Estratégia
5 minutos min de leitura

Crescer mais ou crescer melhor? A pergunta que antecede as metas de 2027

Da aquisição à expansão de clientes, o artigo propõe uma reflexão sobre como organizações podem substituir crescimento baseado em volume por crescimento sustentado por retenção, adoção de valor e decisões mais inteligentes.
Sócia e Diretora da Winning By Design LATAM

Compartilhar:

Há uma contradição importante nos planos das empresas brasileiras para o próximo ciclo. Segundo o Panorama de Marketing e Vendas 2026, da RD Station, 87% das empresas esperam crescer mais em 2026 do que no ano anterior. Ao mesmo tempo, 75% não conseguiram atingir suas metas de vendas em 2025. Não é um descompasso pontual: desde 2022, mais de sete em cada dez empresas pesquisadas ficam abaixo dos objetivos comerciais estabelecidos.

Se as metas continuam aumentando enquanto os resultados permanecem abaixo do esperado, talvez a discussão não deva começar pela quantidade de leads, vendedores ou investimento que será necessário adicionar à operação. Há uma questão anterior: estamos tentando crescer mais a partir do mesmo modelo que já não entregou o crescimento esperado?

Durante décadas, a gestão comercial foi organizada principalmente em torno da conquista do cliente. Marketing gera demanda, vendas transforma parte dela em contratos e, depois da assinatura, outra área assume a relação. Essa divisão ajudou empresas a especializar funções, mas também criou uma distorção: a venda passou a ser tratada como chegada quando, em negócios recorrentes, ela é apenas o meio da jornada.

A receita continua sendo construída depois do contrato. Ela depende de o cliente implementar a solução, utilizá-la, perceber valor, permanecer e, quando existe espaço, expandir a relação comercial. Quando essas etapas são tratadas separadamente da aquisição, a empresa pode até colocar mais clientes na entrada e ainda assim ter dificuldade para transformar crescimento comercial em crescimento sustentável.

Dados recentes ajudam a dimensionar o peso dessa segunda metade da jornada. Uma análise da McKinsey com mais de 100 empresas B2B de software mostrou que as companhias no quartil superior de valuation apresentavam, em mediana, retenção líquida de receita de 113%.

 Na prática, isso significa que a própria base de clientes gerava crescimento de 13% mesmo sem a entrada de um novo cliente. Entre as empresas do quartil inferior, o indicador era de 98%. A consultoria também encontrou taxas de retenção líquida cerca de sete pontos percentuais superiores nas empresas com práticas mais sofisticadas de adoção e realização de valor para o cliente.

Embora esse indicador seja especialmente relevante em negócios de receita recorrente, a mensagem é mais ampla: crescimento não pode ser administrado apenas pela entrada do funil. Quanto mais cara e complexa se torna a aquisição, maior é o custo de ignorar o que acontece com a receita já conquistada.

Ao mesmo tempo, as equipes responsáveis por gerar novos negócios operam sob pressão crescente. O State of Sales 2026, da Salesforce, que ouviu 4.050 profissionais em 22 países, mostra que vendedores dedicam, em média, apenas 40% da semana a atividades de venda. Os outros 60% são consumidos por tarefas como elaboração de propostas, planejamento, entrada manual de dados e treinamento. O estudo também aponta que 69% percebem maior cobrança dos clientes por demonstrações de retorno sobre investimento, enquanto 57% afirmam que as decisões de compra estão demorando mais.

O cenário cria uma pressão difícil de resolver apenas com headcount. De um lado, conquistar novos clientes exige mais trabalho e comprovação de valor. De outro, grande parte da capacidade dos profissionais continua absorvida por tarefas que não envolvem diretamente o cliente. Se a resposta para cada nova meta for apenas adicionar mais pessoas e mais volume, existe o risco de escalar também as ineficiências.

É por isso que marketing, vendas e customer success precisam ser entendidos menos como departamentos sucessivos e mais como componentes de uma mesma arquitetura de receita. O objetivo é permitir que dados e aprendizados atravessem toda a jornada. 

A informação sobre quais clientes realmente chegam ao impacto esperado deveria voltar para marketing e vendas. Sinais de baixa adoção precisam antecipar riscos de renovação. O comportamento da base deveria ajudar a identificar expansão antes que ela dependa apenas da percepção individual de um executivo de contas.

É nesse contexto que a inteligência artificial se torna mais interessante – e também mais fácil de interpretar de forma equivocada. A adoção já é ampla: o State of AI 2026, da McKinsey, mostra que quase nove em cada dez organizações pesquisadas utilizam IA regularmente em pelo menos uma função de negócio. Entretanto, apenas 37% relatam alguma contribuição da tecnologia para o EBIT, proporção praticamente inalterada em relação ao ano anterior. As empresas classificadas como high performers, que atribuem pelo menos 5% do EBIT à IA e relatam impacto significativo, representam somente 6% da amostra.

A diferença ajuda a separar adoção de transformação. Entre essas empresas de maior desempenho, quase três quartos redesenharam de forma fundamental seus fluxos de trabalho a partir da IA; entre as demais, apenas um quarto fez o mesmo. Os líderes também são duas vezes mais propensos a ter processos definidos para medir o impacto das iniciativas de inteligência artificial.

Ou seja, colocar uma nova tecnologia sobre processos fragmentados não cria, por si só, uma operação mais inteligente. O valor aparece quando a empresa consegue conectar sinais ao longo da jornada e usá-los para decidir onde agir: uma queda de conversão, um ciclo comercial que se alonga, um cliente que não atingiu a adoção esperada ou uma conta pronta para expandir.

Isso também muda a discussão sobre contratação. Novas pessoas continuarão sendo necessárias quando houver demanda comprovada e um gargalo genuíno de capacidade. Mas aumentar a equipe deveria ser consequência de uma operação que funciona, e não o mecanismo utilizado para compensar suas falhas.

À medida que os boards discutirem as metas de 2027, talvez a pergunta mais relevante não seja quantos leads, vendedores ou ferramentas serão necessários para crescer. A pergunta que deveria vir antes é: quanto da receita obtida a operação é capaz de transformar em adoção, renovação, expansão e aprendizado para o próximo ciclo?

Compartilhar:

Artigos relacionados

Tecnologia se compra. Liderança se constrói.

O artigo discute por que sucessão, desenvolvimento de lideranças e fortalecimento da cultura organizacional deixaram de ser temas de RH para ocupar o centro das decisões estratégicas e da competitividade empresarial.

Autonomia não é fazer sozinho

Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Quando pessoas inteligentes discordam, o problema pode não ser a informação

Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
24 de setembro de 2026 14H00
Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Aislan Campos Rocco - Advogado, Sócio na Barroso Advogados Associados

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
24 de setembro de 2026 08H00
As empresas acumulam volumes crescentes de dados, tecnologias e ferramentas para entender o consumidor. Ainda assim, muitos clientes continuam sentindo que não são realmente compreendidos. Nesse cenário, o papel do marketing evolui: deixa de ser apenas uma função de comunicação para se tornar um elo estratégico comportamento, experiência e crescimento do negócio.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de setembro de 2026 13H00
O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Felipe Calbucci - CEO LATAM da TotalPass

Oferecido por: TotalPass
2 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução