Inovação & estratégia
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Brasil, inovação e o setor farmacêutico

Este é o primeiro artigo de uma série de cinco que investiga o setor farmacêutico brasileiro a partir de dados, conversas com líderes e comparações internacionais, para entender onde estamos, como o capital vem sendo alocado e até que ponto a indústria nacional consegue, de fato, gerar inovação e deslocamento tecnológico.
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

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A conversa com um CEO e os primeiros indícios dos padrões do setor

Jaeder Morais, CEO nessa indústria, me aguardava no portão de entrada desse ecossistema, para lançar luz e guiar-nos na exploração dos fatos, das correlações e das possibilidades de que o país dispõe pela dimensão da população e pelas estruturas públicas e privadas existentes.

Logo de cara Jaeder trouxe um pouco sobre a taxonomia do setor farmacêutico brasileiro. Ele claramente sabe do que fala e tem na cabeça onde estão os cruzamentos e as sinuosidades do conjunto da obra.

Meu primeiro desconforto aconteceu logo com a primeira contextualização: “temos recursos baratos, com alta disponibilidade, dentro e fora do país, com o Brasil oferecendo juros de 6 a 7% ao ano e prazos de até 12 anos, através de mecanismos sofisticados como BNDES, FINEP e Banco do Nordeste, entre outros.

Há ainda oferta de capital por organismos internacionais como a International Finance Corporation (IFC), o Banco Mundial (BM), o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), que possuem linhas de fomento para saúde e indústria com taxas acessíveis, períodos longos de amortização e condições favoráveis”.

Não parou por aí. “O setor é altamente subsidiado por incentivos fiscais em todas as esferas. Da União aos municípios, passando pelos estados, sempre há algum desconto, mecanismo extraordinário ou incentivo indireto voltado à indústria química e biotecnológica”.

Vale lembrar que, ainda assim, dado o sistema tributário brasileiro – complexo, pesado e punitivo –, a complexidade operacional do país e o custo de capital em níveis historicamente elevados, fatores que compõem o popular Custo Brasil, esses incentivos não nos colocam em pé de igualdade com os pares desenvolvidos. No máximo, reduzem parcialmente essa distância, ainda que não saibamos medi-la com precisão.

Seguindo na conversa que me colocou em condições investigativas, Jaeder mencionou que o setor conta também com margens elevadas e fortes barreiras regulatórias, que separam os atores incumbentes de possíveis novos entrantes.

Sobre as empresas e os investimentos do setor, ele trouxe um ponto importante para esse contexto: o mercado farmacêutico brasileiro reúne hoje pouco mais de 220 empresas, e parte relevante da consolidação da indústria nacional ganhou impulso a partir de 1999, no governo FHC, com a Lei dos Genéricos.

Embora tenha sido acelerado por um contexto facilitador, como nos faz crer o texto acima, e alcançado números impressionantes de volume e receita – R$ 160,7 bilhões em 2024¹ – o setor parece seguir tendo uma baixa taxa de investimentos em P&D.

Segundo o grupo Farma Brasil, entidade que congrega as principais empresas do setor, a indústria farmacêutica deveria investir R$ 16 bilhões até 2026. Essa afirmação foi feita pela entidade em 2024. Decompondo essa informação, pode-se presumir a taxa relativa de investimentos.

Ainda de acordo com a nota, a injeção de recursos seria dividida em duas frentes: R$ 8,5 bilhões deveriam custear a aquisição de máquinas, equipamentos e construção de novas plantas, o que não se constitui em P&D diretamente, e R$ 7,5 bilhões deveriam ir para pesquisa e desenvolvimento de novos medicamentos.

Se os investimentos do setor acompanhassem a nota da Farma Brasil, que cita entre 6% e 14% da receita em investimentos, esse total poderia ser presumido em R$ 22 bilhões, ou US$ 4 bilhões, e daí presumido o valor em P&D puro. Ocorre que outras fontes importantes de dados e informações, como IBGE, BNDES e Interfarma, reduzem esse valor a algo entre R$ 3 e R$ 5 bilhões anuais quando se trata de P&D, o que em dólares representa algo como US$ 1 bilhão em investimentos.

Para efeitos de comparação, é a metade do que investe a 25ª empresa farmacêutica colocada no ranking de investimentos em P&D no mundo, apresentado por Brian Buntz no site Drug Discovery & Development², a Otsuka Holdings, que investiu US$ 1,93 bilhão em 2024. A primeira colocada foi a Merck, com investimentos na ordem de US$ 17,94 bilhões, presumidamente 17 vezes o setor brasileiro combinado.

O leitor deve se perguntar se essa combinação de dimensão do país, incentivos, e presença de tantas empresas robustas, nacionais e internacionais, atuando no Brasil, em contraste aos valores de investimentos que o setor indica, não indica alguma contradição, ou, ao menos, alguma desconexão causal.

Jaeder me provocou em relação a esse tema: segundo ele, a indústria nacional ainda tem investimentos concentrados no aumento da capacidade de cópia. Com pouco investimento no desenvolvimento de novas moléculas – sem desconsiderar iniciativas relevantes, que citaremos nos artigos futuros –, na visão de Jaeder o setor aprendeu a capturar valor por outras vias, como, por exemplo, a dos aperfeiçoamentos incrementais de formulação em moléculas pós-patente.

Em vez de depender apenas da descoberta de novos princípios ativos, passou a refinar medicamentos já conhecidos por meio de funções acessórias capazes de melhorar sua tolerabilidade, conveniência de uso ou desempenho terapêutico marginal, como revestimentos gastrorresistentes, mecanismos de liberação modificada e associações voltadas à redução de efeitos adversos. Trata-se menos de inovação densa e mais de uma capacidade industrial de extração contínua de valor sobre bases farmacológicas já consolidadas.

Como benchmark de política pública, Jaeder mencionou a Índia. A comparação faz sentido se o ponto central for menos a invenção original de moléculas e mais a construção deliberada de capacidade industrial. A trajetória indiana foi marcada por escolhas institucionais decisivas, entre elas o regime de patentes consolidado em 19703, que favoreceu a engenharia de processo e a formação de uma base produtiva doméstica, e isso ajudou o país a se transformar em uma potência farmacêutica frequentemente tratada como “farmácia do mundo”.

Hoje, a Índia é apresentada por fontes oficiais como a maior fornecedora global de genéricos em volume, com cerca de 20% da oferta mundial, além de manter papel central na produção de vacinas e na manufatura para mercados regulados. A própria FDA destaca que o país reúne o maior número de instalações farmacêuticas sob sua supervisão fora dos Estados Unidos4.

O ponto mais forte do caso indiano, portanto, não é exatamente inovar na fronteira, mas absorver conhecimento existente, reproduzir com rapidez, escalar com eficiência e transformar isso em capacidade manufatureira, exportadora e regulatória. Nesse sentido, o benchmark é válido.

Mas ele precisa ser qualificado: a Índia, como o Brasil, ainda preserva forte dependência externa em IFAs (Insumo Farmacêutico Ativo, o “ingrediente” principal que produz a ação terapêutica) e intermediários. Em 2024-25, importou cerca de US$ 4,35 bilhões nesses itens, dos quais 73,7% vieram da China, e o próprio governo5 passou a tratar essa fragilidade como problema estratégico, com programas específicos para ampliar a produção doméstica de APIs e empurrar o setor para mais P&D.

Jaeder me levou a refletir sobre um conjunto estrutural, de dados e de correlações que podem nos levar a possíveis e boas hipóteses sobre o setor.

Onde a conversa terminou e a investigação começou

Logo que terminamos essa conversa, percebi que a jornada de exploração do setor seria trabalhosa.

No instante seguinte, me vi navegando no Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico, que compreende dados compilados pelo governo brasileiro, e em fontes de dados de países como Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e França, além de informações da OCDE.

E é a partir das inúmeras tabelas que o anuário brasileiro apresenta que vamos investigar, em parceria com lideranças do setor, onde o Brasil está, e para onde parece estar se dirigindo. Contando com a ajuda de Jaeder, que sugeriu lideranças com condições de construir conosco esse cenário, vamos explorar o setor.

À primeira vista, o país parece estar dentro da fronteira tecnológica quando consideramos o acesso a novos tratamentos. Olhando para a fatia que os biológicos representam do faturamento total, assim como os medicamentos considerados “novos”, percebe-se que a inovação está presente no país, mesmo que tenha origem estrangeira – casos de medicamentos realmente originados no Brasil existem, mas são poucos e muito concentrados, já os casos de produção local, nacionalização de IFA e absorção tecnológica são bem mais numerosos.

Mas cautela é importante. A participação do grupo sofisticado de medicamentos sobre o faturamento total do setor pode representar um índice enviesado, e não indicar acesso real e amplo a esses medicamentos pela população.

Olhando para o topo do ranking de faturamento do setor, vemos substâncias como pembrolizumabe, semaglutida, trastuzumabe, nivolumabe, pertuzumabe, trastuzumabe deruxtecana e daratumumabe, o que, ao prejuízo temporário do leitor pela falta de intimidade com as especificidades do setor, indica modernidade na oferta Brasileira.

Ao mesmo tempo, provocando ruptura nessa percepção, as apresentações com mais de 10 anos de mercado responderam por 46,4% do volume comercializado. Esses dados podem apontar para um mercado dual: inovação forte no topo do valor, mas base volumétrica ainda madura. Em outras palavras, pode significar que os medicamentos modernos estão aqui, mas discretamente, sem ampla difusão entre a população.

E seguindo para uma observação inicial de dados de outros países, há indícios de que países ricos combinam base massiva de terapias maduras, mas ao mesmo tempo têm uma difusão mais ampla de terapias novas em comparação com o Brasil. Em outras palavras, pode haver indicações de que as terapias consolidadas se mantêm em todos os países, mas as populações de outros países têm mais acesso que os brasileiros a tratamentos modernos.

Para exemplificar, o próprio anuário mostra isso de forma indireta: antineoplásicos e imunomoduladores lideram o faturamento com 22,8%, mas representam só 1,2% das unidades; ao mesmo tempo, apresentações com mais de 10 anos respondem por 46,4% do volume, e medicamentos com preço praticado até R$ 20 concentram 80,9% das unidades. Em outras palavras: o topo em valor no Brasil pode indicar muito sobre medicamentos caros e especializados, mas pouco sobre a cesta cotidiana mais ampla.

Para efeito de comparação podemos analisar o Reino Unido6. E considerando que a base inglesa que usei seja de prescrições dispensadas na comunidade – como se fossem dados de dispersão do SUS brasileiro – a comparação nasce mais próxima da prática ambulatorial de massa.

Pelos dados disponibilizados pelo governo inglês, pode-se inferir que o topo é mais “representativo” do uso populacional comum: atorvastatina foi a substância mais dispensada, o sistema cardiovascular respondeu por 30% de todos os itens, e a própria NHSBSA (NHS Business Services Authority) define a PCA (Prescription Cost Analysis) como uma base de dados de prescrições dispensadas na comunidade. O topo de custo ainda mostra modernização – dapagliflozina foi a substância de maior custo –, mas dentro de um universo muito mais conectado ao uso populacional recorrente.

O caso da França7 indica uma estrutura semelhante à brasileira, mas com uma distinção importante. Quando se observam os volumes anualizados até meados de 2025, o topo é altamente representativo do uso populacional: o paracetamol, por exemplo, supera 430 milhões de caixas reembolsadas e alcança 42,5 milhões de segurados. Já quando se observa o gasto, o topo se concentra em terapias caras e especializadas: o Keytruda (nome comercial do pembrolizumabe, uma imunoterapia oncológica que ajuda o sistema imune a reconhecer e atacar células tumorais) ultrapassa € 2,1 bilhões, e o Darzalex (nome comercial do daratumumabe, um anticorpo monoclonal usado sobretudo no tratamento do mieloma múltiplo, um tipo de câncer do sangue) chega a € 1,05 bilhão, no combinado cidade + hospital.

A França exibe, portanto, uma dualidade mais nítida: de um lado, um topo de volume que reflete o consumo amplo da população, e de outro, um topo de gasto que expressa o peso crescente da medicina especializada e hospitalar. Isso não sugere difusão populacional ampla dessas terapias de alto custo, mas maior capacidade sistêmica de financiá-las e incorporá-las para os pacientes elegíveis.

E há um ponto estrutural por trás da disponibilidade de dados e possíveis comparações com a base brasileira: a OECD observa que o gasto farmacêutico de varejo, que é incluído no anuário do país, dá só uma visão parcial. Isso porque terapias caras em oncologia, imunologia e doenças raras migraram fortemente para o componente hospitalar/não varejo, que já responde por 25% do gasto farmacêutico total em 15 países da OECD.

Jaeder não esqueceu desse componente em nossa conversa. Segundo ele, o Brasil aspira ter mais pesquisa clínica e produção de IFA, terrenos que vamos adentrar em artigos posteriores, e que o SUS precisa de uma sustentação maior de moléculas e melhor dispersão de medicamentos modernos. Para ele, esse problema está ligado ao país não produzir IFA ou novos tratamentos.

Em suma, há uma intuição em tudo isso: um “topo” em valor pode ser muito moderno e, ao mesmo tempo, muito pouco representativo da experiência medicamentosa média da população, e esses achados podem nos levar a compreender melhor em que cultura empresarial o setor farmacêutico brasileiro está mergulhado e o que esse cenário indica. Somando-se à limitação em produzir ciência inovadora, o Brasil farmacêutico que descobriremos nas próximas abordagens pode iluminar a discussão ampla de inovação.

Entre alocação de capital e deslocamento tecnológico

As correlações que este conjunto de artigos pretende analisar não dizem respeito apenas ao comportamento do mercado farmacêutico brasileiro em termos comerciais. O que está em jogo é algo mais relevante: a qualidade da alocação de capital no setor e sua real capacidade de produzir deslocamento tecnológico.

A questão central é saber se os investimentos feitos no país – públicos, privados, diretos, indiretos ou induzidos por políticas setoriais – vêm sendo aplicados de forma capaz de alterar a fronteira tecnológica da indústria farmacêutica brasileira ou se, ao contrário, acabam dispersos em erros de alocação, baixa ambição tecnológica e reprodução de trajetórias empresariais mais voltadas à preservação do caixa, à expansão comercial em sentido estrito e à captura de resultados imediatos.

O ponto, portanto, não é apenas medir quanto se investe, mas investigar como se investe, em que tipo de ativo tecnológico se investe e que estrutura produtiva e inovadora esses investimentos deixam como legado. Em outras palavras: os recursos mobilizados no setor estão contribuindo para construir capacidade real de inovação ou apenas financiando uma modernização estreita, incapaz de produzir transformação estrutural?

É nesse ponto que a pergunta mais desconfortável aparece: que marca a cultura empresarial brasileira está deixando na indústria farmacêutica? Estaria ela empurrando o setor para estratégias de ganho imediato, expansão comercial e geração de caixa em sentido estrito, ou estamos diante de projetos com maior densidade tecnológica, maior horizonte temporal e maior capacidade de alterar, de fato, o ambiente de geração de riqueza para além da simples realização de caixa pelas empresas?

Ao olhar de forma mais racional para os investimentos do setor, com dados de BNDES, PINTEC, Finep, relatórios setoriais e outras bases institucionais, cruzando essas informações com evidências sobre inovação, perfil tecnológico dos produtos, composição do mercado e dispersão das categorias terapêuticas, a série de artigos buscará avaliar se o capital empregado no setor farmacêutico brasileiro vem ampliando sua capacidade de fronteira ou apenas reforçando padrões conhecidos de acomodação estratégica.

Em meio à corrida por acesso observada em países com matriz histórica semelhante à nossa, e diante do ciclo de expiração de patentes previsto para os próximos anos na indústria farmacêutica global, pode estar se abrindo uma nova janela de oportunidade. Sem planejamento setorial, no entanto, esse movimento pode operar em sentido contrário: em vez de impulsionar o desenvolvimento, tende a dispersar recursos, diluir prioridades e tornar difuso o uso dos investimentos.

Para examinar essa tensão com maior rigor, este esforço investigativo, com desdobramentos em artigos e análises subsequentes, exigirá o cruzamento entre dados oficiais do setor farmacêutico brasileiro e bases comparáveis de outros países. O objetivo será testar, entre outros pontos, a robustez das hipóteses abaixo.

  1. O topo do gasto farmacêutico brasileiro é, em média, menos inovador do que o topo do gasto nos países mais ricos.
  2. A base volumétrica brasileira permanece mais concentrada em terapias antigas, maduras ou tecnologicamente menos sofisticadas.
  3. A inovação, quando aparece no Brasil, está excessivamente concentrada em poucos produtos, nichos, canais ou agentes econômicos, sem irradiar capacidade tecnológica de forma mais ampla pelo setor.
  4. Países mais ricos conseguem combinar maior densidade inovadora no topo com estruturas mais eficientes de difusão, inclusive por meio do uso racional de genéricos e biossimilares, sem rebaixamento da fronteira tecnológica do sistema.
  5. A tipologia dos investimentos em P&D, a alocação de recursos e o conjunto de iniciativas de inovação em curso no Brasil seguem padrões semelhantes aos observados em experiências internacionais bem-sucedidas, sinalizando capacidade real de alterar o ecossistema nacional de geração de inovação, ou permanecem marcados por dispersão, baixa ambição tecnológica e insuficiência para produzir mudança estrutural.
  6. O capital humano mobilizado no setor, entre líderes empresariais, pesquisadores, financiadores e formuladores de política, parece alinhado às exigências de um ecossistema orientado à geração de inovação, ou permanece preso a lógicas defensivas, fragmentadas e de curto prazo.
  7. A robustez do mercado consumidor brasileiro tem permitido, em muitos casos, a manutenção de empresas financeiramente fortes sem exigência proporcional de inovação, difusão tecnológica ou sofisticação produtiva.
  8. O apoio público ao setor tem sido acompanhado de governança, métricas e contrapartidas reais, ou se termina absorvido em projetos pouco transformadores, baixa capacidade de execução e captura privada de valor.


Jaeder, Hypofarma e o esforço de mudança de patamar

À frente da Hypofarma, Jaeder Morais lidera a tentativa de levar uma farmacêutica mineira tradicional para um novo patamar de escala, sofisticação industrial e densidade tecnológica. Fundada em 1948, a empresa chega a 78 anos em 2026, com trajetória construída no mercado de medicamentos injetáveis e presença importante no segmento hospitalar. Trata-se de um ambiente em que não há improviso produtivo: o parque industrial é caro, a regulação é densa, a validação é demorada e as barreiras à entrada são reais.

Jaeder tem formação de base técnica e trajetória executiva moldada pela operação. É bacharel em Engenharia Mecânica pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestre em Engenharia de Produção pela PUC-Rio. Ao longo da carreira, ampliou sua matriz de conhecimentos com formação complementar em centros de excelência internacionais, sempre orbitando temas como estratégia, finanças, transformação organizacional e inovação. Antes da Hypofarma, passou por grupos como Votorantim, Suzano, Myralis e Whirlpool. Na própria narrativa que faz de sua trajetória, entrou na Myralis quando a companhia faturava cerca de R$ 200 milhões e saiu quando ela já se aproximava de R$ 1 bilhão em receita anual.

Na Hypofarma, sua função parece menos a de simples gestor de continuidade e mais a de vetor de transição. Segundo ele, a companhia contratou R$ 260 milhões em investimentos, dos quais R$ 200 milhões já foram executados. Parte relevante desse capital foi destinada à atualização do parque produtivo; outra parte sustenta a ampliação do portfólio e uma agenda mais assertiva de crescimento. No plano mais imediato, a empresa já trabalha com cerca de 30 a 40 moléculas aprovadas para desenvolvimento em 2026. No horizonte estratégico mais longo, Jaeder fala em um planejamento de 100 novas moléculas, sinalizando que a ambição da companhia não é apenas modernizar a base industrial, mas reposicionar a Hypofarma em outro nível de competitividade.

Referências:

  1. Anuário Estatístico do Mercado Farmacêutico 2024
  2. Top 25 investors in pharma R&D in 2024 – Drug Discovery and Development
  3. Patent System of India
  4. India’s Unique Opportunity and Important Responsibility as the Pharmacy to the World | FDA
  5. https://www.pib.gov.in/PressReleseDetailm.aspx?PRID=2222528&reg=3&lang=2
  6. Prescription Cost Analysis – England 2024/25 | NHSBSA
  7. Chiffres-clés du médicament en France : des évolutions profondes sur la décennie | L’Assurance Maladie | Presse

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Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

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