Artigo

A importância da estratégia em grupos de afinidade

Nos canais de TV por assinatura Telecine, os grupos de afinidade surgiram de forma orgânica, criados por pessoas identificadas com a diversidade
Fundadora e CEO da Blend Edu, startup que já tem em seu portfólio empresas como 3M, TIM, Reserva, Movile, Grupo Fleury, TechnipFMC, Prumo Logística, brMalls etc. Thalita também está presente na lista da Forbes Under 30 de 2019, como uma dos 6 jovens destaques na categoria Terceiro Setor e Empreendedorismo Social.

Compartilhar:

Você já teve ter ouvido falar em grupos de afinidade (GA) ou coletivos de diversidade. Como o nome sugere, são grupos de pessoas unidos por interesses comuns. Pesquisa da Software Advice revelou que 65% das pessoas acreditam que tais redes corporativas trazem impacto positivo no engajamento dos colaboradores, enquanto outros estudos comprovam que a diversidade alavanca a performance.
Ou seja, iniciar um grupo de afinidade pode ser uma excelente estratégia para promover uma cultura de respeito e fomentar a formação de lideranças inclusivas na sua organização.

No entanto, estruturar, lançar e manter esses grupos de maneira efetiva não é tarefa fácil. Muitas empresas acabam construindo essa ação sem o devido aprofundamento e planejamento, e por isso costumam enfrentar dois cenários diferentes, mas igualmente problemáticos:

1. Grupos de afinidade com integrantes desengajados, por falta de alinhamento, estrutura, recursos ou governança.
2. Grupos de afinidade com integrantes tão engajados que todos acabam propondo ações e ideias que fogem do escopo de atuação do grupo.

Desenvolvemos uma metodologia para apoiar e estruturar grupos de afinidade, colocando-os realmente como importantes aliados da estratégia de diversidade e inclusão (D&I) das organizações. Neste artigo, explicaremos nossa metodologia e detalharemos o case Telecine, realizado em 2021, que exemplifica bem como ela é aplicada na prática.

## Unir para integrar
Os employee resource groups (ERGs) foram criados nos Estados Unidos e adaptados para o cenário brasileiro como “grupos de afinidade”, “grupos de diversidade” ou “coletivos de diversidade”. Eles reúnem colaboradores voluntariamente, em um modelo de gestão horizontal. Seus integrantes atuam de forma consultiva em questões ligadas à diversidade (como gênero, raça e etnia, inclusão de pessoas com deficiência, inclusão da comunidade LGBTQIA+, diversidade geracional, entre outras características compartilhadas por seus integrantes).

Em abril de 2020, realizamos uma pesquisa de benchmarking sobre o tema com 45 empresas brasileiras, dentre elas Natura, Carrefour, QuintoAndar, RD Station, Easynvest, Prudential, Tim, Ambev e outras. Cerca de 70% dos entrevistados dessas empresas afirmaram que possuem “grupos de afinidade/diversidade” como uma das dez ações mais recorrentes em seus programas de diversidade.

Ao explorarmos quais os principais objetivos desses grupos, vimos que foi unânime a resposta de “conectar pessoas, proporcionando um ambiente de troca”. Em seguida, também observamos um volume expressivo (82%) de empresas que associam o grupo de diversidade ao objetivo de operacionalizar ações internas, de validar ações do programa de D&I (64%) ou de realizar ações para engajar os líderes de negócio (61%). Um volume menor de empresas tem o objetivo de realizar ações para atrair talentos diversos.

Nem sempre, porém, as empresas conseguem aproveitar os benefícios que esse tipo de grupo traz. A partir da nossa experiência de mercado, apoiando mais de 60 grandes empresas e marcas, nós observamos os seguintes erros mais comuns na elaboração dos grupos de afinidade:

1. Não pensar na governança do programa de diversidade como um todo (e como o grupo de afinidade se encaixa nessa governança).
2. Esperar que o grupo de afinidade seja o principal responsável por endereçar e resolver problemas estruturantes da organização.
3. Não definir bem o objetivo do grupo e o que a organização espera atingir como resultado dessa iniciativa.
4. Lançar o grupo sem refletir sobre seu público-alvo, forma de seleção e quem é elegível a participar.
5. Achar que o grupo terá completa autonomia e funcionará organicamente desde o primeiro dia.
6. Não oferecer os recursos necessários para o trabalho do grupo de afinidade.

Com a nossa metodologia, é possível evitar esses erros, como apresentamos a seguir.

O que se faz em um programa de diversidade
Setenta por cento das iniciativas têm grupos de afinidade entre suas ações mais comuns

Comunicação: campanhas e ações para potencializar uma comunicação inclusiva interna e externamente | 88%

Eventos para o público interno sobre o tema | 88%

Participação em redes empresariais e grupos de networking e diversidade | 80%

Atração, recrutamento e seleção de candidatos diversos | 80%

Programas de treinamento e desenvolvimento para colaboradores | 75%

Programa de treinamento e desenvolvimento para líderes | 70%

Infraestrutura física | 70%

Canal de denúncias ou ouvidoria para reportar casos de desvio associados à diversidade | 70%

Grupos de afinidade ou de diversidade para colaboradores da organização | 70%

Indicadores: monitoramento de indicadores | 68%

## Caixa de ferramentas
Chamamos nossa metodologia de “Toolkit de Diversidade”, e abrimos uma das nossas ferramentas para o mercado, o [canvas dos grupos de afinidade](https://conteudo.blend-edu.com/canvas_grupos_afinidade?material_baixado_hidden=canvas_grupos_afinidade%5D), a base para desenhar a estratégia desse tipo de iniciativa.

Um canvas nada mais é do que uma forma enxuta e visual de representar ideias. Ele sintetiza em uma página os principais pontos a serem analisados e estruturados para que grupos de afinidades sejam efetivos para a estratégia de diversidade da organização.

A metodologia ajuda a construir e administrar novas comunidades internas, ou analisar e melhorar as já existentes. Também ajuda a identificar os temas fundamentais e a fazer as perguntas certas para que seu GA realmente atinja bons resultados.

Nosso canvas é dividido em três grandes atributos que toda comunidade de sucesso possui bem delimitados:
– __Identidade:__ comunidades fortes têm uma noção clara de quem elas são, por que existem e o que defendem.
– __Experiência:__ é o que realmente acontece na comunidade e como transmite o propósito em atividades que criam valores tangíveis para os membros.
– __Estrutura:__ grupos de afinidade de sucesso se organizam em estruturas que garantem sua sustentabilidade no longo prazo.

O preenchimento do canvas acontece inicialmente de cima para baixo e, em seguida, da esquerda para a direita, seguindo a numeração de cada quadro/caixa da metodologia. Caso a empresa esteja planejando lançar seus grupos, o preenchimento preliminar do canvas pode ser feito pela própria equipe de diversidade e, posteriormente, refinada pelos integrantes dos grupos. Caso a empresa já tenha coletivos ou grupos de afinidade ativos, o preenchimento pode acontecer de forma colaborativa, convidando os representantes de cada grupo a participar.

No fim do processo, é importante entender que nosso canvas deve ser encarado como um documento vivo, que passará por processos periódicos de revisão e atualização.

## O processo no Telecine
O projeto de reestruturação a operação dos coletivos de diversidade do Telecine com base no canvas desses grupos aconteceu em 2021. Os encontros aconteceram em formato virtual, com o apoio de ferramentas de facilitação digital como Mural e Zoom.

Para trazer mais detalhes sobre esse projeto, no seu encerramento conversamos com Bernardo Bicalho e Raquel Marques, responsáveis por coordenar as ações de diversidade da empresa, e Thiago Dutra, integrante do coletivo Tela Preta e participante dos workshops que realizamos.

No Telecine, a área de pessoas e cultura é responsável pela gestão da diversidade, mas a pauta envolve a empresa como um todo. Segundo Bicalho, os grupos de afinidade, que na empresa são chamados de coletivos, surgiram de forma orgânica. “Os colaboradores com perfis ligados às afinidades se uniram para trazer essa pauta para a empresa. Vimos o valor dessa iniciativa e a partir daí nos estruturamos para organizar o pilar de D&I do Telecine”, explica.
Atualmente, a empresa tem três coletivos: ColorBar (LGBTQIA+), Tela Preta (negro) e o Juntos (PcD). Raquel Marques explica que o objetivo é proporcionar aos colaboradores um ambiente diverso e pautado na equidade, “favorável ao autodesenvolvimento profissional por meio de uma jornada no qual estejam sempre engajados para realizar o seu propósito e o da empresa”.

Os grupos de afinidade estão entre as dez ações mais frequentes nos programas de D&I no Brasil, e para a equipe do Telecine os benefícios são claros. “São espaços seguros, de trocas, desenvolvimento e lugar de fala. Acreditamos que os grupos são importantes para que os colaboradores com perfis ligados a essa pauta se sintam pertencentes e acolhidos no ambiente de trabalho, além de impulsionar a construção de um ambiente plural e diverso interna e externamente”, explica Bicalho.

Sob o chapéu da governança, a área de pessoas e cultura construiu a estratégia com os coletivos, mantendo seus integrantes como protagonistas da discussão. Nossa missão foi facilitar os encontros de (re)estruturação dos coletivos em parceria com os representantes. Como os grupos se formaram organicamente, alguns pontos estavam desestruturados, o que desmotivava os integrantes, que não entendiam o posicionamento da marca e os processos de cada área.

A partir da metodologia da Blend Edu, criamos o canvas dos grupos de afinidade, definimos alguns aspectos-chave para planejar o lançamento de novas comunidades internas e a reestruturação das que já existiam, e com isso refletimos sobre aspectos como a identidade do grupo, a experiência que ele quer proporcionar para os participantes e a estrutura à qual tem acesso.

O canvas foi a base para organizarmos os workshops com a equipe do Telecine, usando salas simultâneas no Zoom e ferramentas de facilitação virtual. Marques afirma que essa metodologia facilitou bastante o trabalho por ser prática, ajustável, de fácil acesso e visual. “Com esse material, tivemos a oportunidade de definir os pilares estratégicos com a participação dos integrantes dos grupos. E a partir dos resultados a que chegamos, elaboramos um manual detalhado e personalizado com filmes do nosso acervo para torná-lo ainda mais acessível. Além disso, incluímos esse material no nosso onboarding, para que os novos colaboradores conheçam o trabalho de D&I do Telecine assim que começam a trabalhar na empresa.”

Para Thiago Dutra, do coletivo Tela Preta, além de ampliarem o conceito de diversidade, os encontros ajudaram a entender melhor o papel dos grupos de afinidade para a implementação do pilar de diversidade na empresa. “Já entendia o papel dos grupos como ambientes de acolhimento para os integrantes e os colaboradores recém-contratados, mas o processo também colaborou para compreender seu papel nas metas e diretrizes de negócios”, afirma.

“A construção e o resultado final do canvas ajudaram bastante o coletivo Tela Preta a se organizar melhor, com definições de papéis e responsabilidades para todos (líderes, sponsor e integrantes). Também ficou mais evidente o propósito e o objetivo do grupo. Com essas premissas bem definidas, ficou mais fácil traçar a estratégia do coletivo”, acrescenta. Para Dutra, o canvas também ajudou a apresentar o conjunto para os stakeholders e a definir calendários de ações.

O PRIMEIRO PASSO QUANDO SE PENSA EM GRUPOS DE AFINIDADE é definir sua estrutura, a partir dos objetivos e estratégias da empresa. É sempre bom quando essas iniciativas partem da base, mas a empresa precisa estar atenta para que os grupos se mantenham afinados com uma política de diversidade e inclusão mais ampla. Assim, é possível garantir os resultados e também o engajamento dos colaboradores com a pauta, identificando oportunidades e recursos em cada área.

Um levantamento de dados preliminar pode ser um bom ponto de partida, e a ajuda de uma consultoria especializada também pode colaborar para a consolidação desse pilar internamente, com protagonismo dos integrantes dos coletivos – que são os maiores interessados na pauta.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O cérebro é um velcro para críticas e um teflon para elogios

Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

O prêmio do julgamento na era da inteligência abundante

Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Quando a tecnologia muda, o legado permanece

Enquanto os ciclos tecnológicos se tornam cada vez mais curtos, organizações enfrentam um desafio permanente: transformar inovação em resultados concretos e que gere valor para o negócio no longo prazo.

Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

7 minutos min de leitura
ESG, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de agosto de 2026 12H00
Durante anos, a baixa presença de pessoas com deficiência em posições de liderança e crescimento foi atribuída à suposta falta de qualificação. Os dados, porém, mostram outra realidade. O artigo discute como barreiras estruturais, vieses organizacionais e a ausência de oportunidades de desenvolvimento ajudam a explicar por que profissionais qualificados continuam encontrando obstáculos para avançar em suas carreiras, mesmo após a contratação.

Carolina Ignarra - CEO da Talento Incluir

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, ESG
28 de agosto de 2026 07H00
O voluntariado corporativo emerge como uma ferramenta capaz de aproximar propósito, liderança e transformação social. No Dia Nacional do Voluntariado, o artigo convida empresas e profissionais a refletirem sobre o papel que podem desempenhar na construção de oportunidades, no desenvolvimento de pessoas e no fortalecimento de uma sociedade mais justa.

Ana Carolina Viana - Vice-Presidente de Operações Industriais da Braskem no Brasil

3 minutos min de leitura
Vendas, Tecnologia & inteligencia artificial
27 de agosto de 2026 18H00
A IA já é capaz de automatizar uma parte significativa das atividades comerciais, da prospecção à geração de propostas. Mas isso não torna o vendedor menos relevante. Pelo contrário. Ao retirar tarefas operacionais da rotina, a tecnologia eleva a exigência sobre aquilo que continua sendo exclusivamente humano: interpretar contextos, construir confiança, fazer perguntas melhores e ajudar clientes a tomar decisões.

Carol Manciola - CEO da Conectas

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
27 de agosto de 2026 15H00
Se os algoritmos passam a apoiar decisões, automatizar processos e influenciar estratégias, qual passa a ser o verdadeiro papel do CEO? O artigo explora o surgimento do Chief AI Officer e mostra por que o papel do CEO deixa de ser apenas gerir pessoas e negócios para incluir decisões sobre os limites, responsabilidades e impactos da IA dentro das organizações.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Liderança
27 de agosto de 2026 08H00
O mercado de M&A tem demonstrado que empresas com bom potencial nem sempre conseguem converter interesse em transação. Muitas vezes, a diferença está na qualidade da governança. Ao discutir sucessão, gestão, acordos societários e profissionalização da tomada de decisão, o artigo explica por que a governança se tornou um dos principais fatores de geração de valor para o middle market brasileiro.

Jefferson Nesello - Cofundador & Managing Partner na Zaxo M&A Partners e Conselheiro de Empresas

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
26 de agosto de 2026 14H00
A norma exige que as empresas avaliem fatores como jornada, ritmo, metas, autonomia e organização do trabalho. Em nenhum momento a NR-1 fala sobre diagnósticos individuais. Ainda assim, grande parte das organizações respondeu com pesquisas de saúde mental e mapeamentos de sintomas. Agora, com a suspensão temporária das multas pelo STF até setembro, surge uma oportunidade rara: abandonar as respostas equivocadas e voltar à pergunta original que a norma sempre fez sobre o trabalho, e não sobre as pessoas.

Claudia Cavallini - Psicóloga, psicanalista e professora convidada da HSM

8 minutos min de leitura
Marketing & growth, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de agosto de 2026 08H00
Freelancers, consultores, creators e pequenas agências estão redesenhando a lógica de crescimento no marketing digital. Em vez de ampliar estruturas, apostam em tecnologia para expandir capacidade, ganhar eficiência e aumentar resultados. O desafio agora não é apenas fazer mais em menos tempo, mas construir operações capazes de escalar com inteligência, previsibilidade e qualidade.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
25 de agosto de 2026 14H00
O artigo mostra que inovação não é um destino nem um grande projeto isolado, mas um processo contínuo de testar hipóteses, aprender com evidências e evoluir com intenção estratégica.

Thomas Rebergue - Chief Business Officer da GINGA

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional
25 de agosto de 2026 08H00
O artigo demonstra que a criatividade deixa de ser atributo exclusivo da inovação e passa a ocupar um papel central na capacidade das organizações de compreender problemas complexos e construir soluções que gerem valor no longo prazo.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up, futurista e especialista em sustentabilidade e live marketing.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução