ESG
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E se o Brasil adotasse o conceito de “best before”?

Adotar o 'Best Before' no Brasil pode reduzir o desperdício de alimentos, mas demanda conscientização e mudanças na cadeia logística para funcionar
CEO e founder da Food To Save - empresa que atua no combate ao desperdício de alimentos no país e na promoção do acesso a bons alimentos. Lucas foi eleito empreendedor do ano pela EY, reconhecido como um dos Top 50 Creators do LinkedIn na categoria Food Industry & Food Tech.

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O conceito de “Best Before”, já adotado na União Europeia, Reino Unido, EUA e Canadá, indica que a data de validade não significa, necessariamente, que o produto não pode mais ser consumido. Após essa data, é necessário que o consumidor faça uma análise sensorial simples – verificando cheiro, aparência e sabor – para avaliar se o produto ainda está próprio para o consumo. Já no Brasil, essa política do “Best Before” tem ganhado cada vez mais espaço para debates, principalmente por conta da urgência de se falar sobre o desperdício de alimentos, consumo sustentável e mudanças climáticas. 

Recentemente, acompanhei uma entrevista do presidente da ABRAS – Associação Brasileira de Supermercados, João Galassi, comentando sobre a iniciativa, que é defendida como uma das importantes alternativas para baratear o preço dos alimentos. Além disso, acredito que a implementação do “Best Before” no Brasil poderia trazer mudanças significativas para o consumo consciente e para a gestão de alimentos, agregando pontos importantes como a educação, a conscientização e menos desperdício alimentar. 

Só para se ter uma ideia, o Brasil descarta um volume impressionante de alimentos, equivalente à capacidade do estádio Maracanã, totalizando cerca de 46 milhões de toneladas de comida desperdiçada, conforme dados do IBGE de 2024. Ao adotar o “Best Before”, seria possível estimular os consumidores a compreenderem melhor os rótulos. Também seria possível evitar o descarte de alimentos que ainda estão bons e seguros para consumo, ajudando a mudar hábitos e a promover um consumo mais responsável. 

Apesar de não ser uma solução única, podemos nos inspirar e olhar para esse modelo como uma ferramenta poderosa dentro de uma estratégia maior para reduzir o desperdício e ensinar sobre os alimentos. Mas como toda mudança, há desafios, principalmente culturais. É necessário investir na educação do consumidor para evitar confusões e garantir a segurança alimentar. 

Muitos produtos com a indicação “Melhor Antes” já são descartados indevidamente porque os consumidores tendem a confundir essa informação com a data de validade. Porém, enquanto a data de validade indica quando o alimento deixa de ser seguro para consumo, o “Melhor Antes” refere-se à qualidade ideal do produto, que pode permanecer próprio para consumo mesmo após essa data. Essa falta de clareza gera o desperdício de alimentos que ainda poderiam ser aproveitados, destacando a necessidade de maior conscientização e de uma comunicação mais eficaz por parte da indústria e do varejo. Por isso, vejo que a educação sobre o tema é um ponto fundamental para a implementação do “Best Before” no país.

Além disso, o Brasil, com seu clima tropical e dimensões continentais, apresenta particularidades que demandam adaptações no transporte e armazenamento dos alimentos. As variações climáticas entre as regiões do país exigem estratégias diferenciadas para garantir a qualidade e a segurança dos produtos ao longo da cadeia logística. Enquanto algumas áreas lidam com altas temperaturas e umidade excessiva, outras enfrentam climas mais secos ou frios, o que impacta diretamente a durabilidade e a conservação dos alimentos.

Diante desse cenário, é fundamental que o setor alimentício adote soluções inovadoras para preservar a qualidade dos produtos e  reduzir as perdas e o desperdício de alimentos, beneficiando tanto os produtores quanto os consumidores.

Enquanto o “Best Before” não chega por aqui, sigo liderando o maior movimento contra o desperdício de alimentos do Brasil, junto com marcas que já estão de olho nessa tendência que precisa ser discutida fortemente no país. Nos inspiramos em iniciativas de todo o mundo e queremos cada vez mais nos unir para transformar o desperdício em oportunidade, repensando o estilo de consumo e de vendas, criando um ciclo virtuoso que beneficia a sociedade como um todo e também o planeta.

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