Tecnologia e inovação, Empreendedorismo
6 min de leitura

Há um fio entre Ada Lovelace e o CESAR

Esse fio tem a ver com a combinação de ciências e humanidades, que aumenta nossa capacidade de compreender o mundo e de resolver os grandes desafios que ele nos impõe
O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.
CEO do CESAR e doutor em Engenharia de Software pela CESAR School. Com uma carreira marcada por atuações em cargos técnicos e executivos, trabalhou em organizações na Holanda, Suíça e Brasil, além de ter atuado como consultor de inovação para diversas empresas. Eduardo também é mestre em Engenharia Eletrônica pela Technical University of Eindhoven (Holanda), possui MBA pela Kellogg School of Management (EUA) e formação executiva em Transformação Digital pela Columbia Business School, em Nova York.

Compartilhar:

Fora do tempo e do espaço, talvez fosse improvável imaginar qualquer linha que me ligasse a Ada Lovelace. Mais improvável ainda seria incluir, nesse mesmo traço, o CESAR, centro de inovação nascido no Recife e a caminho de completar três décadas. Ada viveu em uma Londres de velas e vapor, em 1815. Eu nasci mais de um século depois, em outra geografia, falando outra língua. E ainda assim, há um fio.

Sou engenheiro eletrônico por formação, diploma datado de 1987, pela Universidade Federal de Pernambuco. Meu ofício, por muito tempo, foi feito de cálculos e circuitos, do pensamento técnico herdado da engenharia. Era um mundo com margens bem definidas, onde o que não era exato parecia não caber. Mas a vida, essa tecnologia mais antiga, é feita de desvios.

Foi no CESAR, hoje mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, que meu caminho começou a dobrar. Cruzou com o dos designers, e com eles aprendi a olhar. Aprendi que forma também é função, que empatia não é ruído, é código. Minha rigidez se dissolveu em colaboração, meu raciocínio se reprogramou. A lógica cedeu espaço à escuta. 

Mas, antes de revisitar a história do CESAR, voltemos a Ada. Uma mulher jovem cuja formação familiar a aproximou das letras rimadas. Mulher em um tempo que não previa mulheres assim. Filha do poeta britânico Lord Byron (sim, aquele que é símbolo do romantismo, autor do poema Don Juan, escrito no século 19), Ada trazia as palavras no DNA, mas seguiu outro caminho. 

Por incentivo da mãe, estudou matemática. A futura condessa de Lovelace cresceu com uma mente inquieta, moldada pela lógica e pelo lúdico. Entre compromissos da corte, um jantar a levou a conhecer Charles Babbage,  o cientista que falava de engrenagens como quem recitava versos. Ele criou uma máquina para resolver equações polinomiais: a “difference engine”, e despertou a curiosidade de Ada.

Segundo o historiador britânico Richard Holmes, os dois habitavam a Age of Wonder, aquela era de espanto em que a ciência ainda era encantamento.

Foi esse espanto que levou Ada a trilhar o caminho entre arte e ciência. Quando Menabrea descreveu, em francês, a máquina calculadora de Babbage, Ada não se limitou a traduzir o conteúdo,  inseriu ali suas “notas do tradutor”, que acabariam sendo mais relevantes do que o texto original.

E, no encontro entre arte e tecnologia, havia o que talvez se possa chamar de inovação, uma palavra tão repetida nos tempos atuais e, ainda assim, tão adequada ao contexto aqui narrado. Inovação é uma palavra que não cansa, nem seu significado.

É essa sinergia que sigo buscando, desde quando, no início dos anos 2000, conheci os designers que mencionei alguns parágrafos acima. Na minha busca pelo inovador, muitas vezes recorri a Ada para reforçar meus argumentos: “Não acredito que meu pai tenha sido (ou pudesse ter sido) um poeta como eu serei uma analista, pois comigo os dois vão juntos indissoluvelmente”, ela dizia. 

A inovação não se desenvolve em uma única perspectiva. John Maeda, em uma palestra do TED, falou sobre a importância da união entre arte, tecnologia e design na formação de líderes mais criativos. Com uma trajetória que combina engenharia, ciência da computação e design, Maeda defende que a arte é eficaz justamente por ser enigmática: ela nos ajuda a questionar certezas, a explorar o desconhecido e a fazer perguntas melhores.

Essa visão integradora ecoa um alerta feito décadas antes. No ensaio “The two cultures”, publicado na revista New Statesman na década de 1950, o físico e romancista C.P. Snow lamentava a cisão entre as ciências e as humanidades. Para ele, essa separação limita nossa capacidade de compreender o mundo e de resolver os grandes desafios da sociedade. Era preciso construir pontes e entre laboratórios e bibliotecas, entre engenheiros e poetas.

O mesmo pensamento está na base do CESAR. Sediado no Recife, o centro de inovação foi criado em 1996, unindo referências do movimento cultural Manguebeat com a pesquisa acadêmica e as necessidades do mercado. Ali, o rigor técnico encontrou a inquietação criativa. E eu, engenheiro de formação, reencontrei o espanto (não no sentido assustador, mas aquele mesmo da Age of Wonder).

Ao longo dos anos, ocupei diferentes funções dentro da instituição, uma das mais relevantes do ecossistema do Porto Digital. Minha posição atual, como CEO, ampliou responsabilidades e exigiu um olhar mais estratégico. Mas estratégia não dispensa ideação, certo?

Inovação só acontece em ambientes que acolhem a ambiguidade, que toleram o inacabado, o impreciso e que estimulam o diálogo entre diferentes saberes. É nesse território fértil que artistas, designers, matemáticos, físicos e engenheiros industriais conseguem, juntos, construir soluções verdadeiramente transformadoras.

Tal como Ada, que ousou cruzar domínios e lançar as bases do que viria a ser a computação moderna, o CESAR tem sido, por meio dos mais de 1.400 colaboradores, centelha para interseções. Seja no desenvolvimento de soluções robustas e escaláveis, no impulsionamento tecnológico de startups ou na formação de novos talentos pela CESAR School, o centro é um ponto de encontro constante entre pensamento técnico e sensibilidade criativa. 

Encerro este artigo fazendo um convite para que você também inove ao escrever nas entrelinhas do tecnológico e do artístico. 

LEIA MAIS SOBRE O ASSUNTO:

https://www.nationalgeographicbrasil.com/ciencia/2023/10/a-primeira-mulher-programadora-da-historia-previu-a-existencia-da-inteligencia-artificial

https://www.whipplemuseum.cam.ac.uk/explore-whipple-collections/calculating-devices/charles-babbages-difference-engine

Compartilhar:

O CESAR é o mais completo centro de inovação e conhecimento do Brasil, referência no desenvolvimento de soluções tecnológicas de alta complexidade, com impacto para toda a sociedade. Atua, há quase 30 anos, integrando pesquisa, aceleração de negócios e tecnologia para elevar organizações a um novo patamar de competitividade, além de educação, por meio da CESAR School.

Artigos relacionados

Tudo que aprendi sobre a gestão da nova hotelaria nos últimos cinco anos

Mais conectado, informado e exigente, o consumidor de hoje compara sua experiência de hospedagem com os melhores serviços que encontra em qualquer setor. Em um mercado cada vez mais competitivo, o futuro dos hotéis dependerá da combinação entre inovação, eficiência e de pessoas que tenham a capacidade de criar experiências memoráveis

O SaaSpocalypse chegou? Talvez a pergunta esteja errada.

A pergunta tem aparecido cada vez mais nas reuniões de orçamento. O desafio é que a resposta raramente está no código. Mais do que anunciar o fim do SaaS, a nova onda tecnológica está redefinindo onde o valor do software realmente está, quem o captura e quais capacidades as organizações escolherão desenvolver ou contratar.

O cérebro é um velcro para críticas e um teflon para elogios

Um erro pesa mais do que dez acertos! A ciência mostra que experiências negativas exercem um impacto desproporcional sobre nosso comportamento. Nas organizações, essa tendência pode fazer com que líderes se tornem especialistas em apontar falhas e deixem invisíveis os comportamentos que fortalecem resultados, aprendizado e colaboração.

O líder como jardineiro: a vantagem competitiva que cresce como um jardim

Inspirada na filosofia dos mestres jardineiros japoneses, o autor analisa a trajetória centenária da Omron e questiona um dos pilares da gestão tradicional: e se o papel do líder não fosse controlar resultados, mas cultivar o ambiente onde inovação, autonomia e crescimento acontecem naturalmente?

O prêmio do julgamento na era da inteligência abundante

Modelos de inteligência artificial estão cada vez mais baratos, disponíveis e semelhantes em desempenho. O desafio das organizações não é apenas automatizar processos, mas definir onde a decisão deve continuar sendo humana e como transformar discernimento em vantagem competitiva.

Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura
ESG, Cultura organizacional
4 de setembro de 2026 14H00
A busca por equidade de gênero não se encerra quando as mulheres conquistam um assento nas mesas de decisão. Ela continua na forma como suas ideias são recebidas, valorizadas e transformadas em influência. Ao discutir comunicação, liderança e protagonismo, o artigo mostra por que fortalecer a voz feminina é também uma estratégia para ampliar diversidade, inovação e resultados nas organizações.

Juliana Algodoal - PhD em Análise do Discurso e especialista em comunicação corporativa

3 minutos min de leitura
Marketing & growth
4 de setembro de 2026 08H00
As plataformas digitais premiam velocidade, engajamento e adaptação constante. As marcas, por outro lado, dependem de consistência, memória e diferenciação para gerar valor no longo prazo. O artigo explora o conflito entre essas duas lógicas e analisa como algoritmos e inteligência artificial estão influenciando a forma como as organizações constroem relevância e identidade.

Juliana Bezerra - Líder de conteúdo na DEA Design

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Direito, Regulação & Compliance
3 de setembro de 2026 18H00
A entrada em vigor do acordo comercial entre Mercosul e União Europeia inaugura um novo cenário para as redes de franquias brasileiras. Com redução gradual de tarifas, acesso mais facilitado a tecnologias e insumos, além da possibilidade de expansão para novos mercados, o franchising passa a enxergar na internacionalização uma oportunidade concreta de crescimento. Ao mesmo tempo, a chegada de concorrentes europeus exigirá das marcas nacionais mais inovação, eficiência e capacidade de adaptação para competir em um ambiente cada vez mais globalizado.

Camila Nicolau - Advogada especialista em Direito Empresarial e Contratual

4 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Marketing & growth
3 de setembro de 2026 14H00
Dois terços das edtechs brasileiras nunca receberam investimento externo. Ainda assim, muitas já superaram a fase inicial, conquistaram clientes e validaram seus modelos de negócio. O artigo propõe uma reflexão sobre como a escassez de capital ajudou a formar startups mais resilientes e eficientes, ao mesmo tempo em que levanta uma questão estratégica para o próximo ciclo do setor: como transformar capacidade de sobrevivência em escala, internacionalização e crescimento sustentável.

Claudia Schulz - CEO da ABStartups

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução