Liderança
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Liderar sem forçar: O poder da não‑resistência em organizações complexas

À luz do Aikidô, este artigo analisa a transição da liderança coercitiva para a liderança que harmoniza sistemas complexos, revelando como princípios como Wago, Awase e Shugi‑Dokusai redefinem estratégia e competitividade na era da incerteza.
Essa coluna é dedicada a explorar a interseção entre Aikidô e liderança, aplicando seus princípios à gestão, à tomada de decisão e à construção de organizações mais conscientes e sustentáveis.
Combinando 10 anos de serviço no governo japonês no comércio internacional com 14 anos como executivo sênior da General Motors Corporation, Izawa construiu uma carreira marcada por negociações de alto risco. Ele foi fundamental na negociação e implementação de muitas joint ventures complexas, incluindo o projeto NUMMI entre GM e Toyota na Califórnia, o projeto CAMI entre GM e Suzuki Motor no Canadá, e o projeto IBC entre GM e Isuzu na Inglaterra. Ele ocupou cargos de liderança importantes na GM, incluindo o cargo de Diretor Geral Representante da divisão Opel no Japão (1991–1996) e, em sua última posição, como Diretor Regional de Vendas de Veículos Comerciais Leves e SUVs para a Europa, com base na Alemanha. Ele também gerenciou

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As décadas de 1950 e 1960, no período posterior à Segunda Guerra Mundial, foram marcadas por uma rápida recuperação econômica e por um crescimento sem precedentes. Naquele contexto, as categorias de negócios eram relativamente estáveis, e a competição ocorria dentro de limites claramente definidos. Como resultado, a estratégia corporativa podia ser compreendida a partir de uma lógica bidimensional, muito semelhante a um jogo de Banco Imobiliário, no qual o objetivo principal era garantir território e superar os concorrentes em um ambiente estável.

No entanto, a partir da entrada no século 21, esse cenário se transformou de maneira profunda e irreconhecível. A ascensão das cadeias globais de suprimentos e o acesso a mercados internacionais diversos, somados ao surgimento da robótica, das máquinas‑ferramenta com controle numérico, dos semicondutores avançados, da globalização dos mercados de capitais e da inteligência artificial, remodelaram completamente o mundo dos negócios. Impulsionadas pelo crescimento exponencial da tecnologia da informação, as empresas passaram a transitar entre setores completamente distintos, e a captação de recursos deixou de respeitar fronteiras nacionais.

Indústrias que antes eram fixas e previsíveis ingressaram em um território de incerteza. Passamos a operar em um mercado definido pelo conceito VUCA – Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade – tema que mencionei em abril, no qual a instabilidade e a incerteza deixaram de ser exceções e se tornaram a regra. Nesse ambiente, as qualidades exigidas de um líder sofreram uma mudança radical em comparação com aquelas de cinquenta anos atrás.

A ilusão do controle: Por que “empurrar” falha em contextos complexos

À medida que as realidades dos negócios se tornam cada vez mais multicamadas e complexas, métodos de gestão que antes serviam aos executivos com relativa facilidade passam a gerar resultados imprevisíveis – e, em alguns casos, catastróficos – na era do VUCA.

Cinquenta anos atrás, era possível que um executivo principal conduzisse toda a organização com base exclusivamente em suas próprias decisões. No contexto atual, no entanto, esse tipo de decisão autocrática carrega riscos elevados: o ambiente tornou‑se volátil demais para que a alta liderança, isoladamente, detenha todas as respostas.

Se antes o líder podia atuar como um comandante militar, emitindo ordens de cima para baixo, a era VUCA exige um líder que funcione como um maestro, capaz de harmonizar uma organização complexa e multifacetada. A era da gestão coercitiva chegou ao fim.

Quando a própria razão de existir de uma empresa passa a ser questionada, ela não consegue mais sobreviver sustentada por uma lógica de soma zero ou pela priorização exclusiva dos acionistas. À medida que as contribuições a diferentes públicos e à sociedade se tornam indispensáveis, o papel do líder – como condutor desse esforço coletivo – muda de forma profunda e permanente.

Gestão centrada nas pessoas: O caminho da Daikin

Gostaria de destacar a trajetória da Daikin (originalmente Osaka Kinzoku Kogyo), empresa que retomou suas operações após a Segunda Guerra Mundial realizando a manutenção de equipamentos de ar‑condicionado em acampamentos militares dos Estados Unidos e conduzindo pesquisas em química do flúor. Atualmente, a Daikin tornou‑se a maior fabricante de sistemas de climatização do mundo. No entanto, ao observar o percurso do seu crescimento, fica claro que a empresa não se limitou a seguir as estratégias competitivas amplamente defendidas pelas escolas de negócios nos anos 1980. Em vez disso, construiu sua posição corporativa a partir do espírito de Masakatsu Agatsu (a verdadeira vitória é vencer a si mesmo) e de Wago (harmonia).

Nos princípios orientadores da empresa, apresentados a seguir, a palavra “acionista” sequer aparece. Os seis pilares centrais são:

  1. Elevar o valor corporativo por meio da solução de problemas sociais.
  2. Antecipar “a próxima necessidade” para criar novo valor.
  3. Contribuir para a construção de uma sociedade ideal por meio de tecnologia de classe mundial.
  4. Refletir continuamente sobre a relação com a sociedade, agir com integridade e manter‑se como uma empresa confiável.
  5. Pensar em escala global e atuar como um grupo flexível, dinâmico e vibrante.
  6. Ao praticar a Gestão Centrada nas Pessoas, oferecer um ambiente repleto de oportunidades para enfrentar novos desafios, permitindo que cada colaborador cresça e se desenvolva de forma contínua.


Na década de 1950, o professor Neil Borden, da Harvard Business School, introduziu o conceito de Marketing Mix, identificando doze elementos‑chave que mais tarde foram consolidados nos famosos “4 Ps”: Produto, Preço, Praça e Promoção. Na década de 1990, eu mesmo utilizei esse arcabouço para desenvolver a estratégia de vendas da Opel no Japão.

Embora o Marketing Mix de Borden continue sendo uma base válida e essencial, acredito que a Daikin possua algo crucial que não aparece nessa lista: uma filosofia corporativa profunda, comprometida com contribuições sociais e ambientais – especificamente com a resolução de problemas sociais, a criação de novo valor e a construção de uma sociedade ideal. Quando a filosofia de uma empresa está centrada principalmente no retorno aos acionistas e na busca por lucro, a gestão inevitavelmente cai na armadilha do pensamento de soma zero.

Enquanto seus principais concorrentes concentravam esforços na redução de custos e na disputa por participação de mercado, a Daikin optou por antecipar necessidades tecnológicas emergentes e investiu fortemente na tecnologia de ar‑condicionado com inversor. Os sistemas convencionais de climatização baseavam‑se no chamado “controle liga/desliga”, no qual o equipamento se desligava ao atingir a temperatura desejada e voltava a ligar quando ela se elevava – um processo que resultava em desperdício significativo de energia. Em contraste, o sistema da Daikin não simplesmente se desliga; ele ajusta de forma contínua a velocidade de rotação do compressor, mantendo a operação com consumo mínimo de energia. Ao evitar a repetição constante dos ciclos de partida e parada do motor, os sistemas de ar‑condicionado da Daikin alcançaram simultaneamente maior conforto e elevada eficiência energética.

Aprendendo Wago e Awase a partir dos fracassos da localização

O sucesso da Daikin não foi impulsionado apenas pelo desenvolvimento de produtos que atendiam às demandas do mercado.

Muitas empresas japonesas, ao expandirem suas operações para o exterior, enfrentaram forte resistência ao tentar impor um modelo rígido de gestão tipicamente japonês. A Daikin não foi exceção. Quando a empresa entrou na Bélgica, na década de 1970, encontrou oposição significativa justamente por tentar administrar a força de trabalho a partir de uma ética de trabalho japonesa inflexível.

A partir dessa experiência amarga – um verdadeiro choque direto de forças – a Daikin fez uma inflexão estratégica, passando a respeitar profundamente a cultura local e os costumes trabalhistas de cada país. Foi exatamente isso que chamamos de Wago (harmonia) e Awase (integração), no Aikidô – uma transformação para uma cultura corporativa que potencializa a energia local em vez de suprimi‑la. Essa abordagem acabou se tornando uma marca registrada da empresa: o conceito de “Glocal” (Global‑Local).

Gostaria de apresentar outro exemplo de Wago e Awase em prática.

Em 2012, a Daikin adquiriu a gigante americana Goodman Global por aproximadamente 300 bilhões de ienes. Na época, os produtos da Goodman não utilizavam a tecnologia de inversor, característica da Daikin. De forma notável, após a aquisição, a Daikin optou por não enviar um contingente de executivos japoneses para assumir o controle da operação; em vez disso, escolheu confiar e fortalecer a gestão local já existente. Além disso, a empresa evitou impor ordens de cima para baixo para forçar a adoção de seus sistemas de inversor pela equipe de vendas da Goodman. Ao contrário, concentrou-se em respeitar e tirar proveito da poderosa e bem estabelecida rede de distribuição da Goodman – a “força e a dignidade” do parceiro.

À medida que uma base de confiança mútua foi sendo construída, a relação se fortaleceu a ponto de a própria liderança da Goodman solicitar, posteriormente, a integração da tecnologia avançada da Daikin. Foi uma verdadeira aula de Wago e Awase em nível estratégico. Mesmo detendo uma tecnologia superior, a Daikin priorizou a reputação e o “prestígio” do parceiro, criando uma entrada no mercado que floresceu a partir da sinergia entre as forças combinadas de ambas as organizações.

Formulação participativa da estratégia: Shugi‑Dokusai (Deliberação coletiva, execução decisiva)

Na formulação de sua estratégia de gestão, a Daikin prioriza o fluxo ascendente de percepções vindas da linha de frente. O método da empresa – que convida desde colaboradores juniores até profissionais experientes a participarem de debates aprofundados é uma raridade no cenário corporativo global. Esse processo, conhecido como Shugi‑Dokusai, envolve uma deliberação coletiva rigorosa, seguida por uma decisão final clara e firme por parte da liderança máxima.

Embora esse caminho possa parecer mais longo para a definição de diretrizes, decisões tomadas exclusivamente pelo principal executivo costumam deixar o restante da organização desconectado, como se o direcionamento tivesse sido estabelecido em um espaço inacessível, sem oportunidade real de contribuição. Na Daikin, ao cultivar esse senso de participação, a empresa aumenta o que chama de “coeficiente de engajamento” de cada colaborador. Como a política final é construída com a participação de todos, ela alcança adesão plena. Essa é a essência do Shugi‑Dokusai: autoridade sustentada por consenso coletivo. Em organizações orientadas por uma lógica de soma zero, onde o lema costuma ser “velocidade é dinheiro”, um sistema de deliberação coletiva como esse provavelmente jamais seria adotado.

Presença e manufatura no Brasil

Para a Daikin, líder global em sistemas de climatização (HVAC), a estratégia para o mercado brasileiro é um ponto de grande relevância. Ao ingressar no Brasil em 2011, a empresa estabeleceu sua base de manufatura em Manaus, principal polo nacional de eletroeletrônicos e bens duráveis. Esse movimento deve ser interpretado como uma clara declaração de intenção: a Daikin está assumindo o compromisso de se tornar parte integrante da indústria brasileira. Em um país de clima tropical e subtropical severo, implantar a produção local representa um Irimi estratégico – entrar no “palco” brasileiro para se integrar profundamente ao mercado local.

Embora a participação de mercado da Daikin no Brasil ainda esteja em expansão, a empresa concentra seus esforços no segmento de alto valor agregado, incluindo sistemas multi‑split (VRV/VRF) e unidades premium com tecnologia de inversor. Apesar de marcas locais com equipamentos de baixo custo e sem tecnologia de inversor ainda dominarem grande parte do mercado residencial em volume, a Daikin vem conquistando novos segmentos ao explorar sua reputação em qualidade, desempenho e confiabilidade. Aproveitando as regulamentações mais rigorosas de eficiência energética do governo brasileiro (padrões INMETRO), a Daikin saiu na frente ao converter toda a sua linha para tecnologia de inversores. Em um país onde o custo da energia elétrica é uma preocupação central, a marca vem consolidando com sucesso a percepção de que “Inverter é Daikin”.

Além disso, a empresa utiliza a estratégia de “Harmonia por meio da educação” para construir uma base sólida de reconhecimento e expansão de mercado. Ao estabelecer centros de treinamento em São Paulo e em outras cidades, a Daikin oferece capacitação técnica gratuita a instaladores locais. Isso eleva o nível técnico dos profissionais brasileiros, transformando‑os em verdadeiros “evangelistas” da marca Daikin e garantindo uma penetração fluida e sustentada no mercado local.

Conclusão: Gestão centrada nas pessoas

Ao longo deste artigo, discuti como as qualidades essenciais da liderança se transformaram – do “comandante militar” do passado para o “maestro” da era VUCA, alguém capaz de conectar e harmonizar organizações complexas e multifacetadas.

Gostaria de encerrar esta reflexão compartilhando uma fala de Masanori Togawa, Chairman e CEO da Daikin Industries, que ilustra de forma exemplar como pensa um maestro contemporâneo:

“A maior força do nosso Grupo é a gestão da diversidade, que acredita no potencial infinito das pessoas e valoriza a individualidade única de cada uma. Nossa fonte de competitividade sempre esteve no talento diverso, que respeita os valores uns dos outros e atua de forma colaborativa para fortalecer a organização na busca por grandes objetivos. Continuaremos a desenvolver pessoas com uma visão de médio e longo prazo e a ser uma empresa que oferece, a todos os colaboradores ao redor do mundo, a alegria de trabalhar com entusiasmo e oportunidades constantes de desafio. Seguiremos conectando a força exercida por cada indivíduo ao crescimento e ao desenvolvimento sustentável tanto da sociedade quanto do Grupo Daikin.”

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