Aos 70 anos, o brasileiro ganha algo curioso: a liberdade de não votar. O voto, que durante décadas foi uma obrigação, passa a ser facultativo. Ninguém precisa justificar a ausência. Ninguém será punido por ficar em casa.
Talvez seja justamente aí que o eleitor 70+ se torne tão interessante. No momento em que a participação deixa de ser obrigatória, o que faz alguém continuar participando?
A pergunta vai muito além das eleições.
Em um país que envelhece rapidamente, mais pessoas chegam a essa fase da vida carregando décadas de experiência, memória, repertório e participação social. No ano passado, o Brasil tinha cerca de 16 milhões de eleitores com mais de 70 anos, aproximadamente 10% do eleitorado. Ao mesmo tempo, o comparecimento cai progressivamente nas faixas etárias mais altas. Entre pessoas de 70 a 74 anos, foi de 66,43%. Entre 75 e 79 anos, caiu para 49,55%.
Os números podem ser lidos de muitas maneiras. Mobilidade, saúde, acesso e condições práticas certamente fazem parte dessa equação. Mas existe uma questão que merece atenção: o envelhecimento também pode vir acompanhado de uma redução da percepção de pertencimento.
E pertencimento é um dos grandes temas do nosso tempo.
Quando a participação é voluntária, a relevância é colocada à prova
Recentemente, a presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministra Cármen Lúcia, relatou ter ouvido casos de pessoas idosas sendo desencorajadas nas filas de votação. “Não precisava ter vindo votar”, teriam dito algumas pessoas.
A frase parece banal, mas não é. Ela carrega uma ideia poderosa: sua participação já não é necessária.
Não estou dizendo que cada pessoa que não vota depois dos 70 anos se sente excluída. Seria uma simplificação equivocada. Muitas simplesmente exercem o direito de não votar. Mas vale refletir sobre o que comunicamos, socialmente, quando a presença das pessoas mais velhas deixa de ser esperada, desejada ou considerada relevante.
Porque o mesmo fenômeno aparece no mundo do trabalho.
Muitas organizações continuam celebrando a experiência em seus discursos, mas tratam a longevidade profissional como um problema a ser administrado.
Profissionais experientes são desligados em reestruturações sem que se calcule o conhecimento que sai pela porta. São preteridos em processos seletivos em nome de um suposto “fit cultural”. Deixam de ser considerados para novos projetos porque a empresa já pressupõe que estão próximos demais do fim da carreira.
Não é necessário que alguém diga: “você não precisa mais estar aqui”. Basta construir ambientes que façam a pessoa perceber isso sozinha.
O problema não é apenas perder pessoas. É perder capital
Uma das grandes contradições das organizações contemporâneas é que elas se preocupam cada vez mais em atrair talentos e, ao mesmo tempo, ainda sabem pouco sobre como preservar o valor acumulado por quem já está dentro de casa.
A experiência não é apenas tempo de carreira. É repertório para reconhecer padrões. É memória sobre decisões anteriores. É capacidade de contextualizar problemas. É conhecimento sobre clientes, crises, erros, relações e ciclos.
Isso não significa romantizar a idade.
Pessoas mais velhas não são automaticamente mais sábias. Jovens não são automaticamente mais inovadores. E gerações não devem ser tratadas como blocos homogêneos.
Mas existe algo que a idade pode produzir: acúmulo de repertório. O desafio estratégico é entender o que fazer com ele.
Recentes pesquisas apontam para evidências de que a diversidade etária pode contribuir para a performance organizacional por meio do capital humano e social. O ponto importante não é acreditar que basta colocar pessoas de idades diferentes na mesma empresa. Não basta.
A diversidade etária só se transforma em vantagem quando a organização cria condições para a troca, reduz estereótipos e reconhece o valor complementar das diferentes trajetórias.
Essa talvez seja uma das questões mais negligenciadas quando falamos de diversidade.
O voto 70+ e o mundo do trabalho têm algo em comum
O eleitor que comparece às urnas depois dos 70 anos está fazendo algo que não é mais obrigado a fazer: ele participa porque quer.
Isso nos leva a uma pergunta que as empresas deveriam fazer com mais frequência: se as pessoas experientes de uma organização pudessem simplesmente escolher não participar mais, o que as faria continuar?
A discussão vai além da aposentadoria. Trata-se de participação intelectual, da vontade de contribuir, do desejo de ensinar e aprender e da disposição para colocar o próprio repertório a serviço de um projeto coletivo.
As organizações costumam medir engajamento. Mas talvez devêssemos começar a medir também algo mais específico: em que momento profissionais experientes começam a se retirar antes mesmo de sair?
Quando deixam de ser chamados para decisões importantes? Quando param de receber oportunidades de desenvolvimento? Quando percebem que novos desafios são destinados sempre aos mais jovens? Quando entendem que a empresa quer sua experiência, mas não necessariamente sua presença no futuro?
Esse desligamento silencioso pode começar muito antes do desligamento formal.
O retorno sobre repertório
Em outro artigo publicado nesta revista, apresentei o conceito de ROEx, o Retorno sobre o Repertório Acumulado.
A ideia parte de uma provocação simples: se as empresas medem o retorno de tantos ativos, por que raramente avaliam o retorno produzido pela experiência acumulada?
O eleitor 70+ oferece uma imagem interessante para pensar sobre isso.
Quando decide votar, ele coloca em circulação um repertório construído ao longo de décadas. Não porque sua idade lhe dê automaticamente razão. Mas porque sua trajetória também faz parte da construção da decisão coletiva.
Nas organizações, acontece algo semelhante: experiência só gera retorno quando encontra espaço para circular.
Não adianta manter profissionais experientes no quadro se suas opiniões já não são solicitadas. Não adianta falar em diversidade geracional se as decisões continuam concentradas em uma única faixa etária. Não adianta esperar a aposentadoria para iniciar a transferência de conhecimento.
O capital geracional precisa ser ativado antes de se perder.
Não é sobre “eles”
Há uma armadilha recorrente quando discutimos envelhecimento. Falamos sobre “os idosos” como se estivéssemos falando de um grupo distante de nós, mas o envelhecimento é um processo coletivo. A única diferença é que estamos em momentos distintos dele.
O jovem de hoje não será igual ao jovem de ontem quando chegar aos 70. Terá vivido outras transformações, construído outro repertório e enfrentado outros desafios. Mas chegará lá.
Por isso, discutir o voto 70+ não é discutir apenas o comportamento de uma parcela específica do eleitorado: é discutir o que acontece com a participação ao longo da vida.
É perguntar quem queremos continuar sendo quando a sociedade deixar de nos exigir determinadas coisas.
É refletir sobre o que faz alguém continuar contribuindo quando já poderia simplesmente se retirar.
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes para organizações que querem se preparar para a longevidade.
Porque, em algum momento, todas precisarão decidir se querem apenas reter trabalhadores mais velhos ou se são capazes de construir ambientes nos quais pessoas de diferentes idades tenham razões concretas para continuar participando.
No fim, a questão não é obrigar alguém de 70, 80 ou 90 anos a votar. Também não é convencer profissionais experientes a permanecer em organizações que já não reconhecem seu valor.
A questão é outra.
Estamos construindo contextos nos quais a participação continua fazendo sentido?
Quando uma pessoa deixa de participar porque não quer, é uma escolha. Mas quando ela deixa de participar porque percebe que sua presença já não importa, temos um problema.
Na democracia. Nas empresas. E na sociedade que todos nós estamos construindo para envelhecer.




