Inovação & estratégia
6 minutos min de leitura

IA e o efeito “déjà vu”: por que estamos repetindo os mesmos erros em gestão da transformação?

Este artigo provoca uma pergunta incômoda: por que seguimos tratando o novo com lentes velhas? Estamos vivendo a maior revolução tecnológica desde a internet - e, ainda assim, as empresas estão tropeçando exatamente nos mesmos erros da transformação digital.
Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Compartilhar:

Você certamente já teve aquela sensação de ter vivido algo, mesmo sem se lembrar onde ou quando. É o famoso Déjà Vu, um fenômeno neurológico que acontece durante a codificação de uma nova experiência em nosso cérebro, quando ele registra algumas pistas de semelhança com memórias antigas e acabamos confundindo novidade com familiaridade. Na gestão da tecnologia nas organizações observamos esse efeito quando a inovação parece nova, mas os problemas permanecem. O filme parece diferente, mas o roteiro é o mesmo.

Na era da transformação digital, já vimos o filme: foram promessas de revolução, porém, com falhas de alinhamento estratégico, uma cultura que não acompanhou a velocidade da mudança, e ausência de governança para uma gestão de mudança efetiva. Agora a nova protagonista é a IA, com um roteiro que parece estar se repetindo. Se você está liderando ou participando de iniciativas de transformação de IA na sua organização, as estatísticas devem deixá-lo preocupado.

A pressão para comprovar ganhos rápidos de produtividade iniciou uma corrida bem perigosa pela implementação nas empresas. Segundo dados da edição de 2025 da “Pesquisa de CEOs” da IBM, apenas um quarto das iniciativas de IA alcançaram o ROI esperado nos últimos três anos, e somente 16% conseguiram escalar. A McKinsey também apresentou dados pouco promissores sobre o gap entre ambição e execução em um estudo recente (“Superagency in the Workplace: Empowering People to Unlock AI’s Full Potential”): 92% das empresas planejam aumentar o investimento em IA nos próximos três anos, mas apenas 1% dos líderes consideram suas empresas “maduras” (ou seja, que a IA está totalmente integrada aos fluxos de trabalho e gerando resultados financeiros significativos).

Enquanto a transformação digital nos ensinou a digitalizar processos e focar no cliente, a IA exige que repensemos a própria natureza do trabalho. A IA não altera apenas o “como” do trabalho. Ela ameaça o “quem”. E para navegarmos nessa nova onda e aprendermos as lições do passado para não repetir os mesmos erros agora, podemos pensar em três paralelos essenciais entre essas duas eras, começando pela estratégia, analisando a dinâmica entre humanos e tecnologia, e estabelecendo uma espinha dorsal de qualquer mudança: a governança.

Em primeiro lugar, se você ainda não fez isto, precisa eliminar do mapa corporativo a “Ilha da Inovação”. Quem se lembra de quando a transformação digital se resumia a desenvolver um aplicativo ou criar um “laboratório de inovação” isolado do resto da empresa, que executava testes e iniciativas que não estavam integradas à estratégia corporativa? Não faz tanto tempo assim. O filme parece diferente, mas o roteiro é o mesmo.

Na era da IA, temos visto que a maioria dos esforços atuais estão em casos de uso fragmentados e pontuais, criados com o objetivo principal de aumentar a eficiência de colaboradores individuais. Assim como na transformação digital, a IA não pode ser tratada apenas como uma ferramenta isolada, mas deve estar no centro da estratégia. É preciso ter clareza de visão, com métricas e definição de resultados esperados, e realocar recursos para as áreas críticas, estalebecendo prioridades claras de “must-win battles”. Caso contrário, os recursos serão distribuídos de maneira escassa para uma série de projetos desintegrados, gerando resultados igualmente escassos.

Além disto, as questões paradoxais e complexas entre tecnologia e humanos nunca deixarão de existir. Na transformação digital, o foco era treinar humanos para usarem novas ferramentas. O filme parece diferente, mas o roteiro é o mesmo. Com a IA, não estamos apenas usando a tecnologia, estamos construindo um novo mundo de colaboração híbrida entre humanos e agentes de IA. Do lado da tecnologia, a velocidade da mudança é vertiginosa, trazendo enormes gaps de infraestrutura. Somado a isto, temos barreiras importantes de regulamentação e ética.

Do lado humano, essa velocidade gera lacunas de conhecimento e o medo compreensível da substituição. Porém, temos observado que (pelo menos por enquanto) a prática não é sobre eliminação total, mas sobre uma transição ocupacional. Ou seja, como os agentes de IA ainda não têm todas as respostas e não possuem julgamento crítico, o valor humano muda de foco, e os cargos precisarão ser reformulados com novas habilidades, exigindo um equilíbrio onde a fluência tecnológica se encontra com fortes habilidades sociais, emocionais e cognitivas.

De acordo com o estudo já citado da McKinsey, para cada US$1 gasto em tecnologia, US$ 5 deveriam ser investidos nas pessoas. E é preciso investir não apenas em capacitar pessoas e desmistificar a IA na organização, mas também em gerenciar os medos de substituição para conquistar a confiança dos colaboradores para adoção. Voltamos ao primeiro ponto sobre a estratégia e, para além da sua definição, ela deve ser comunicada com transparência desde o primeiro dia, para que as pessoas entendam por que a IA é importante, como ela se conecta às prioridades de negócios e como ela impacta suas funções específicas.

Finalmente, devemos sair do modo “Business as Usual” para viver o “Business as Change”. A transformação digital já nos ensinou que a mudança cultural é o maior desafio e, com a IA, isso é elevado à enésima potência. O filme parece diferente, mas o roteiro é o mesmo. Para quem sequer tentou fazer isto na era da transformação digital, o modelo de lançar um programa de gestão de mudança e depois retornar ao “business as usual” acabou. A transformação não é mais um evento necessário em um período específico, ela é contínua. Sim, o novo normal é o “business as change”, onde a mudança é ampliada e o objetivo agora é construir a capacidade organizacional de mudar, se recuperar e se adaptar continuamente.

E se, em vez de aceitar esse déjà vu como “parte do pacote” de toda nova onda tecnológica, a gente praticasse o oposto? Você sabia que existe um termo para isto? É o “vujà de”, a sensação de ver algo conhecido como se fosse a primeira vez. É uma espécie de “estranhamento” produtivo, quando olhamos para o óbvio com olhos novos. E talvez seja exatamente isso que está faltando na transformação de IA. Porque os erros que estamos repetindo não parecem vir da falta de modelos, ferramentas ou “hype”. Eles vêm da nossa pressa em tratar o novo com as velhas lentes, em continuar fazendo piloto sem estratégia, automatizar sem redesenhar os fluxos de trabalho, empurrar tecnologia sem ganhar confiança da equipe.

O filme parece diferente, e o roteiro precisa ser novo. Esta história pode ser o começo de uma transformação que, desta vez, não pareça uma reprise.

Compartilhar:

Fundadora da Zero Gravity Thinking. Consultora e mentora em estratégia, inovação e transformação organizacional.

Artigos relacionados

Se o estagiário lidera a reunião, quem é o líder?

Em um cenário onde conhecimento, repertório e fluência tecnológica estão distribuídos entre diferentes gerações, a liderança deixa de ser uma posição fixa e passa a circular conforme o contexto. O artigo explora como a IA está redefinindo autoridade, colaboração e tomada de decisão, tornando a capacidade de aprender, adaptar-se e reconhecer quem deve liderar em cada momento uma das competências mais importantes do futuro.

A natureza da liderança: o que os patos, as formigas e as árvores podem nos ensinar?

A liderança é uma invenção humana ou um princípio presente na própria natureza?

Longe das salas de reunião e dos modelos de gestão, a natureza oferece pistas valiosas sobre uma das capacidades mais humanas das organizações: a liderança. A partir de observações do cotidiano no campo, o autor propõe uma reflexão sobre as origens da condução, da cooperação e da construção de instituições, sugerindo que liderar talvez seja menos uma técnica aprendida e mais a expressão consciente de uma lógica que acompanha a vida há milhões de anos.

RoT ou HoT: a métrica que vai separar os projetos de IA que geram valor dos que apenas consomem orçamento

Empresas estão investindo bilhões em inteligência artificial, mas poucas conseguem responder uma pergunta simples: quanto valor real cada interação com IA está gerando para o negócio? O artigo propõe uma nova forma de avaliar projetos de IA generativa, baseada no conceito de retorno sobre tokens, e mostra por que medir apenas adoção, volume de uso ou número de licenças já não é suficiente para justificar investimentos, escalar soluções e transformar tecnologia em resultado.

As empresas não estão tendo resultados com IA. E a culpa é toda delas! 

Enquanto líderes cobram ganhos de produtividade e redução de custos, muitas empresas ignoram um fato básico: inteligência artificial não gera transformação por osmose. Sem redesenho de processos, desenvolvimento de competências e participação das pessoas, a tecnologia corre o risco de se transformar apenas em mais uma ferramenta cara dentro da organização.

Liderança
29 de junho de 2026 16H00
Ao revisitar a história de Francisco Serrão, este artigo propõe uma inversão rara na lógica da liderança contemporânea: talvez a verdadeira coragem não esteja em continuar a todo custo, mas da capacidade de definir limites.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de junho de 2026 08H00
Ao contrastar o poder das big techs ocidentais com a força industrial e estrutural do Oriente, este artigo amplia a leitura sobre inovação e revela que o futuro da economia global não será definido por empresas isoladas, mas pela interação entre ecossistemas tecnológicos interdependentes.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
28 de junho de 2026 15H00
Com Sérgio Frangioni e a Blanver como pontos de observação, o terceiro artigo da série sobre a indústria farmacêutica brasileira investiga como decisões empresariais, PDPs, IFAs e produção local podem aproximar inovação farmacêutica da vida concreta dos pacientes.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

13 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
28 de junho de 2026 08H00
Diante de um cenário de sobrecarga crescente no trabalho, este artigo mostra que o problema não está apenas no volume, mas na forma como o trabalho é organizado, e apresenta caminhos práticos para redesenhá-lo com mais significado, autonomia e energia.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

10 minutos min de leitura
Estratégia
27 de junho de 2026 15H00
Mais do que acumular experiências, este artigo propõe uma mudança na forma de pensar carreira, apoiando-se em conceitos como “capital profissional” (composto de cinco capitais) e “professional equity”

Nathália Brandão - Head de Educação Corporativa no TikTok LATAM, Escritora e Forbes Under 30

5 minutos min de leitura
Liderança
27 de junho de 2026 08H00
Na estreia da coluna do Grupo Mulheres do Brasil, este artigo mostra que a liderança do futuro não será construída por decisões individuais, mas pela capacidade de mobilizar diversidade, escuta e inteligência coletiva para enfrentar desafios que já não cabem em uma única visão.

Andrea Gasques - Diretora de Comunicação do Grupo Mulheres do Brasil

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
26 de junho de 2026 14H00
Ao revisitar os 30 anos do CESAR, este artigo mostra por que, em um mundo cada vez mais automatizado, a vantagem competitiva não estará apenas na tecnologia, mas na capacidade de formar pessoas que saibam interpretar, conectar e dar sentido ao conhecimento.

Janaina Calazans - Gerente de Ensino Superior da CESAR School

6 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
26 de junho de 2026 08H00
Este artigo revela por que o verdadeiro desafio da IA não é adoção, mas uso intencional, capaz de ampliar o pensamento, e não substituí-lo.

Isabela Corrêa - Cofundadora da People Strat

6 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de recursos
25 de junho de 2026 15H00
A teoria dos jogos expõe o erro estrutural por trás do modelo reativo que consome bilhões sem gerar resultados proporcionais. Este artigo mostra que não falta dinheiro na saúde, falta estratégia para usar.

Dr. Jorge Luiz Andrade - Anestesiologista e vice-presidente da Unimed Nova Iguaçu

4 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
25 de junho de 2026 08H00
Com o avanço da longevidade e a transformação demográfica, este artigo mostra por que o futuro das empresas depende menos de estratégias de atração e mais da capacidade de liderar diferentes ciclos de vida, repensando saúde, carreira e gestão de pessoas.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo