recheadas de proteína ultraprocessada em forma de “shake”.

Ao chegar ao trabalho, é momento de apanhar um café e abraçar a avalanche de reuniões infindáveis. Abrir um livro ou estudar tendências parece ser uma tarefa arriscada demais para quem socialmente precisa ser promovido a fim de pertencer a uma sociedade onde o cargo é mais importante que o ser. Culturalmente somos mais valorizados pela escassez de tempo do que pela busca de atalhos para criar e pavimentar caminhos que nos levam a lugares inóspitos e surpreendentes. Afinal, o mundo corporativo nos obriga a provar através de números o que já deu certo, deixando de lado o ainda pode ser. Aqui marca o início de uma luta interminável com a própria biologia cerebral de facilitar o processamento de informações terceirizando ou simplesmente adiando escolhas.

Quanto mais decisões uma pessoa toma sem recuperação cognitiva adequada, maior a tendência de substituir análise criteriosa por atalhos mentais, optar pela alternativa padrão ou simplesmente evitar decidir. A economia comportamental chama esse fenômeno de fadiga decisória. Isso vale para executivos, CEOs e diretores que possuem a árdua tarefa de participar de dezenas reuniões e aprovações ao longo do dia. Para ilustrar esta complexidade, constatou-se que em média, um adulto americano toma cerca de 35.000 decisões por dia (Pignatiello G. A. Martin R. J.Hickman R. L. (2020). Decision fatigue: a conceptual analysis. J. Health Psychol.25, 123–135) considerando tanto decisões pessoais como organizacionais. Se analisarmos a assertividade nestas decisões, podemos nos basear em um estudo da NASA onde foi constatado que 80% dos acidentes aéreos foram atribuídos a falhas humanas de decisões malconduzidas em circunstâncias incertas (Kale U. Alharasees O. Rohacs J. Rohacs D. (2023). Aviation operators (pilots, ATCOs) decision-making process. Aircr. Eng. Aerosp. Technol.95, 442–451).

A fadiga decisória não poderia ter outros aliados a não ser a escassez de tempo e o excesso de alternativas disponíveis. A abundância de ofertas decisórias acaba evando a vieses cognitivos. Estes vieses são atalhos mentais inconscientes que o cérebro utiliza para processar informações rapidamente e tomar decisões. Embora ajudem a economizar energia mental em um mundo cheio de estímulos, esses atalhos frequentemente geram distorções na lógica, falhas no julgamento ou interpretações irreais dos fatos.

Desta forma, estas armadilhas equivalem a pelo menos 50% dos erros decisórios dentro das organizações (Nutt P. C. (1999). Surprising but true: half the decisions in organizations fail. Acad. Manag. Perspect.13, 75–90). Este fato, acoplado a inclusão das sugestões disponíveis e provenientes da inteligência artificial, ao invés de encurtar o caminho, torna-o ainda mais complexo e ineficaz. Além dos vieses pertencentes ao nosso aparelho cognitivo, contamos agora com os vieses de automação, caracterizados pela confiança excessiva em recomendações da IA. Um artigo científico publicado em 2025 na editora Springer por Giuseppe Romeo e Daniela Conti (Exploring automation bias in human–AI collaboration: a review and implications for explainable AI), revela algo surpreendente.

Após uma crítica análise sobre 35 artigos científicos em torno dos vieses de automação, foi constatado que sugestões falso positivas produzidas por IA, influenciaram os diagnósticos de radiologistas na identificação de aneurismas cerebrais, principalmente em médicos menos experientes. Além disso, outro estudo na área de dermatologia, verificou uma dependência excessiva às sugestões da IA e a carência de autoconfiança em tomar decisões autônomas no processo de escolha.

Nota-se aqui uma tendência contraditória onde há uma confiança extrema nas decisões algorítmicas e inversamente proporcional, um enfraquecimento exponencial das relações interpessoais, marcadas por desconfiança, isolamento e dificuldade de estabelecer acordos bilaterais. Voltamos à estaca zero. A IA, ao invés de encurtar o processo de escolha, traz mais complexidade e gera um enfraquecimento contínuo da capacidade humana de pensar criticamente a fim de estabelecer escolhas conscientes para a melhoria da qualidade de vida das pessoas e do ecossistema onde estão inseridas.

E como sair desta cilada a qual a própria sociedade se imbuiu de providenciar? Como fazer boas escolhas e ao mesmo tempo facilitar a vida? Como evitar a fadiga decisória diante de 35.000 escolhas diárias a se fazer?

Frente às possibilidades infinitas, seleciono 3 alternativas práticas que podem tornar o processo de escolha mais salubre e assertivo:

  1. Planejamento compulsório e constante: Diante da incerteza, traçar alguns planos contingenciais, podem facilitar e muito o processo de escolha, sem consumir muita energia mental. É como automatizar decisões, caso alguns cenários aconteçam. Exemplo: Em situação de dificuldade financeira, quais seriam os primeiros gastos que você poderia eliminar imediatamente? Se for desligado hoje da empresa que trabalha, qual seria a sua atitude no dia 1 após a demissão? Se o seu melhor funcionário pedir demissão, qual deverá ser seu plano de ação emergencial?

  2. Flexibilidade e autoconfiança para mudar de rota: Muito se fala de ação e pouco se comenta sobre preparação. Não se correr uma maratona participando de corridas de 10km, portanto, a ação não exclui a preparação. E estar mentalmente flexível, é um passo estratégico para se adaptar ao novo. Exemplo: Explorar atividades ou lugares que estejam totalmente distantes de tudo o que já fez ou viu na sua vida. Isto exigirá de você flexibilidade no início e autoconfiança ao concluir e ver que foi capaz de conquistar algo que nunca fez.

  3. Descansar a mente é um trabalho árduo. Em um mundo em que o descanso é visto como um fracasso, trabalhar ininterruptamente vai fazer com que suas escolhas fiquem cada vez mais pobres ao longo do tempo. Por isso, é preciso estar com a mente descansada para tomar decisões importantes e que reflitam em sucesso na sua vida e carreira. Exemplo: Ao invés de tirar 2 períodos de férias por ano, tente aproveitar as micropausas do dia como ler por 30 min, fazer uma atividade de relaxamento por 30 min, simplesmente fazer uma caminhada na sua companhia, estar em silêncio consigo mesmo. Nem toda produtividade faz barulho.

Não importa o quanto a tecnologia tenha avançado, o quanto as estruturas organizacionais e o planejamento estejam evoluídos. A ausência do componente humano perde todo o sentido. Esta é uma tarefa única e intransferível. É inconcebível adiar a nossa capacidade de usufruir do livre arbítrio de forma consciente e frutífera e confiar nas relações a ponto de encontrar soluções não obvias que integrem todo um ecossistema vivo. É igualmente inegociável, facilitar a tomada de decisão por meio de atalhos inteligentes e processos bem desenhados para evitar deliberações repetitivas.

Em conclusão, quanto mais o humano aprimorar aquilo que só ele é capaz de exercer com maestria, mais próximo ele estará de uma vida plena, justa e coesa, sem precisar renunciar ao ganho por medo de perder.

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