User Experience, UX, Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

Antes de encantar, tente não atrapalhar o cliente!

Quando a experiência falha, o problema raramente é tecnologia - é decisão estratégica. Este artigo mostra que no fim das contas o cliente não quer encantamento, ele quer previsibilidade, simplicidade e pouco esforço.
CMO da Algar, Ana Flávia Martins tem mais de 30 anos de experiência em marketing e negócios, com foco em business, estratégia empresarial, franquias e mercados B2B, B2B2C e B2C. É formada em Comunicação Social, com especializações em Marketing, além de MBA em Gestão e Empreendedorismo e Negócios Varejo. Atualmente, lidera a estratégia de mercado da companhia, contribuindo diretamente para a performance comercial e os resultados do negócio

Compartilhar:

Existe um equívoco silencioso no mundo corporativo, acreditar que experiência do cliente é sobre encantar. Não é! Experiência do cliente é, antes de tudo, sobre remover obstáculos. Sobre fazer o básico funcionar sem esforço. É sobre eliminar aquilo que obriga o cliente a pensar demais, esperar demais ou repetir demais.

O verdadeiro inimigo da experiência não é a falta de inovação. É a fricção invisível, aquela que nasce dentro da empresa e só aparece quando o cliente tenta resolver algo simples. E ela está em todo lugar. Está no formulário longo demais e nas várias etapas a serem superadas. Está no prazo indefinido, no processo que exige validações internas que fazem sentido apenas para quem o criou. Está, principalmente, na soma de decisões isoladas que nunca consideraram a jornada completa do cliente.

Muitas empresas acreditam estar evoluindo em experiência porque investiram em tecnologia, criaram aplicativos, automatizaram atendimentos e digitalizaram processos. Mas aqui está um ponto que ainda passa despercebido, digitalizar fricção continua sendo fricção, apenas em formato eletrônico. O que tende a irritar ainda mais o cliente.

O problema, na minha visão, é mais profundo. Experiência do cliente ainda é tratada como projeto operacional, quando deveria ser tratada como estratégia. E a estratégia de verdade precisa resistir a testes rigorosos. Como destacam Mehrdad Baghai, Sven Smit e Patrick Viguerie, em estudo clássico da McKinsey sobre qualidade estratégica, existem dez testes atemporais capazes de avaliar se uma estratégia é realmente robusta. O pior é que a maioria das empresas não passa sequer por três deles, e não é difícil entender por quê. As iniciativas parecem corretas na teoria, mas frágeis quando confrontadas com a realidade operacional.

Um desses testes é simples. Sua estratégia cria uma vantagem difícil de copiar?  Na experiência do cliente, essa vantagem não vem do design bonito ou do atendimento simpático. Vem da capacidade de eliminar esforço. As empresas que conseguem fazer isso constroem algo raro, a confiança operacional. O cliente não precisa torcer para dar certo, ele sabe que vai funcionar.

Ainda de acordo com o estudo da McKinsey, outro erro recorrente é tentar melhorar a experiência para todos, em todos os momentos. Isso é impossível e, arrisco dizer, estrategicamente ingênuo. Grande parte do crescimento vem de decisões sobre onde competir, não apenas como competir. Isso vale também para experiência. Nem toda jornada tem o mesmo peso, ou seja, nem todo cliente exige o mesmo nível de atenção. Eliminar fricção para os momentos certos – aqueles que concentram valor e impacto – é o que realmente transforma experiência em resultado econômico e no tal encantamento.


Ignorar os sinais custa caro

Existe ainda um padrão perigoso, que é reagir tarde demais. Empresas normalmente só monitoram e, consequentemente, percebem a fricção quando vira reclamação. O churn cresce e o concorrente oferece algo mais simples. Mas, podem ter certeza, os sinais aparecem antes e estão visíveis para quem decide olhar: retrabalho frequente, exceções constantes, clientes que desistem no meio do caminho. Esses são sinais estratégicos. Ignorá-los custa caro!

Outro obstáculo silencioso são os vieses internos. Executivos tendem a acreditar que a experiência é simples porque conhecem o processo por dentro. No entanto, aquilo que parece lógico internamente pode ser exaustivo externamente. Eliminar fricção exige humildade e coragem porque, no fim, simplificar não é apenas um desafio técnico, mas uma decisão estratégica. Exige abandonar regras antigas, revisar políticas históricas e, muitas vezes, abrir mão de controles que servem mais à empresa do que ao cliente.

E aqui está, para mim, o ponto central, a experiência do cliente não falha por falta de tecnologia. Falha por falta de convicção. Convicção de que o cliente não quer ser surpreendido com algo extraordinário. Ele quer algo previsível, simples e sem esforço. Portanto, tirar fricção não é discurso, é decisão. Como ressaltam os mesmos autores, um dos testes mais exigentes de qualquer estratégia é justamente a capacidade de traduzir intenção em ação concreta, com responsáveis e recursos claramente definidos. Sem essa tradução, estratégia vira promessa em vez de transformação.

Durante décadas, vantagem competitiva foi associada a escala, preço ou tecnologia. Hoje, ela está cada vez mais associada a algo menos visível, porém poderoso, a capacidade de não atrapalhar.  No fim, em um mundo onde tudo pode ser copiado rapidamente, a empresa que vence não é a que faz mais. É a que faz mais fácil.

Compartilhar:

CMO da Algar, Ana Flávia Martins tem mais de 30 anos de experiência em marketing e negócios, com foco em business, estratégia empresarial, franquias e mercados B2B, B2B2C e B2C. É formada em Comunicação Social, com especializações em Marketing, além de MBA em Gestão e Empreendedorismo e Negócios Varejo. Atualmente, lidera a estratégia de mercado da companhia, contribuindo diretamente para a performance comercial e os resultados do negócio

Artigos relacionados

74% das marcas poderiam desaparecer – e ninguém sentiria falta

No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

O Brasil na corrida farmacêutica global

Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Sem operação, agentes inteligentes são apenas promessas

IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real – e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Empreendedorismo
29 de maio de 2026 15H00
O problema não é a falta de empreendedoras, é um sistema que ainda não foi feito para elas. Este artigo mostra por que a formalização ainda é um obstáculo estrutural - e como redesenhar o sistema para transformar negócios invisíveis em motores reais de desenvolvimento econômico.

Ana Fontes - Empreendedora social, fundadora da Rede Mulher Empreendedora e Instituto RME, VP do Conselho do Pacto Global da ONU

6 minutos min de leitura
Marketing, Inovação & estratégia
29 de maio de 2026 12H00
No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

Pedro Del Priore - CEO da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia, Marketing
29 de maio de 2026 08H00
Este artigo revela por que o diferencial das marcas deixou de ser produção e passou a ser sensibilidade - a capacidade humana de interpretar cultura, criar significado e, sobretudo, ser lembrada.

Maurício Mansur - Fundador da IAMKT

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 17H00
Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

20 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
28 de maio de 2026 13H00
IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real - e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

3 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
28 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra como o mercado voluntário de carbono foi da narrativa ambiental para a lógica de investimento - e por que empresas que ainda tratam o tema como reputação estão ignorando uma nova infraestrutura de valor global.

Eduardo Joaquim da Silva - Coordenador do Comitê Estratégico e Expansão de Negócios da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão