Diversidade

Maternidade dentro das organizações: do sonho publicitário à desilusão real

Dados mostram que dentro e fora das empresas, no mercado de trabalho, a maternidade e as questões de igualdade de gênero estão distantes das reais necessidades das mulheres. Assim, o cotidiano não condiz com as produções românticas construídas pelo marketing
Fundadora e CEO da Blend Edu, startup que já tem em seu portfólio empresas como 3M, TIM, Reserva, Movile, Grupo Fleury, TechnipFMC, Prumo Logística, brMalls etc. Thalita também está presente na lista da Forbes Under 30 de 2019, como uma dos 6 jovens destaques na categoria Terceiro Setor e Empreendedorismo Social.

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Gostaria de resgatar aqui uma observação que fiz em maio, mês do Dia das Mães, que ainda é muito persistente: é comum vermos várias propagandas e ações de engajamento voltadas para datas que reforçam a importância da maternidade. Isso não chega a ser uma surpresa, considerando que cerca de 33% da população brasileira é formada por mães, que também são responsáveis pela maioria das decisões de compra dos lares brasileiros.

No entanto, dentro do cenário atual marcado pela pandemia e isolamento social, será que a discussão sobre maternidade deve acontecer dentro das organizações da mesma maneira que os anos anteriores? Várias pesquisas mostram que a abordagem esse ano aponta em uma nova direção.

## Maternidade em contexto pandêmico

De acordo com o IBGE (2017), estima-se que cerca de 51,3% das mães brasileiras trabalham, seja no mercado formal ou informal. No entanto, um levantamento feito em 2020 pelo Instituto mostrou que 7 milhões de mulheres brasileiras deixaram seus postos de trabalho no início da pandemia. Esse número representa 2 milhões a mais do que o número de homens na mesma situação.

Além disso, as mulheres estão na linha de frente do combate à pandemia, como comentei nesse artigo “[Diversidade e inclusão em pauta na pandemia](https://www.blend-edu.com/como-a-covid-19-trouxe-a-tona-importantes-debates-sobre-diversidade-e-inclusao-e-porque-sua-empresa-nao-pode-perder-a-oportunidade-de-discuti-los/)”. O próprio Pacto Global (rede da ONU voltada para a comunidade empresarial) fez um mapeamento de como a pandemia afeta os 17 objetivos do desenvolvimento sustentável (ODS) e destacou que os ganhos econômicos das mulheres estão em risco, assim como o aumento dos índices de violência contra elas. Esse contexto faz com que as desigualdades fiquem ainda maiores.

Esses dados mostram uma verdade dura: a pandemia afetou as mulheres de uma maneira muito mais intensa, em especial mulheres negras, trans e em situação de vulnerabilidade. As mães estão sobrecarregadas e exaustas, levantando a importância do debate sobre saúde mental e economia do cuidado.

### Economia do cuidado e (des)igualdade de gênero

Nem todo mundo sabe o que é a tal da “economia do cuidado”. Talvez você mesmo esteja ouvindo sobre esse conceito pela primeira vez. No entanto, uma matéria do [Projeto Draft](https://www.google.com/url?q=https://www.projetodraft.com/verbete-draft-o-que-e-economia-do-cuidado/&sa=D&source=editors&ust=1625584399772000&usg=AOvVaw2sKg4MZhzqvDmbI0oMdck2) resume muito bem:

“Economia do Cuidado” (do original, em inglês, care economy) é um termo que designa o trabalho, de dedicação à sobrevivência, ao bem-estar e/ou à educação de pessoas, assim como à manutenção do meio em que estão inseridas. Em âmbito doméstico, esse trabalho é invisibilizado e não remunerado. No meio profissional — terceirizado –, é mal pago.

Em linhas gerais, trata-se da imposição social às mulheres da criação dos filhos, do cuidado com parentes idosos e do gerenciamento da casa sem que as tarefas exercidas e o tempo demandado por elas sejam financeiramente recompensados, reconhecidos ou apoiados da porta de casa para fora (ou até para dentro), como por governanças, legisladores e a sociedade em geral.”

Um estudo promovido pelo *[Laboratório de Inovação Social Mulheres em Tempos de Pandemia](http://lab.thinkolga.com/economia-do-cuidado/)* do Think Olga reforça que a economia do cuidado representa um esforço que equivale a 11% do PIB. Maior que qualquer indústria, é mais que o dobro que todo o setor agropecuário produz.”

De acordo com dados da Oxfam, as mulheres são responsáveis por mais de 3/4 do cuidado não remunerado e compõem 2/3 da força de trabalho envolvida em atividades remuneradas de cuidado. Para você ter uma ideia, mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas, todos os dias, ao trabalho de cuidado não remunerado.

Esses dados refletem também as desigualdades de gênero que existem, bem como a falta de políticas públicas e organizacionais que ajudem a estimular uma [paternidade mais ativa](https://www.blend-edu.com/paternidade-ativa-como-as-empresas-podem-promover-essa-reflexao-com-os-homens/).

Não é surpresa que, depois de mais de um ano de pandemia, a carga mental das mulheres aumentou em níveis absurdos, afinal, a tripla jornada feminina foi substituída pela percepção de que as mulheres vivem em uma jornada de trabalho contínua, em que as tarefas domésticas, o trabalho do cuidado e o trabalho remunerado só cessam quando a mulher dorme.

Ou seja, esse ano, mais do que nunca, as organizações e as marcas precisam abordar a maternidade entendendo essa realidade, adotando uma perspectiva que seja menos romantizada e mais real.

### Maternidade menos romantizada

De acordo com uma pesquisa de Harvard sobre viés inconsciente, 76% dos participantes associam homens à carreira e mulheres ao cuidado com a família. Ou seja, desde cedo as mulheres precisam superar o “viés da maternidade”, que é “a falsa crença de que as mulheres são menos comprometidas com suas carreiras – e ainda menos competentes” conforme pontuado no livro (e movimento) lean In.

Para potencializar esse viés da maternidade, nossa sociedade também promove uma cultura da maternidade compulsória, onde a maternidade é sempre representada como o sonho de toda a mulher, ou reforça a crença de que a mulher só está completa após ser mãe. Inclusive, 35% das mulheres não-mães afirmaram que sofreram com algum preconceito por não terem filhos.

O estudo “[mães reais](http://maesreais.meiacincodez.com.br/)” também aborda muito a romantização da gravidez como sendo o único caminho para a maternidade, apesar de 16% das famílias do Brasil já serem de famílias reconstituídas (ou seja, famílias com filhos de diferentes casamentos) e a configuração da família heterossexual – pai, mãe e filhos – passou de 58% para 43% nos último 10 anos (IBGE, 2010).

E os reflexos desses estereótipos e vieses no mercado de trabalho são enormes: em um artigo que escrevi no site da Blend Edu, comentei sobre estudos que apontam que três em cada sete mulheres sente medo de perder seu emprego se engravidar. Além disso, 22% delas não conseguem voltar ao mercado após a chegada dos filhos e 50% das mães são demitidas até dois anos após a licença.

Ou seja, hoje precisamos falar de maternidade com uma boa pitada de realidade (e as pesquisas também apontam nessa direção):

– 79% das mães queriam se ver representadas em um contexto mais real da maternidade;

– 63% gostariam de ver os medos e os desafios da maternidade retratados na publicidade;

– 40% disseram querer ver também o lado negativo da maternidade;

De acordo com o Google, é nesse lado menos romantizado da maternidade que se escondem as melhores oportunidades para que as empresas criem conexões mais relevantes com as mães brasileiras. Portanto, as organizações e marcas têm a oportunidade de construir ações que geram esse tipo de conexão.

## Buscando exemplos positivos

Em abril, a Blend Edu (startup que lidero) realizou uma mentoria coletiva, onde tivemos a chance de entrevistar Mariana Holanda, head de saúde mental e diversidade da Ambev. Durante essa ação, que acontece periodicamente com o objetivo de compartilhar boas práticas, cases e inovações sobre diversidade para os membros da nossa comunidade empresarial Diversidade SA, Mariana comentou como a área foi estruturada e algumas ações já realizadas desde o meio de 2020. Os insights dessa conversa, destaco nos pontos abaixo:

__Quebre o tabu sobre o tema “saúde mental”:__
Durante a live, Mariana comentou como a Ambev estruturou a área, tendo como primeira missão quebrar o tabu e o estigma (ainda muito presente no mundo corporativo) sobre saúde mental. Foram realizadas ações de sensibilização, rodas de conversa e um guia explicando mais sobre o assunto. E toda essa conversa partiu de um lugar humanizado e vulnerável, onde a própria Mariana falou abertamente sobre o seu episódio de burnout.

__Disponibilize canais de apoio:__
A Ambev também disponibilizou uma série de canais e ferramentas que possibilitam um apoio para colaboradores e colaboradoras. Eles construíram parcerias com empresas como o Zenklub e Caliandra, tornando mais fácil e acessível a busca por psicólogos e psiquiatras.

__Menos foco nos números e mais foco nas pessoas:__
Mariana também comentou sobre como precisou (e ainda precisa) dialogar com todo o c-level e o conselho da empresa, mostrando que os indicadores estão amadurecendo com o tempo. Saúde mental é um tema novo e intangível. Portanto, as formas de metrificar estão em um processo de amadurecimento e o resultado será colhido no longo prazo.

Esses são só alguns caminhos possíveis, dentro de um contexto que parte da saúde mental dentro das organizações, para lhe ajudar a pensar em novas formas de abordar o tema da maternidade. Além dessas ações, não podemos esquecer de romper estereótipos, incluir todos os modelos de família e estimular um debate mais real (e necessário) entre as pessoas.

*Gostou do artigo escrito por Thalita Gelenske? Saiba mais sobre diversidade e inclusão dentro e fora dos ambientes corporativos assinando [nossas newletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter) e escutando [nossos podcasts](https://www.revistahsm.com.br/podcasts) em sua plataforma de streaming favorita.*

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