Estamos desenvolvendo máquinas para agir com cada vez mais autonomia. Sistemas capazes de perceber contextos, interpretar informações, planejar, decidir e executar tarefas. Ao mesmo tempo, precisamos tomar cuidado para não desenhar organizações nas quais os humanos apenas respondam às máquinas, aos sistemas, aos algoritmos, às metas e aos estímulos.
Talvez essa seja uma das grandes questões que emergem do debate sobre o futuro do trabalho: o que é necessário para estimular, desenvolver, sustentar e valorizar o Humano Agêntico?
Todas essas provocações, ideias e insights foram abordados no mega evento MIND Summit 2026, em São Paulo, realizado nos dias 16 e 17/09/26. A convite da HSM Management, participei do evento e trago aqui minha leitura muito particular sobre tudo o que vi, ouvi e tentei digerir.
Engana-se quem acredita que se trata de um evento sobre saúde mental. Como todo evento de alto nível, os participantes não saem com uma lista de checklist, mas com as mentes borbulhando. Talvez o Mind no nome do evento se refira a isso: desafiar os modelos mentais e elevar a visão e a mente dos participantes. O evento reuniu diferentes perspectivas sobre saúde mental, bem-estar, felicidade, neurociência, comportamento, liderança e futuro do trabalho. Quando colocadas lado a lado, elas parecem contar uma mesma história: a história da nossa capacidade de continuarmos sendo sujeitos e não apenas respondentes em um mundo que se tornou extraordinariamente eficiente em capturar nossa atenção, acelerar nossas decisões e automatizar nossas ações.
Trata-se da nossa capacidade de colocar propósito entre bits, bytes e algoritmos.
Paul Goldsmith, autor de O Cérebro em Evolução, em sua palestra “Seu cérebro não foi feito para isso” partiu de uma provocação desconfortável: nosso cérebro foi moldado ao longo de milhares de anos, enquanto o ambiente em que vivemos mudou em uma velocidade muito maior. Talvez seja um erro olhar para ansiedade, sobrecarga, exaustão e dificuldade de concentração apenas como problemas individuais. Antes de perguntar “o que há de errado com essa pessoa?”, talvez devêssemos perguntar: “o que há nesse ambiente que está exigindo tanto dela?”.
Na palestra “Quem está no controle?”, Michael E. Long acrescentou outra camada ao discutir a dopamina. Muitos dos ambientes contemporâneos são estruturados para explorar nossos mecanismos de busca, novidade e antecipação: redes sociais, notificações, notícias, consumo e até o próprio trabalho podem transformar a atenção em objeto permanente de disputa. A pergunta deixa de ser apenas “no que estamos prestando atenção?” e passa a ser “quem está escolhendo aquilo a que prestamos atenção?”. Estar ocupado e absorvido em alguma tarefa não significa necessariamente exercer autoria sobre o que está sendo feito. Essa dopamina, esse desejo e impulso de buscar e antecipar, podem estar sendo direcionados por uma outra pessoa ou, mais preocupante ainda, por um algoritmo (é a lógica largamente empregada pelas mídias sociais, que prendem a atenção e “capturam” o tempo das pessoas, assim como pelas Bets).
Ao se apresentar com o tema “Florescendo em tempos de incerteza”, Deepika Chopra introduz outra peça: não podemos eliminar a incerteza. Mais do que nunca, ela é parte intrínseca de qualquer organização, mercado ou sociedade. Por isso, o seu “otimismo realista” não promete que tudo dará certo; reconhece a dificuldade e, ainda assim, preserva a crença na capacidade de responder. É uma ideia essencial para um mundo no qual a previsibilidade será cada vez menor. Não se trata de negar a dificuldade, mas de desenvolver uma disposição para permanecer aberto, curioso e capaz de responder mesmo quando a realidade não oferece garantias.
Da mesma forma que em uma academia as pessoas fazem exercícios de musculação para aumentar o bíceps, para Deepika podemos treinar nossa capacidade de permanecer abertos, curiosos e confiantes de que seremos capazes de responder ao que vier.
Amy Edmondson leva essa discussão para uma questão central da gestão contemporânea. Em ambientes novos e incertos, nem todo resultado indesejado é um erro que deveria ter sido evitado. Experimentação exige a possibilidade de aprender. E aprender exige segurança psicológica: poder perguntar, discordar, admitir que não sabe, pedir ajuda, apontar problemas e experimentar sem transformar cada tentativa em ameaça. Segurança psicológica, portanto, não é conforto nem permissividade. Pode coexistir com alta exigência.
As experiências apresentadas pelas empresas Vale e Heineken mostram o passo seguinte: o bem-estar deixa de ser uma agenda periférica e começa a entrar na arquitetura da gestão, não como benefício, mas como estratégia. Na Vale, o cuidado aparece de forma integral – física, financeira, social e psicológica – e também pela escuta das necessidades concretas dos trabalhadores. Na Heineken, indicadores de felicidade, vitalidade, confiança e outros fatores passam a dialogar com liderança e desempenho. O “como” o resultado é produzido ganha importância ao lado do “o quê”.
Para Paul Goldsmith, o ambiente mudou mais rapidamente do que nosso cérebro.
Michael Long nos alerta que o ambiente disputa nossa atenção e nos impulsiona na busca de dopamina, algo que faz parte de nossa própria natureza e nos mantém vivos e em movimento, mas que pode também interferir naquilo que realmente escolhemos e desejamos.
E Deepika Chopra afirma que como não podemos eliminar a incerteza, precisamos preservar e confiar em nossa capacidade de responder a ela.
Fechando com chave de ouro o evento, Amy Edmondson nos mostra que, para responder e aprender em ambientes incertos, precisamos de segurança psicológica e espaço para experimentar. Há erros que podem e devem ser evitados (inclusive com o apoio da tecnologia), mas há outros que são inerentes à experimentação e que podem gerar aprendizagem, inovação e, eventualmente, alterar o status quo.
Entre tantas ideias brilhante, vejo aqui surgir o que chamo de “Humano Agêntico”.
Não é simplesmente o humano que age. É aquele que preserva e desenvolve a capacidade de perceber, questionar, escolher, decidir, experimentar, errar, aprender e agir com propósito. Uma pessoa pode estar ativa o dia inteiro e, ainda assim, exercer pouca agência sobre aquilo que faz: responder mensagens, cumprir tarefas, participar de reuniões, seguir sistemas e reagir a estímulos. Estar ocupado não é o mesmo que ser agêntico.
E essa questão ganha uma dimensão nova com a IA agêntica.
Estamos construindo sistemas cada vez mais capazes de perceber, interpretar, planejar, decidir e executar. Mas existe uma ironia: podemos criar máquinas cada vez mais agênticas enquanto construímos organizações que tornam os humanos cada vez mais reativos a algoritmos, notificações, metas, processos e sistemas que deveriam estar a serviço deles.
A resposta não é construir organizações menos tecnológicas. É construir organizações nas quais a tecnologia amplifique a capacidade humana de agir.
Uma IA pode analisar milhões de informações. Mas alguém ainda precisa perguntar se estamos fazendo a pergunta certa. Pode recomendar uma decisão, mas o julgamento sobre seu sentido continua sendo humano. E, mesmo quando executa uma tarefa, alguém precisa definir o propósito. E, claro, alguém tem que dar o sentido para o que está sendo feito e revisar, questionar e ensinar a própria IA, decidindo, afinal, a destinação dessas ações e produções. E esse é o papel do Humano Agêntico, que não delega por omissão, mas que amplifica suas potencialidades com o uso da IA.
Por isso, talvez a grande pergunta desta década não seja apenas “o que a IA agêntica será capaz de fazer?” Mas:
“Que tipo de Humano Agêntico queremos estimular e desenvolver? Como podemos sustentar sua capacidade de agir? E que tipo de organização será capaz de fazê-lo?”
O desafio não é desenvolver pessoas cada vez mais resilientes para suportar ambientes cada vez mais exigentes. É criar ambientes que não destruam aquilo que queremos desenvolver: atenção, curiosidade, autonomia, voz, aprendizagem, criatividade, responsabilidade, autoria e capacidade de escolha.
Após ouvir tantas ideias e depoimentos de gente genuinamente preocupada e dedicada a ampliar sua visão e compreensão sobre saúde mental, mundo corporativo, tecnologia, neurociência, felicidade, desejos, autoria, propósito e amplificação de capacidades, entre vários outros temas relevantes, penso que o verdadeiro desafio da próxima revolução tecnológica não seja tornar as máquinas mais humanas.
Seja garantir que, enquanto as máquinas se tornam mais agênticas, os humanos não o deixem de ser.




