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Do BANI ao PACE: por que a inteligência artificial inaugura uma nova ordem histórica

Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.
CEO da Performa_IT e integrante do Conselho de Administração da IMA (Informática de Municípios Associados)

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Do VUCA ao BANI, diferentes modelos tentaram explicar a instabilidade contemporânea, agora, a IA inaugura uma nova lógica de ação sobre esse cenário | Crédito: Divulgação


VUCA? BANI? Por que a IA mudou novamente o eixo do mundo

Por muito tempo, o mundo contemporâneo foi interpretado a partir do acrônimo VUCA – Volatility, Uncertainty, Complexity, Ambiguity – difundido no campo da liderança estratégica a partir do U.S. Army War College para descrever ambientes marcados por instabilidade, baixa previsibilidade e dificuldade de leitura. VUCA foi relevante porque ensinou líderes e instituições a abandonarem a fantasia da estabilidade e a reconhecerem que o ambiente competitivo, político e social havia se tornado dramaticamente mais instável.

Mais tarde, esse enquadramento passou a parecer insuficiente. Jamais Cascio propôs então o acrônimo BANI – Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible – para nomear um mundo em que não bastava mais falar em volatilidade ou ambiguidade; era preciso falar em sistemas frágeis, subjetividades ansiosas, relações de causa e efeito opacas e uma experiência generalizada de desorientação. O próprio Cascio descreve BANI como um framework de sensemaking, uma lente para compreender como percebemos e experienciamos um mundo que parece se desfazer diante de nós.

BANI foi, sem dúvida, um diagnóstico poderoso da crise de inteligibilidade do início da década. Ele capturou com precisão o sentimento histórico de colapso de referências. Mas a ascensão da inteligência artificial – especialmente da IA generativa, da IA aplicada ao trabalho do conhecimento e dos sistemas baseados em agentes – deslocou novamente o centro de gravidade da realidade. O que está em curso agora não é apenas mais uma intensificação do caos. É o surgimento de uma nova infraestrutura de ação sobre o caos. O AI Index 2025, de Stanford, mostra que 78% das organizações relataram uso de IA em 2024, ante 55% no ano anterior, enquanto a literatura empírica sobre produtividade mostra ganhos concretos em tarefas cognitivas, como atendimento, escrita profissional e outras atividades intensivas em conhecimento.

É por isso que proponho uma tese mais forte: BANI não se tornou falso, mas tornou-se insuficiente como lógica dominante do presente. Ele descreveu com precisão o trauma da transição. Mas o mundo já começou a se reorganizar sob outra forma. Essa nova metodologia é o PACE.

A profunda desconstrução do mundo BANI

A força de BANI esteve em descrever um momento em que o ser humano se viu intelectualmente atrás da velocidade do mundo. O problema é que a IA começa justamente a alterar essa assimetria. Não porque ela elimine a fragilidade, a ansiedade, a não linearidade ou a opacidade, mas porque passa a reduzir sua força paralisante e a redistribuir nossa capacidade de resposta.

A fragilidade, por exemplo, deixa de ser apenas a marca de sistemas que quebram facilmente e passa a conviver com uma nova possibilidade de compensação: simulação em escala, redundância cognitiva, geração rápida de alternativas e velocidade adaptativa. Estudos recentes mostram ganhos mensuráveis de produtividade e qualidade em tarefas apoio de IA e apesar de isso não provar uma revolução total por si só, indica que parte da vulnerabilidade operacional dos sistemas humanos pode ser atenuada por uma capacidade inédita de testar, corrigir e reconfigurar respostas em ritmo muito superior ao anterior. Ao mesmo tempo, a própria literatura da OECD (Organisation for Economic Co-operation and Development) alerta que esses ganhos variam conforme o tipo de tarefa, o contexto e a experiência do usuário, o que exige cautela contra triunfalismos fáceis.

O mesmo vale para a ansiedade. BANI teve razão ao mostrar que o excesso de complexidade gera sobrecarga psíquica e sensação de impotência. Mas, com a evolução dos sistemas baseados em IA, parte dessa ansiedade deixa de ser apenas um efeito inevitável do ambiente e passa a ser também um problema de desenho sociotécnico. Em outras palavras: o mundo continua exigente e ninguém terá tudo sob controle, mas o indivíduo já não precisa enfrentá-lo sozinho, em modo artesanal. Isso não significa que a ansiedade desaparecerá, apenas significa que ela pode ser mais bem governada por arquiteturas de delegação, suporte, síntese e coordenação. O ponto central não é terapêutico, e sim civilizacional: a IA reduz a distância entre a complexidade e aleatoriedade do mundo e a capacidade humana de operar sobre ela.

A não linearidade também muda de status. Em BANI, ela aparece como fonte de imprevisibilidade traumática. A não linearidade está presente no mundo desde sempre e é normal em qualquer sistema complexo. Na era da IA, ela continua existindo, mas começa a ser explorável de forma nova. Em vez de depender de um único percurso decisório, organizações podem simular caminhos concorrentes, testar hipóteses em paralelo, acelerar ciclos de feedback e comparar múltiplos cenários com custo marginal drasticamente menor. A não linearidade deixa de ser apenas inimiga da decisão e passa a ser, em parte, território de exploração assistida. A própria OECD destaca o potencial da IA para acelerar inovação, pesquisa e experimentação, ainda que sublinhe que esses efeitos dependem fortemente do contexto.

Por fim, o “incompreensível” perde parte de sua centralidade. Aqui é importante ser rigoroso não porque tudo se torne compreensível, mas porque chamar de “incompreensível” um número crescente de problemas já não descreve adequadamente um mundo em que IA ajuda a gerar hipóteses, interpretar grandes volumes de dados, desenhar experimentos e revelar padrões antes opacos. Todo conhecimento é incompleto, mas a IA vai ajudar a humanidade a ter mais clareza sobre todos os assuntos. A literatura em Nature sobre descoberta científica mostra precisamente isso: a IA está sendo integrada à pesquisa para ampliar e acelerar a formulação de hipóteses, o desenho experimental e a interpretação de dados. Isso não significa compreensão plena, e críticos como Emily Bender, Timnit Gebru e Gary Marcus têm razão ao lembrar que geração linguística plausível não equivale automaticamente a entendimento confiável. Ainda assim, o salto histórico continua válido: o que antes era apenas opaco passa a ser, cada vez mais, penetrável por conhecimento humano potencializado por cognição assistida.

Em síntese, BANI continua reconhecível como sintoma do mundo. Mas já não descreve, sozinho, sua dinâmica principal. O eixo histórico se deslocou da impotência diante da complexidade para a ampliação da capacidade de operar sobre ela.

PACE – a nova ordem do mundo moldado pela IA

É nesse ponto que entra PACE: Programável, Acelerado, Cognitivo, Emergente.

O mundo tornou-se Programável porque uma porção crescente da realidade organizacional e econômica deixa de depender apenas de talento difuso, improvisação artesanal ou execução linear, passando a ser estruturável, configurável, iterável e reprogramável. Linguagem, atendimento, análise, produção de conteúdo, pesquisa, modelagem de cenários e partes do processo decisório passam a ser organizados como sistemas que podem ser refinados continuamente. “Programável”, aqui, não significa que tudo se torne codificável. Significa que uma parcela muito maior da atividade humana passa a admitir instrução, orquestração e redesenho sistemático. Isso muda profundamente a lógica da gestão, da estratégia e da competitividade.

O mundo tornou-se Acelerado porque a IA comprime o tempo entre intenção e execução, hipótese e teste, problema e resposta. Os dados empíricos disponíveis apontam nessa direção: em estudos de escrita profissional, o uso de IA reduziu em média o tempo necessário e aumentou a qualidade do output; em atendimento ao cliente, elevou a produtividade dos trabalhadores, sobretudo dos menos experientes. Stanford também registra aceleração significativa da adoção organizacional. Nada disso autoriza dizer que todos os setores se moverão na mesma velocidade, e autores como Daron Acemoglu corretamente alertam que ganhos macroeconômicos amplos dependem de reconfigurações mais profundas da economia e da complementaridade entre tarefas humanas e automação. Ainda assim, a direção é inequívoca: a IA introduz uma lógica estrutural de aceleração.

O mundo tornou-se Cognitivo e este é o núcleo mais importante do acrônimo. A revolução da IA é, acima de tudo, uma revolução cognitiva com expressão tecnológica. Seu impacto mais decisivo não está apenas em hardware, infraestrutura ou automação operacional, mas na forma como ela pressiona, amplia e reorganiza capacidades humanas como interpretação, síntese, julgamento, criatividade, formulação de hipóteses, aprendizado e coordenação. “Cognitivo”, aqui, não quer dizer que a máquina pense como o humano.

Quer dizer que a camada da vida humana mais intensamente afetada é a camada mental, simbólica e comportamental do trabalho e da decisão. A IA exigirá novas formas de atenção, de discernimento, de supervisão, de colaboração e de liderança. Ela desloca o ser humano não para fora do centro, mas para um centro diferente: menos executor isolado, mais arquiteto de contexto, curador de critérios, formulador de sentido e líder de sistemas híbridos. A literatura recente sobre criatividade e descoberta científica aponta justamente para esse movimento de ampliação da inteligência humana por interfaces híbridas, não para uma simples substituição do humano pela máquina. Vamos precisar reorganizar a maneira que aprendemos.

Por fim, o mundo é Emergente porque os efeitos mais profundos da IA não decorrem de uma relação simples entre causa e efeito. Eles emergem da interação entre modelos, dados, instituições, culturas organizacionais, incentivos econômicos, regulação, infraestrutura e escolhas humanas. “Emergente” não é um termo vago no PACE, mas sim o reconhecimento de que a nova ordem não será integralmente planejada. A mesma IA que amplia produtividade pode aprofundar assimetrias. A mesma tecnologia que acelera descoberta pode intensificar concentração de poder. A mesma lógica programável que fortalece empresas pode gerar novas dependências e zonas cinzentas.

Por que PACE é mais adequado do que BANI para o momento atual

A razão pela qual PACE deve ser tratado como a nova ordem conceitual não é que BANI tenha deixado de ter valor. É que BANI descreve melhor o estado subjetivo e sistêmico do colapso, enquanto PACE descreve melhor a lógica que agora organiza a ação, a estratégia e a transformação.

BANI continua útil para nomear o desconforto de um mundo que quebra expectativas. Mas PACE é mais adequado para interpretar a etapa seguinte: a etapa em que a inteligência artificial reestrutura a capacidade humana de agir sobre esse mundo. Em BANI, a ênfase recai sobre o que desorienta. Em PACE, recai sobre o que reorganiza. Em BANI, a pergunta central é “como sobreviver à ruptura?”. Em PACE, a pergunta central passa a ser “como operar, liderar e criar valor em um ambiente programável, acelerado, cognitivo e emergente?”.

Essa diferença não é meramente semântica. Ela altera a qualidade da ação estratégica. Um enquadramento excessivamente centrado em fragilidade, ansiedade, não linearidade e incompreensibilidade tendem a produzir lideranças defensivas, instituições reativas e imaginários de escassez cognitiva. Já o enquadramento PACE, sem negar riscos, desloca a atenção para projeto, desenho, aprendizagem, coordenação e expansão de capacidade. Por isso, ele é mais adequado ao momento atual e não é que o mundo tenha se tornado simples, mas porque a tecnologia mudou o regime de possibilidades dentro dele.

Aqui cabe uma precisão importante. Defender PACE como nova metodologia não significa ignorar a materialidade da IA. Pelo contrário. Qualquer leitura séria do presente precisa reconhecer que a aceleração cognitiva depende de uma base física pesada: energia, chips, data centers, redes, minerais críticos, logística e geopolítica. A Agência Internacional de Energia projeta que a eletricidade consumida por data centers deve mais que dobrar até 2030, com a IA como principal vetor desse crescimento. Ou seja, a nova ordem PACE não é etérea. Ela é revolucionária, mas materialmente exigente. Isso reforça a tese, porque mostra que estamos diante de uma reordenação estrutural da civilização, e não apenas de uma moda digital passageira.

No centro de tudo estão os humanos

Se há um risco recorrente na discussão sobre IA, é oscilar entre dois extremos igualmente pobres: o tecnoutopismo pobre que dissolve o humano e o humanismo defensivo que finge que nada mudou. Nenhum dos dois serve. A posição mais sólida é outra. Os humanos permanecem no centro, mas sua centralidade muda de natureza.

Isso não deve ser tratado como fato consumado, e sim como princípio decisivo de desenho histórico. A IA não garante automaticamente uma revalorização humana. Em alguns contextos, ela pode ampliar controle, vigilância, compressão do trabalho e concentração de poder. A própria OECD chama atenção para o papel da confiança, da expertise humana e do desenho institucional na qualidade dos resultados. Portanto, dizer que o humano está no centro não é descrever algo que já está universalmente assegurado, mas sim afirmar aquilo que precisa orientar liderança, governança e estratégia.

Mas justamente por isso o ponto se torna ainda mais relevante. Quanto mais a IA automatiza partes da execução cognitiva marginal, mais decisivas se tornam capacidades humanas como discernimento contextual, julgamento ético, formulação estratégica, imaginação moral, definição de prioridades e criação de sentido. A tecnologia amplia possibilidades, mas não decide sozinha quais delas merecem ser realizadas. O centro normativo, político e civilizacional da revolução continua sendo humano. E será a qualidade desse humano em maturidade intelectual, sua ética, sua visão de longo prazo e sua capacidade de liderar sistemas híbridos que irão determinar se PACE será emancipador ou regressivo.

PACE é um dos maiores saltos da história

Toda grande mudança histórica exige uma nova linguagem. VUCA nomeou um mundo que perdia estabilidade. BANI nomeou um mundo que perdia inteligibilidade. PACE nomeia um mundo que começa a ganhar uma nova capacidade de ação sobre si mesmo.

Essa é a virada central do nosso tempo. A inteligência artificial não elimina o caos, mas muda a relação da civilização com ele. Ela não dissolve a fragilidade, mas amplia a capacidade de compensá-la. Não extingue a ansiedade, mas cria condições inéditas para governá-la. Não remove a não linearidade, mas expande os meios de explorá-la. Não torna tudo compreensível, mas empurra para dentro de um campo penetrável problemas que antes pareciam além do alcance humano. A história recente da ciência, da produtividade e da adoção organizacional já oferece sinais concretos dessa inflexão, mesmo que seus efeitos de longo prazo ainda estejam em consolidação.

É por isso que PACE não é apenas um novo acrônimo elegante, e sim um enquadramento mais fiel à nova ordem da era da IA. O que define nosso tempo já não é apenas a sensação de colapso, e sim a emergência de uma inteligência expandida, distribuída e operacionalizável que altera a velocidade da aprendizagem, a arquitetura da decisão e o horizonte da descoberta humana. Quando uma civilização passa a externalizar e amplificar partes relevantes de sua própria capacidade cognitiva, ela entra em um novo patamar histórico. E é por isso que o mundo PACE pode vir a ser lembrado como o nome de um dos maiores saltos já vividos pela humanidade.

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