Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
6 minutos min de leitura
Oferecido por:

Essa reunião podia ser um agente

Enquanto agendas lotam e decisões patinam, este artigo mostra como a ascensão dos agentes de IA expõe a fragilidade das arquiteturas de decisão - e por que insistir em reuniões pode ser sinal de atraso estrutural.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Compartilhar:

Me dá um arrepio toda vez que entro em uma reunião sem pauta e objetivo, onde não há estrutura para perguntas que poderiam ser um flow (algum fluxo automatizado em IA)… Há um desalinhamento estrutural quando observamos o papel que as reuniões passaram a ocupar nas organizações, a multiplicação de agendas, a diluição de responsabilidades e a recorrente sensação de que pouco se avança revelam não apenas um problema de excesso, mas um erro mais profundo de concepção. As reuniões deixaram de ser um instrumento de decisão para se tornar um mecanismo de compensação de falhas sistêmicas, criando uma percepção artificial de progresso que raramente se traduz em execução consistente.

O ponto não está na quantidade de encontros, mas no conteúdo e nas atividades que eles concentram. Grande parte do que hoje ocupa horas de agendas executivas não exige julgamento humano, mas sim coordenação de informação, consolidação de dados e organização de contexto. Esses são problemas essencialmente computacionais, que precisamos entender como usar ferramentas para nos apoiar e que historicamente foram atribuídos a pessoas por ausência de alternativas tecnológicas viáveis.

Mas a evolução é rápida, da IA generativa em um piscar de olhos chegamos na era dos Agentes Autônomos. Essa velocidade criou uma emergência de agentes inteligentes alterando esse equilíbrio ao permitir que essas funções sejam executadas de forma contínua, estruturada e com maior precisão, deslocando o papel humano para níveis mais elevados da cadeia decisória. Sendo que, efetivamente, o que precisamos aprender é a trabalhar melhor com agentes e entender o que realmente deve e pode ser delegado a eles.

O avanço dos agentes no dia a dia das operações acaba criando um problema crítico: a fragilidade das arquiteturas de decisão nas empresas (as pessoas precisam desenvolver e reforçar a cadeia lógica de pensamento), que muitas vezes não existe, está fragmentada, ou ainda reside na cabeça das pessoas. Ao longo das últimas décadas, organizações escalaram equipes como forma de lidar com complexidade, quando, na realidade, deveriam ter investido na construção de sistemas (processos que se renovam) capazes de organizar decisões de maneira coerente e integrada.

Esse erro de origem se manifesta em padrões recorrentes, onde reuniões são utilizadas para atualizar informações já disponíveis, discutir dados desatualizados ou incompletos, postergar decisões por falta de cenários comparativos e delegar tarefas que dependem de retrabalho posterior. Trata-se de um ciclo que consome recursos humanos escassos sem necessariamente elevar a qualidade das decisões.

A presença humana passa a ser utilizada de forma ineficiente, absorvida por atividades que não exploram sua principal capacidade, que é o julgamento em ambientes complexos. Executivos tornam-se intermediários de informação, gestores assumem o papel de tradutores de contexto e conselhos passam a operar de forma reativa sobre dados que já não refletem a realidade no momento em que são analisados. A tecnologia, que deveria ampliar a capacidade de decisão, acaba sendo subutilizada, enquanto pessoas altamente qualificadas são direcionadas para tarefas operacionais que poderiam ser automatizadas com maior eficiência.

A incorporação de agentes bem desenhados não implica substituição de pessoas, mas reposicionamento de suas funções, o problema é que muitas pessoas se recusam a fazer essa mudança. Ao assumir a coleta, consolidação e análise inicial de dados, esses sistemas liberam espaço para que o humano atue onde de fato gera valor: na definição de critérios, na interpretação de cenários e na tomada de decisões estratégicas. Esse deslocamento, no entanto, não ocorre automaticamente, pois exige uma revisão profunda dos modelos mentais que sustentam a gestão contemporânea. Ainda prevalece a lógica de que presença em reuniões é sinônimo de relevância, e de que volume de interação é indicativo de contribuição estratégica, o que reforça estruturas ineficientes e pouco sustentáveis no longo prazo.

Quando agentes passam a operar de forma integrada aos fluxos de trabalho imediatamente começamos a notar nas empresas uma exposição do vazio estrutural que antes era preenchido por atividades de baixo valor agregado, ou uma sobreposição que gera dúvidas sobre o valor real da tecnologia. O tempo liberado pela automação revela a necessidade de redefinir o papel do indivíduo dentro da organização, trazendo à tona uma questão crítica sobre o que constitui, de fato, contribuição humana em um ambiente onde grande parte da execução pode ser delegada a sistemas. Essa reflexão diferencia abordagens superficiais de adoção tecnológica de transformações estruturais que impactam o modelo de negócio e a forma de operar.

Empresas que avançam nesse processo compreendem que agentes não são extensões operacionais limitadas, mas componentes centrais de uma nova infraestrutura de processo e decisão. Eles operam monitorando sinais, correlacionando eventos e propondo ações com base em objetivos previamente definidos, reduzindo a dependência de interações síncronas e de consensos construídos socialmente. Esse modelo exige clareza sobre critérios, limites e responsabilidades, deslocando a discussão da adoção de tecnologia para o campo da governança. A questão central passa a ser a definição de quem decide, com base em quais dados e sob quais regras, em um ambiente onde a autonomia dos sistemas cresce de forma contínua.

A resistência a essa mudança está menos relacionada à tecnologia e mais à persistência de modelos organizacionais que foram desenhados para outra realidade. Muitas empresas reconhecem o custo elevado das reuniões, mas continuam estruturadas de forma a depender delas, perpetuando um ciclo onde problemas sistêmicos são tratados como questões de agenda. A superação desse padrão exige a capacidade de redesenhar processos como fluxos estruturados de decisão, integrando dados, sistemas e agentes de forma coerente.

A transformação, portanto, não se inicia com a eliminação de reuniões, mas com a reconfiguração da arquitetura que as torna necessárias. À medida que sistemas passam a antecipar análises, estruturar alternativas e executar decisões dentro de parâmetros definidos, a interação humana deixa de ser o ponto de partida e passa a ser acionada apenas quando há necessidade de julgamento, exceção ou redefinição de दिशा estratégica. Nesse cenário, a vantagem competitiva desloca-se para a capacidade de decidir com qualidade, velocidade e responsabilidade, sustentada por uma infraestrutura que integra inteligência humana e artificial de forma complementar.

A permanência de modelos baseados em rituais de alinhamento revela uma dificuldade de abandonar estruturas que, embora familiares, já não respondem às exigências de um ambiente em rápida transformação. A evolução exige reconhecer que a eficiência não está em otimizar práticas existentes, mas em questionar sua própria relevância. O desafio não é apenas reduzir o número de reuniões, mas compreender por que elas continuam existindo e qual arquitetura precisa ser construída para que deixem de ser necessárias.

Compartilhar:

Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

Artigos relacionados

Reduzimos o analfabetismo. Agora precisamos evitar que os jovens abandonem a escola.

Pela primeira vez, a taxa de analfabetismo entre brasileiros com 15 anos ou mais ficou abaixo de 5%. O avanço, porém, expõe uma nova urgência: milhares de jovens continuam deixando a escola para trabalhar. O desafio agora é construir caminhos que permitam estudar, gerar renda e desenvolver competências para um mercado de trabalho em rápida transformação.

Entre o burnout, a felicidade e a IA: o que aprendemos no Mind Summit 2026

Em sua primeira experiência em um grande evento de negócios, duas estudantes foram convidadas a refletir sobre temas que impactam diretamente a nova geração de profissionais. O resultado foi uma jornada de descobertas sobre bem-estar, propósito, trabalho e o papel das pessoas em um futuro cada vez mais tecnológico.

O futuro da governança continua sendo humano

Com a participação de nomes como Christopher Garman, Thomas Shannon, Sergio Rial, Jeane Tsutsui e Guilherme Horn, o Congresso IBGC 2026 propõe um debate sobre um dos temas mais relevantes da atualidade: como exercer liderança e governança em um mundo marcado por inteligência artificial, incertezas geopolíticas e mudanças cada vez mais rápidas, sem abrir mão das competências que permanecem essencialmente humanas.

Crédito justo depende de informação, não apenas de regulação

Investigações sobre práticas abusivas colocam em evidência a necessidade de repensar a relação entre instituições financeiras e consumidores. Em um ambiente marcado por inovação digital e alta demanda por crédito, a transparência deixa de ser apenas uma obrigação regulatória e passa a ser condição essencial para a sustentabilidade do setor.

O conselho do Mind Summit 2026: mens sana in “corporate” sano

Das reflexões de Amy Edmondson sobre segurança psicológica aos alertas de Michael Long sobre a economia da atenção, passando pelas provocações de Paul Goldsmith e Deepika Chopra, a última edição do Mind Summit revelou um ponto em comum: o futuro do trabalho dependerá menos da capacidade das máquinas e mais da nossa habilidade de preservar aquilo que nos torna humanos em meio à aceleração tecnológica.

Inovação & estratégia
1º de setembro de 2026 08H00
O artigo utiliza a clássica fábula dos três porquinhos para mostrar por que organizações que apostam apenas em estruturas robustas, sem capacidade de adaptação, podem se tornar mais vulneráveis justamente quando o ambiente exige flexibilidade e aprendizado contínuo.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 20H00
Plataformas de saúde, apoio emocional e programas de qualidade de vida nunca foram tão comuns nas organizações. Ainda assim, muitos colaboradores afirmam não ter tempo para utilizá-los. O artigo propõe uma reflexão sobre a distância entre acesso e uso efetivo, mostrando por que a próxima evolução do bem-estar corporativo depende menos de novos benefícios e mais de mudanças na cultura, na liderança e na gestão do tempo.

Felipe Calbucci - CEO Latam TotalPass

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
31 de agosto de 2026 18H00
A sua próxima contratação pode já estar dentro da empresa. Dados mostram que muitos profissionais deixam suas organizações não por falta de oportunidades no mercado, mas por não enxergarem caminhos de crescimento internamente. O artigo discute por que iniciativas como marketplaces de talentos, projetos multidisciplinares, gig assignments e conversas estruturadas de carreira são fundamentais para revelar potencial, ampliar a mobilidade interna e transformar talentos já existentes em uma vantagem competitiva para o negócio.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

Oferecido por:
10 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Bem-estar & saúde
31 de agosto de 2026 14H00
A lógica do “trabalhe enquanto eles dormem” ajudou a moldar uma geração de profissionais que transformou o cansaço em símbolo de mérito. O artigo questiona os mitos da cultura hustle e defende o sono como um dos investimentos mais estratégicos para desempenho, bem-estar e crescimento sustentável.

Valter Roldão - CEO da Luuna

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Estratégia, Cultura organizacional
31 de agosto de 2026 07H00
Ao revisitar conceitos milenares do Yoga sob a ótica da gestão contemporânea, o artigo propõe uma pergunta essencial para líderes e organizações: os sistemas que construímos estão alinhados aos valores que afirmamos praticar?

Carlos Legal - Fundador da Legalas Aprendizagem e Educação Corporativa

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
ESG
30 de agosto de 2026 14H00
Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

Juliana Ramalho - CEO da Talento Sênior

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Estratégia, Finanças, Gestão de recursos
30 de agosto de 2026 07H00
Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

François Bazini - CMO e Consultor

Oferecido por:
6 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance, Finanças
29 de agosto de 2026 14H00
A implementação do Split Payment inaugura uma nova lógica para o recolhimento de tributos no Brasil e altera uma dinâmica financeira que acompanha as empresas há décadas. Ao retirar do fluxo de caixa os valores destinados a impostos, o novo modelo exigirá mais planejamento, integração entre áreas e maturidade na gestão financeira e tributária.

Ulisses Brondi - CEO da ASIS Tax Tech

Oferecido por:
4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
29 de agosto de 2026 07H00
Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Ísis P. Fontenele - Consultora organizacional, professora da FGV, mestre em Gestão de Pessoas pela FGV EAESP

Oferecido por:
8 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
28 de agosto de 2026 17H00
O artigo propõe uma reflexão sobre o papel da curadoria, da divergência e do discernimento humano em uma era marcada pela abundância de inteligências e pela escassez de julgamento.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

Oferecido por:
7 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução