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Institute for the future: reagir, redefinir, reconstruir

Entenda como você pode criar pontes para o futuro pós-pandemia, nos Highlights de uma conversa entre Marina gorbis, do iftf, e Martha gabriel

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De um lado, uma futurista norte-americana, líder daquele que é considerado o primeiro think tank do mundo dedicado a estudo de futuros, o Institute For The Future, sediado no coração do Vale do Silício, em Palo Alto, Califórnia. A criação do Vale, aliás, deve muito a esse olhar voltado ao futuro.

De outro, uma futurista brasileira, influenciadora digital, palestrante internacional e best-seller, formada pelo Institute For The Future e que comanda a comunidade FuturoDosNegocios.com.br, que entende a necessidade de aproximar o Vale do Silício do Vale do Anhangabaú. Marina Gorbis e Martha Gabriel discutiram o futuro; organizamos os highlights da conversa em sete pontos.

## 1 – A mentalidade de curto prazo é uma doença da nossa sociedade
A missão de um instituto de futurismo é ajudar as pessoas a sistematicamente pensarem no futuro, não porque seja possível prever o futuro, mas porque é essencial que consigamos entender as tendências para o contexto futuro, pois isso nos ajudará a tomar decisões melhores hoje.

Nesse sentido, é fundamental lutar contra a mentalidade de curto prazo, que é como uma doença na nossa sociedade, trazendo muitas consequências negativas. É preciso ampliar o olhar para um espectro temporal mais longo para balizar e garantir uma melhor tomada de decisão hoje, para criar não apenas os futuros que desejamos, mas, principalmente, aqueles de que precisamos.

## 2 – precisamos de incentivos ao pensamento de longo prazo
Sabíamos de antemão da existência de um cenário futuro provável de pandemia de doenças zoonóticas com consequências devastadoras – então, por que não prestamos atenção a isso? Ouvimos, entendemos, ficamos com medo, mas não agimos. Um dos motivos prováveis é que todos os incentivos que temos em nossos sistemas sociais e de negócios são baseados no curto prazo.

Pense nas empresas: elas são premiadas por iniciativas de curto prazo, como o preço da ação. Então, não faz sentido para elas priorizar qualquer outro esforço que não se trate de produtividade e eficiência imediatas. Aliás, a demissão de funcionários ou a redução de custos tende a aumentar o valor das ações. Quando pensamos em política, é a mesma coisa: o foco está no imediatismo da próxima eleição.

Portanto, há poucos incentivos no sistema para pensar e se preparar para o longo prazo, e essa é a nossa maior ameaça existencial. Precisamos construir incentivos em todos os sistemas que operamos, não só para pensar no futuro, mas para agir também.

Isso vale inclusive para a nossa vida pessoal: muitas vezes fazemos aquilo que é mais urgente, mas adiamos ou negligenciamos aquilo que é mais importante, que nos traria benefícios no longo prazo, como exercícios físicos, alimentação, dormir adequadamente, estudar etc.

Mudar os incentivos para pensar no futuro que desejamos é essencial para ajustarmos nossas ações no presente.

## 3 – Os padrões das crises valem também para a crise pandêmica
Crises costumam ter padrões conforme o tempo. A princípio, ficamos chocados com as mudanças, e então passamos a reagir (react) a elas, tentando redefinir uma forma de lidar com o mundo (reset) para, então, reconstruir (rebuild) a vida da melhor maneira que conseguimos.

Depois da reação imediata, existe um período em que tentamos dar sentido aos acontecimentos, avaliando do que se trata, o que aprendemos, quais são os sinais que vemos, e, no fim das contas, isso nos dá a oportunidade de reavaliar e reconstruir, reimaginar para onde queremos ir dali para a frente – isso é o que usamos para construir os cenários futuros.

Durante o processo de avaliação da pandemia, ficaram claras as vulnerabilidades dos nossos sistemas sociais, das nossas tecnologias, dos nossos sistemas de saúde, e o que precisamos corrigir para fortalecê-los e reconstruir a nossa imunidade como sociedade.

O padrão utilizado pelo IFTF para avaliar essa crise foi selecionar três momentos: (1) quais as ações ou escolhas que faremos agora, (2) o que podemos fazer nos próximos seis meses a dois anos, e (3) no pós-pandemia. Essa crise nos dá uma oportunidade de seguir também esse padrão, e analisar e recriar a sociedade. O fato de estarmos (ao menos, uma parte de nós) encarando esse desafio e repensando várias coisas que estão erradas talvez seja uma oportunidade para construir um futuro melhor.

## 4 – Normal não é sinônimo de bom
Muito do que considerávamos normal antes da pandemia talvez seja melhor não voltar. Temos desigualdades absurdas de renda e riqueza, racial, e as pessoas que mais sofrem são sempre as que estão no extremo menos favorecido desse desnivelamento socioeconômico: pessoas que não têm renda ou que ganham pouco.
A crise instaurada está se alimentando dessas desigualdades, vulnerabilidades que existiam no “normal” anterior: o trabalho precário, o acesso limitado à assistência médica e a benefícios, a falta de reserva financeira para poder atravessar um período de desemprego ou de menos trabalho. Não queremos mais o sistema que criou essas vulnerabilidades. Queremos entender isso para construir algo melhor.

## 5 – Comunidades são solução para o futuro
A pandemia tem revelado não apenas nossas vulnerabilidades, mas também recalibrado a nossa percepção sobre o que é essencial para a vida. Por exemplo, a quarentena mostrou o quanto somos dependentes das comunidades de que participamos, especialmente a família – muitas vezes, na correria cotidiana da vida anterior, muita gente quase não tinha tempo para a família, e muitos mal conheciam verdadeiramente parceiros e filhos.

O mesmo acontecia com a nossa alimentação e a distribuição do tempo com atividades de forma equivocada – os longos períodos de trânsito e deslocamento eventualmente nos deixavam sem tempo para exercícios físicos ou hobbis. Esse desequilíbrio é claro e cristalino.

Já sabíamos que alimentação saudável, exercícios físicos e convivência em comunidade eram os pilares de uma vida melhor. Um estudo da National Geographic de 2005, sobre as regiões do planeta em que as pessoas são mais saudáveis e vivem mais – denominadas blue zones –, mostra que não é a riqueza, mas um forte senso de comunidade, de pertencimento, de propósito dentro da comunidade, o que mais faz diferença na vida das pessoas.

Nesses lugares, as pessoas têm uma dieta saudável e andam, que é se exercitar de maneira natural. Assim, os elementos que garantem uma vida boa e saudável estão relacionados com o bem-estar social.

Há vivíamos uma crise de solidão no planeta muito antes do isolamento da pandemia, porque, no velho normal, as pessoas viviam desconectadas de suas comunidades, e isso tinha efeitos prejudiciais à saúde similares aos do tabagismo.

Na pandemia, isso se intensificou porque, para muita gente, o ambiente de trabalho era o local principal de conexão social. Agora, com a aceleração da digitalização do mundo, boa parte dessa dimensão social está passando para o digital e, provavelmente, no pós-pandemia, manteremos uma boa parte dela assim mesmo depois da vacinação em massa. Precisamos nos preparar, portanto, para a criação e a manutenção de comunidades cada vez mais híbridas on e offline, que gerem o pertencimento, o propósito e a qualidade de vida capazes de nos garantir uma vida futura melhor.

## 6 – Imunidade cognitiva: habilidade essencial para o futuro
Outra realidade que a pandemia revelou de modo mais acentuado é a complexidade do sistema informacional no mundo. Estamos imersos em um volume gigante de informações, mas muitas vezes não conseguimos encontrar o que queremos, ou entender o que está acontecendo. Em que devemos acreditar? Do que duvidar? Como validar a informação? Isso gera deslocamento contextual, dissonância cognitiva e ansiedade. Estamos morrendo afogados no mar informacional.

Nesse contexto, a principal arma para lutarmos contra o fenômeno é o pensamento crítico, que, infeliz e paradoxalmente, diminui de maneira gradativa, quando deveria estar aumentando. Nunca foi tão importante pensar criticamente para desenvolver imunidade cognitiva. Assim, é preciso desenvolver um sistema de educação novo, que consiga oferecer uma abordagem holística ao conhecimento. Só assim poderemos, cada um de nós, construir uma mentalidade que garanta imunidade aos desafios cognitivos que esta era oferece.

## 7 -Futuros “EQualitários”: Renda Básica Universal (Ubi) vs. Recursos Básicos Universais (Uba)
Quando pensamos na evolução tecnológica e no futuro do trabalho, muito se tem discutido sobre a criação de uma renda básica universal, ideia que surgiu há bastante tempo e era considerada estranha até recentemente, mas que agora está se tornando popular.

Por um lado, essa crise está criando alguma forma de renda básica – seja com pacotes de estímulos, seja com auxílios com nomes diferentes. Em um cenário com tantas pessoas sem emprego devido à pandemia, algum tipo de apoio de renda está acontecendo –ao menos no período imediato. E isso é uma coisa boa.
No entanto, no longo prazo, a renda básica universal não basta, porque a maioria das disparidades não se baseiam em renda, mas em riqueza: os recursos que você possui. Assim, precisamos pensar em um modelo de recursos básicos universais (universal basic assets, em inglês), ou seja, os recursos fundamentais que todo indivíduo deveria ter – não necessariamente dinheiro, e sim acesso a ar limpo, água, comunidade, saúde, educação, moradia e outras coisas que também são riqueza.

A desigualdade de renda é grande (tanto nos EUA quanto no Brasil), mas a desigualdade de riqueza é muito maior. Exemplo disso, durante a pandemia, foi o acesso à natureza – o único recurso de lazer e contato com a natureza para pessoas das faixas de renda mais baixas costumam ser parques, praias e espaços públicos, e esses foram fechados para controlar a contaminação. Enquanto isso, os mais ricos seguiram acessando esses recursos em ambientes privados.

__Embora alguns se iludam__, o passado e o presente não estavam satisfatórios para a maioria das pessoas. A pandemia fez a Terra parar, como cantou Raul Seixas, e agora o futurismo pode nos ajudar criar um futuro alternativo.

a dor, o terror e o fato:
ESTA É “apenas” mais uma crise

por martha gabriel

Uma onda cumulativa de crises em várias dimensões e soluções que colidem. Não é exagero descrever os efeitos da pandemia de Covid-19 em 2020 como um tsunami que abruptamente invadiu nossas vidas. Não só por conta da violência dos fatos, mas porque a humanidade reagiu atabalhoadamente, em suas iniciativas de informar, nas políticas de saúde pública, nas medidas, individuais e coletivas, relativas a transporte, entretenimento, economia, relacionamentos etc.

Fazia anos que a pandemia era um futuro provável. Seus sinais já estavam entre nós e todos os alertas foram dados. Então, por que não foram suficientes para evitar a situação que se instaura agora no planeta?
Uma explicação plausível é a de que as pessoas fecham os olhos porque querem a todo custo evitar a dor – que mais parece terror, quando a crise é global e tem características inéditas como a crise atual. Por características inéditas leia-se a complexidade, a fragilidade e a incerteza de um cenário formado por redes tecnológicas cada vez mais densas de conexões e por dependências intercontinentais. E as soluções, diga-se, são igualmente aterrorizantes.

AMPLIANDO A PERSPECTIVA
Apesar de toda a dor e o terror, o que vivemos agora, como humanidade, é mais uma crise entre tantas outras que já houve e haverá. E, por mais difíceis que sejam as crises, é importante lembrar que elas destroem ao mesmo tempo que constroem. Sempre que um sistema entra em crise, outro imediatamente começa a surgir, e essa tem sido a dinâmica da evolução humana.
Então, por mais clichê que esta recomendação soe, lembre-se de que crises sempre trazem ameaças e oportunidades, e sempre estabelecem perdedores e vencedores. Essa é a mais pura verdade.

Estes highlights foram preparados por Martha Gabriel, em conjunto com HSM Management. Para ir além, baixe, no QR Code, o estudo do IFTF sobre imunidade cognitiva. Você ainda pode fazer cursos de futurismo do IFTF online, no Coursera, e participar da comunidade FuturoDosNegócios.com.
Acesse aqui

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