Entrevista

Criptomoedas: a corrida do ouro digital

Andreas Park, professor de finanças da Rotman School of Management, discute nesta entrevista as criptomoedas do ponto de vista dos investidores individuais e como meio de pagamento para as empresas. Ele explica como funcionam e mostra onde estão as oportunidades e os riscos que esse universo oferece no momento.
Karen Christensen é editora-chefe da Rotman Management Magazine.

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Falar sobre moedas digitais não é mais privilégio de poucos iniciados – o tema está cada vez mais popular. Porém há conceitos que nem sempre são claros para todos. Como você define criptomoeda? O especialista canadense Andreas Park, professor de finanças da Rotman School of Management, define como “uma moeda digital ou virtual protegida por criptografia, o que faz com que seja quase impossível falsificá-la. Esse tipo de moeda permite pagamentos online seguros entre duas partes, sem a necessidade de um terceiro que endosse (banco ou operadora de cartão de crédito) e sem uma autoridade central emissora, o que a torna teoricamente imune a manipulações.

A tecnologia dos blockchains é um componente essencial de muitas criptomoedas. São espécies de livros contábeis protegidos por criptografia, formados por “blocos” que contêm os históricos das transações.

Há dois tipos principais de criptomoedas. O primeiro tipo é o token, que roda numa plataforma. A única coisa que pode ser feita com este é transferi-lo de um lado para outro. Exemplos de tokens: bitcoin, dogecoin e litecoin. O segundo tipo é usado como sistema de pagamento dentro de uma blockchain. Em troca dessa moeda, você recebe um serviço de computação. Exemplo? O ethereum, um sistema de código aberto e descentralizado, que tem como criptomoeda nativa o ether – a segunda mais valorizada após o bitcoin.

Andreas Park conversou com Karen Christensen, da Rotman Management, sobre a nova corrida do ouro que as criptomoedas estão criando, tirando muitas dúvidas existentes.

__Muitos deconfiam que o valor de uma criptomoeda é baseado apenas na opinião de outros. O que você pensa?__
Não sou fã de criptomoedas. Ninguém pode dizer, com sinceridade, que elas têm qualquer valor além do que as pessoas estão dispostas a pagar por elas. É muito mais fácil, porém, defender a criptomoeda do Ethereum, porque ela pode ser usada para obter serviços de computação, do que outras. Quando uma moeda opera com algoritmo proof of stake [prova de participação, veja explicacão no texto lateral], a pessoa ganha com base no ativo que possui.

__Como se investe em bitcoin e outras criptomoedas na prática?__
Uma “carteira” de criptomoedas armazena chaves privadas e públicas, necessárias para enviar e receber as moedas. Há carteiras digitais [software wallets], de hardware [hardware wallets] e de papel [paper wallet]. As duas últimas costumam ser consideradas mais seguras do que as digitais, mas há prós e contras em cada uma delas.
Alguns brokers aceitam bitcoins e outras criptomoedas diretamente da carteira de um usuário. Embora algumas moedas tenham valor muito alto, elas são divisíveis em frações muito pequenas. O bitcoin, por exemplo, é divisível até um “satoshi”, que vale 0,00000001 de um bitcoin. Algumas empresas criaram caixas eletrônicos nos quais você pode usar dólares e outras moedas tradicionais para comprar bitcoins ou vendê-los para pegar dinheiro vivo.
Algumas empresas criaram cartões de débito e crédito com os quais é possível converter bitcoins ou outras criptos em dólares e usá-los exatamente como se faz com qualquer cartão de pagamento. A verdade, porém, é que o bitcoin em si é usado principalmente para especulação. As redes de blockchain como Ethereum, no entanto, oferecem funcionalidades que muitas startups, por exemplo, estão abraçando.

__A Tesla chegou a investir US$ 1,5 bilhão em bitcoins. Ainda que tenha abandonado os pagamentos nessa moeda depois, você diria que esta é uma jogada inteligente?__
Se eu fosse acionista da Tesla, ficaria muito aborrecido, pois comprei ações de um fabricante de carros elétricos e agora ele está fazendo investimentos em meu nome. Se eu quisesse investir em bitcoins, eu compraria bitcoins. Mas isso é bom para o bitcoin. Como, em 2021, muito dinheiro institucional foi investido nele, isso faz as pessoas acreditarem que os bitcoins não vão desvalorizar da noite para o dia. Mas, para mim, Elon Musk deveria estar focando seus negócios em vez de brincar com o dinheiro de seus investidores.

__Empresas menos ousadas, como Microsoft e Coca-Cola, também estão abraçando as criptomoedas. Todas as empresas deveriam fazer isso?__
Acho que as empresas têm de considerar que serviços e benefícios podem obter com tecnologia blockchain. Deve-se ver o blockchain como um recurso comum para transferências de valor, sim. Isso significa que você pode usar blockchains para conduzir transações, operações de câmbio, caução, negociação ou licitação de contratos. E, é claro, um grande valor pode vir do trabalho em plataformas comuns – como já vimos com a internet, que é uma grande infraestrutura aberta, muito valiosa para a troca de informações. As redes blockchain estão tentando ser uma internet para transferências de valor.
Se você puder organizar grandes blocos de sua cadeia de fornecimento ou de seu sistema contábil nessas redes abertas, será possível cortar custos e tornar os pagamentos mais eficientes e transparentes. A meu ver, o aspecto mais valioso de tudo isso é a rede comum e sua funcionalidade.

__Sua colega na Rotman, a professora de finanças Lisa Kramer, disse achar imprudente as empresas aceitarem criptomoedas em troca de bens e serviços. Você não concorda, então?__
O que eu acho imprudente é uma empresa não aceitar um meio de pagamento proposto, qualquer que ele seja. Isso porque, ao recusá-lo, a empresa pode perder um contrato. Porém, se for para aceitar criptomoedas, é claro que se deve fazê-lo de maneira inteligente. Por exemplo, o Paypal oferece um serviço para as pessoas pagarem com criptomoedas, mas o vendedor recebe em moedas fiduciárias, ou seja, não fica exposto ao risco das criptomoedas.
Se você pode aceitar criptomoeda para fechar um acordo que de outra forma não ocorreria, qual o problema? Dito isso, Lisa está absolutamente certa quanto às empresas, especialmente as pequenas, não manterem criptomoedas em carteira.

__E quanto aos grandes bancos? Será que um dia criptomoedas serão integradas a nosso sistema financeiro?__
Há certamente grandes questões envolvendo os bancos, que se confrontam com startups e outras organizações nos seus calcanhares, concorrendo com eles em serviços.
Repito o que disse: vejo as redes blockchain como uma infraestrutura comum de amplo espectro que permite transferências de valor. O fato é que nossa infraestrutura financeira é compartimentada e a rede de pagamento é lenta demais na maioria dos países. [Isso não é verdade no Brasil depois do Pix.] A lentidão não faz mais sentido num mundo em que tudo é instantâneo.
A vantagem com um blockchain [em relação a um Pix, por exemplo] é tornar possível negociar ativos em plataformas diferentes. Hoje comprar ações ou fazer negócios no exterior ainda é muito burocrático. Mas, se uma “internet’ comum estivesse disponível para todas essas transações, seria algo muito valorizado. Imagine se todos os títulos pudessem ficar agrupados em uma plataforma comum? Seria valiosíssimo para o funcionamento dos mercados. Em teoria, a economia de custos será enorme – se implantarem do modo certo.
A grande questão é: se o mundo mudar para uma plataforma aberta, qual será o papel dos bancos? Os líderes dos bancos precisam pensar nisso, inclusive. Não é tanto uma questão de como integrar o blockchain aos processos atuais, entende? Trata-se mais do papel que os bancos vão desempenhar se e quando o mundo se mover nessa direção. Que novos produtos os bancos podem oferecer e quais se tornariam dispensáveis? Como eles podem garantir a própria relevância e sobrevivência?

__E o que dizer das moedas digitais soberanas, as govcoins, como a que a China vem desenvolvendo?__ [E o Brasil também, previsto para 2024.]
Moedas emitidas por um banco central são diferentes de criptomoedas. São representações digitais de moedas fiduciárias – dinheiro governamental – e com certeza vão proliferar no futuro. A China está desenvolvendo o yuan digital [também chamado de e-CNY], que vive em uma rede particular.
Agora, lembre que a China tem Alipay e WeChat Pay. Só esses aplicativos representam 90% do mercado de pagamentos chinês, o que tornará difícil para o yuan digital competir com elas. Assim, o governo da China provavelmente terá de pressionar as pessoas a utilizar o e-CNY – ou pressionar Tencent e Ant Group para que o incluam em seus serviços. Pessoalmente, me preocupa o poder que Tencent e Ant Group podem acumular já hoje com os dados dos pagamentos que coletam.
E há muitos questionamentos sobre a privacidade das informações e a estabilidade dos bancos quando as pessoas transferirem seus depósitos para moedas digitais do banco central de seus países. Mas, ao mesmo tempo, é fato que os pagamentos bancários eletrônicos existentes são caros para consumidores e comerciantes, e isso é uma razão forte para abraçar a moeda digital.

© Rotman Management
Editado com autorização da Rotman School of Management, ligada à University of Toronto. Todos os direitos reservados.

Entendendo os algoritmos: pow, pos, poa

Os participantes da rede pública blockchain precisam concordar com status do blockchain sem a necessidade de confiarem um no outro ou de haver uma autoridade central. Para que isso aconteça, é preciso haver um algoritmo de consenso. Hoje coexistem três, segundo a Universidade do Bitcoin, e não se sabe qual prevalecerá: proof of work (Pow), proof of stake (Pos) e proof of authority (Poa). Tudo começou o uso da mineração com o Pow (prova de trabalho), estabelecendo que um determinado bloco exigia uma certa quantidade de trabalho para ser minerado. Isso fez com que os usuários considerassem que a cadeia a maior quantidade de trabalho minerador era a cadeia correta e o consumo de energia foi às alturas – além de concentrar mineradores nas grandes fazendas de mineração, em vez de nos levar a uma rede verdadeiramente distribuída. O bitcoin funciona assim, segundo a Univerdade do Bitcoin.

Veio, então, o algoritmo Pos (prova de participação), que troca o minerar pelo validar. O responsável específico pelo próximo bloco da cadeia é determinado pelo algoritmo, que deve ter algum tipo de aleatoriedade. O Ethereum funciona assim.
E há a terceira via: o algoritmo Poa (prova de autoridade). Em redes baseadas em PoA, transações e blocos são validados por contas autorizadas, conhecidas como validadores, que executam um software para fazer isso. VeChain opera dessa maneira.

Fundos ETF:
prós e contras

Em abril de 2021, o primeiro ETF estreou na B3 – o HASH11. Outros se seguiram e, em outubro, a bolsa de valores brasileira já contabilizava 159 mil investidores do ativo – representando um patrimônio líquido de R$ 2,5 bilhões. O ETF é um tipo de fundo que investe em moedas digitais fisicamente liquidadas, em vez de aplicar em futuros ou derivativos. Ele oferece vantagens indiscutíveis, como diversificação (investe-se em mais de uma cripto ao comprar uma cota), liquidez, facilidade de investir, investimento mínimo acessível, gestão passiva e, além disso, o lucro com ETF pode ser compensado por eventuais prejuízos com aplicações em renda variável na declaração de imposto de renda.

No entanto, mesmo reconhecendo que há pequenos investidores obtendo lucros com ETFs, Kunal Sawhney, da empresa de análise de investimento em ações Kalkine Media, da Austrália, recomenda que esses fundos sejam evitados por investidores não institucionais, por quatro razões: (1) ainda não há autoridades que supervisionem esse mercado e protejam o investidor; (2) ainda não se vê a utilidade real das criptomoedas, o que as impede de ser regidas por uma oferta e uma demanda reais; (3) o alto consumo de energia elétrica para minerar as criptos ainda é uma vulnerabilidade; (4) a economia global cheia de incertezas não convida a investir numa inovação insegura – o risco seria mais adequado em tempos de prosperidade.

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