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Já podemos queimar os navios

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Você contrataria uma pessoa de múltiplos interesses e que abertamente dissesse que está abrindo a própria empresa? Ou que já tem outra atividade e se dispõe a acumular duas (ou mais) grandes responsabilidades? Para muitas empresas, é mais fácil falar do que fazer.

O dossiê desta edição – que aborda os profissionais em forma de T, aqueles que, além de profundidade em uma área (traço vertical), transitam bem em outras frentes (linha horizontal da letra T) , ao mesmo tempo ou ao longo do tempo – me fez lembrar da minha própria carreira. Tive apoio para fazer transições não lineares, o que me formou como um legítimo T-shaped, mas meu caso ainda parecia exceção. O mais comum era (e ainda é) ver empresas aparentemente buscando um profissional com essas características, mas depois não bancar a escolha. O resultado é frustração garantida para ambas as partes.

Se a empresa não incentiva o desenvolvimento de profissionais com esse perfil, são dois trabalhos: o de contratar e o de substituir depois – porque essas pessoas vão embora. Vão buscar em outra empresa o suporte que não encontraram ali. Cada vez mais, a realidade de transformação constante do mundo exige essa flexibilidade por parte dos funcionários. Mas as empresas precisam assumir riscos com ele, oferecendo treinamento, mentoria, shadowing. Para contratar esse tipo de profissional, é preciso queimar embarcações, como diz a consultora e um dos nomes mais proeminentes do Vale do Silício Charlene Li. Ou seja, deixar para trás o que não tem mais valor e construir de novo, se for preciso.

Algumas áreas estão começando agora – bem depois de tantas outras – a queimar seus navios e buscar na tecnologia formas de avançar. As primeiras construtechs estão chegando: empresas de tecnologia que dão suporte a toda cadeia da construção civil, chegando até a ponta, em um subsetor também conhecido como proptech. Um avanço bem-vindo que você encontra na reportagem da página 64.

O varejo e o marketing, por sua vez, estão cada vez mais à vontade com a inteligência artificial e o processamento de big data, com resultados surpreendentes. Duas matérias abordam o tema nesta edição: uma sobre o que aguarda o varejo no mundo afetado pela pandemia (pág. 16) e outra especificamente sobre o uso de dados para medir o comportamento do consumidor (pág. 72). Para embasar a discussão, um artigo analisa a ética necessária para esse processamento de dados (pág. 78). Em tempos de LGPD, é um assunto que nunca pode ser esquecido. Boa leitura.

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