Contagem regressiva

Alfabetizar-se em futuros é preciso

Pioneira em futurismo e novas economias, a nova parceira da HSM advoga por futuros desejáveis e colaboração

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## 5 – Todos temos de ser futuristas? E como sê-lo?
Eu diria que todos precisamos ser alfabetizados em futuros. Uma boa analogia é com a saúde: não precisamos ser todos médicos, mas todos temos de saber fazer escolhas que gerem uma saúde melhor. Antes, o futuro demorava pelo menos décadas para chegar; agora, leva anos. Então, sem compreender o que pode acontecer, não conseguimos fazer escolhas melhores na vida pessoal, profissional, empresarial etc.

O que dá para fazer? Primeiro, informar-se não só sobre problemas; é importantíssimo se informar sobre as soluções. A maioria já está criada, basta conhecer, adotar e recombinar. Segundo, conhecer história. Tanto é que talvez o maior historiador vivo do momento, Yuval Harari, se tornou futurista também, porque a história mostra tendências e padrões, inclusive o padrão de ver toda descoberta como absurda no início, tipo a eletricidade.

O “futuring” ajuda você a se tornar um melhor gestor, com mais capacidade de fazer boas escolhas, e entendendo a interdependência e as escolhas coletivas.

## 4 – Que método de futurismo “amador” é bom?
Num passo a passo, o primeiro é identificar os três tipos de futuro: o provável, o desejável e o possível. O provável normalmente está baseado no passado e interessa para a tomada de decisão do futuro de curto prazo. O desejável é o que a gente quer que aconteça – é a semente das inovações.

O possível combina os dois, provável e desejável.
Pense em um ovo e um pássaro. O futuro provável é como cuidar dos ovos ou aprimorá-los.

O futuro desejável é o pássaro que aparece quando a casca do ovo se rompe, algo completamente diferente do que se conseguiria supor olhando para o ovo. Você precisa ser capaz de imaginar o inimaginável. [Veja quadro ao final.]
Vou contar alguns segredos. Primeiro, a única certeza em relação ao futuro é que ele não será aquilo que é provável que ele seja. O livro de Nassim Taleb, A lógica do cisne negro, mostra como grandes mudanças históricas foram, na verdade, muito pouco percebidas, porque eram improváveis. Segundo, é crucial pensar não apenas em futuro em termos de tecnologia. Eu, por exemplo, sou uma futurista sociocultural. Terceiro: deve-se usar o futurismo não só para desenhar produtos, mas também para desenhar processos.

## 3 – Como as empresas devem agir quanto ao futuro?
Empresas precisam, antes de tudo, contratar produtos e serviços de futuristas, porque cada uma conhece o seu negócio, mas não tem, como expertise, enxergar futuros e ajudar a desenhá-los. Sem expertise, elas vão enxergar só senso comum.
Eu tenho métodos para design e viabilização de futuros desejáveis. Como é muito complexo pensar em futuro, é importante ter ferramentas que sejam simples, como a fluxonomia 4D. O futuro pode ser visto em quatro dimensões, como os quatro pontos cardeais e os quatro elementos, para os antigos: cultural (competências, criatividade, propósito), ambiental (infraestrutura natural e tecnológica), social (tudo ligado ao fazer junto) e financeira (recursos não só monetários e tempo).

A gente trabalha o futuro nessas quatro dimensões, dando “voltas numa espiral” e passa por todas elas – isso é o fluir. Veja o caso da Natura quanto a novos negócios com a Amazônia. Na primeira volta, a dimensão cultural pode ser uma ideia de produto. Na ambiental, reunir ativos, ingredientes, fábrica e produzir isso. Na social, envolver o ecossistema nesse futuro – a força de vendas, a comunicação. E, na financeira, projetar a venda propriamente dita, a contabilização etc. Dependendo de como se faz isso, é possível gerar mais valor, garantindo exponencialidade e longevidade.

A segunda volta tem a ver com como você fazer isso para ser esse futuro ser exponencial e longevo. Na dimensão cultural, gera valor pelos propósitos de brasilidade, sustentabilidade, diversidade. Na ambiental, por operar de forma efetivamente sustentável e em rede. Na social, vem a relação ganha-ganha e transparente com o ecossistema. E, na financeira, a repartição de benefícios com as comunidades extrativistas etc.

Dá para ter uma ideia: a maioria das empresas faz apenas a primeira volta, operacional, que gera receita, linear, limitada. Mas é na segunda volta que ela pode gerar valor, credibilidade que gera crédito. Aos gestores dessas empresas, eu daria o seguinte conselho: pensem duas vezes se vocês vão investir em máquinas ou em pessoas, em processos, em inteligência. Eu investiria no soft e não no hard.

## 2 – Como autora do livro Novas economias viabilizando futuros desejáveis (finalista do Prêmio Jabuti 2020) e criadora do movimento “Crie futuros”, você acha que um país em crise, como o Brasil, favorece ou dificulta a criação de futuros desejáveis?
Rapidamente queria falar do movimento, nascido com um prêmio espanhol: ele tem o objetivo de fomentar a criação de futuros não distópicos. Estamos supertreinados a ver catástrofe e a ser pessimistas; até o Harari já disse num podcast que ele não consegue imaginar futuros desejáveis, não distópicos.

Nesse movimento, pensamos no que serve ao bem comum, é mais sustentável e segue as dinâmicas da novas economias – criativa, compartilhada, colaborativa, multimoedas. Meu foco é sempre trabalhar o humano, o desenho organizacional e os processos – novos. Pouca gente pensa processo de futuro, e isso é absolutamente fundamental, sobretudo neste momento.

Quanto ao Brasil, eu diria que o grande desafio de trabalhar com futuro aqui é encarar os problemas sem se paralisar. Precisamos parar de listar problemas e focar em conhecer as soluções que já existem. São muitas! Precisamos dar crédito a elas, adotar. Nossa baixa autoestima faz com que a gente inove pouco. Daí vem o escapismo, que é o oposto da construção de futuro.

## 1 – Que país fez uma boa construção de futuro em sua opinião?
A China fez. Uma das razões de seu crescimento foi a priorização da economia criativa como futuro. Eu sei bem disso porque tive o privilégio de trabalhar entre 2005 e 2010 como assessora da ONU em economia criativa e acompanhei o processo chinês. Já no Brasil a gente vê pouco uso da economia criativa.

Um exercício de futuro
por Lala Deheinzelin

Vamos construir juntos um futuro desejável? Calcule quantas horas por dia você passa diante de uma telinha. Imagine que, um domingo por mês, ao longo de um ano, você dedique 3 horas a ensinar algo que sabe. E que um terço da população brasileira faça o mesmo. Pronto! Conseguiríamos fechar o gap do déficit educacional brasileiro, que é de 3,5 milhões de anos letivos! O futuro desejável se torna possível com a soma de nossas horas mensais ensinando. E, claro, aprendendo! Pesquise a solução que inspira esse futuro: SOLE: Self Organized Learning Environment.

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