Uncategorized

O mundo precisa de uma sacudida

Quando a gente sabe como e por que as coisas se tornaram como se tornaram, fica mais fácil traçar a rota da mudança.
Formada em administração pela Universidade de Pernambuco, pós-júnior da FCAP JR. Consultoria e da Brasil Júnior, atualmente trabalha na Qura Editora, editora responsável pela publicação e distribuição da HSM Management e MIT Sloan Review Brasil. Atua na área de marketing como gestora das mídias sociais, mídia paga e produtora dos podcasts. Apaixonada por gerar impacto positivo no mundo, comunicação humanizada e por resolver problemas. Nas horas vagas, gosta de ler, ir à praia com amigas e viajar.

Compartilhar:

Eu me considero uma feminista em construção. Quando eu tinha 19 anos tive uma experiência de liderança durante a faculdade de administração e entendi o quão desafiador pode ser liderar sem ter mulheres por perto. Ser a única entre homens é difícil – me falaram, por exemplo, que precisava levantar a voz e falar um pouco mais grosso para ser respeitada. 

Desde essa experiência, sigo estudando e me aprofundando no assunto de mulheres em posições de liderança. Tive a oportunidade de [ouvir e falar com a Ana Fontes](https://www.youtube.com/watch?v=eMg5VxsbBTM), fundadora da Rede Mulher Empreendedora, em uma conversa promovida pela HSM Management sobre empreendedorismo feminino. No ano de 2020, li muitos livros de mulheres que abriram a minha cabeça, como Djamilla Ribeiro, Maya Angelou, Debora Thomé e Silvia Federici.

No artigo de hoje, quero dividir alguns dos aprendizados que tive e que me mostraram mais sobre a história das mulheres do mundo. Quando a gente sabe como e por que as coisas se tornaram como se tornaram, fica mais fácil traçar a rota da mudança. Vem comigo?

## A desvalorização do trabalho feminino

Vamos começar do começo…

Entre 1620 e 1630, aconteceu uma crise demográfica na Europa. Por esse motivo, o Estado começou a ser muito rigoroso com os métodos contraceptivos: com a finalidade de regular  procriação e quebrar o controle das mulheres sobre a reprodução, todos os Governos europeus começaram a impor penas mais severas à **contracepção, ao aborto e ao infanticídio.**

Também foram adotadas novas formas de vigilância para assegurar que as mulheres não interromperiam a gravidez, como um sistema de espionagem com a finalidade de vigiar as mães solteiras e privá-las de qualquer apoio. Até mesmo hospedar uma mulher grávida solteira era ilegal. 

Ao negar às mulheres o controle sobre seus corpos, o Estado **privou-as da condição fundamental de sua integridade física e psicológica**, degradando a maternidade à condição de trabalho forçado, além de confinar as mulheres à atividade reprodutiva de um modo desconhecido por sociedades anteriores.

Entretanto, forçar as mulheres a procriar contra a sua vontade é uma definição parcial das funções delas  na nova divisão do trabalho. Um aspecto complementar foi a redução das mulheres a **não trabalhadoras**, um processo que estava praticamente completo até o final do século XVII.

Ganhava espaço a suposição de que mulheres **não deviam trabalhar fora de casa e de que tinham apenas que participar na “produção”** para ajudar seus maridos.

Dizia-se até mesmo que qualquer [trabalho feito por mulheres](https://revistahsm.com.br/post/trabalho-e-as-barreiras-de-acesso) em sua casa era **“não trabalho”** e não possuía valor, mesmo quando voltado para o mercado. Se uma mulher costurava algumas roupas, tratava-se de “trabalho doméstico”, mesmo quando as roupas não eram para a família, enquanto o homem, quando fazia o mesmo, era considerado  “produtivo.”

Em pouco tempo, todo o trabalho feminino, quando realizado em casa, seria definido como “tarefa doméstica”. Até mesmo quando feito fora de casa, era pago um valor menor do que para o trabalho masculino – nunca o suficiente para que as mulheres pudessem sobreviver dele. 

A incapacidade de as mulheres sobreviverem sozinhas era algo dado como tão certo que, quando uma mulher solteira tentava se assentar em um vilarejo, era expulsa, mesmo se ganhasse um salário.

Um importante fator que aqui vale ser destacado foi uma campanha levada a cabo por artesãos, a partir do final do século XV, com o propósito de **excluir as trabalhadoras das suas oficinas**, supostamente para protegerem-se dos ataques dos comerciantes capitalistas que empregavam as mulheres a preços menores. 

Os oficiais artesãos solicitaram às autoridades que não permitissem que as mulheres competissem com eles; fizeram greve quando a proibição não foi levada em consideração e negaram-se a trabalhar com homens que trabalhavam com mulheres. Elas procuraram resistir a essa investida, mas, devido às [táticas intimidatórias](https://revistahsm.com.br/post/assedio-moral-e-sexual-no-trabalho-como-evita-los-na-sua-empresa) que os trabalhadores usaram contra elas, fracassaram.

Aquelas que ousaram trabalhar fora do lar, em um espaço público e para o mercado, foram representadas como megeras sexualmente agressivas ou até mesmo como “putas” ou “bruxas”. 

O Estado apoiou os artesãos porque **além de pacificá-los, a exclusão das mulheres dos ofícios forneceu as bases necessárias para sua fixação no trabalho reprodutivo e para sua utilização como trabalho mal remunerado na indústria artesanal doméstica.**

## Uma nova diferenciação sexual do espaço

A perda do poder social das mulheres expressou-se também por meio de uma nova diferenciação sexual do espaço. Nos países mediterrâneos, as mulheres foram expulsas não apenas de trabalhos assalariados, mas também das ruas. Se uma mulher andasse sozinha, corria o risco de ser atacada sexualmente. 

As literaturas eruditas fortaleciam os estereótipos: foi estabelecido que as mulheres eram inerentemente inferiores aos homens – excessivamente emocionais e incapazes de se governar. A principal vilã era a esposa desobediente. *A megera domada* (1593), de Shakespeare, era um manifesto na época.

A definição das mulheres como seres demoníacos e as práticas atrozes e humilhantes a que muitas delas foram submetidas deixaram **marcas indeléveis em psique coletiva  e em seu senso de possibilidades.**

A caça às bruxas foi um momento decisivo na vida das mulheres: foi o desmoronamento do mundo matriarcal, visto que a caça às bruxas destruiu todo um universo de práticas femininas, de relações coletivas e de sistemas de conhecimento que haviam sido a base do poder das mulheres na Europa pré-capitalista, assim como a condição necessária para sua resistência na luta contra o feudalismo.

A partir dessa derrota, surgiu um novo modelo de feminilidade: a mulher e esposa ideal – passiva, obediente, parcimoniosa, casta, de poucas palavras e sempre ocupada com suas tarefas. 

## Como essa história se relaciona com o mundo empresarial no ano de 2020?

Se a caça às bruxas não tivesse acontecido, viveríamos em um mundo mais matriarcal e, com certeza, com mais mulheres em posições de liderança.

Se as mulheres tivessem o direito a um salário pelo seu trabalho há 400 anos, não teríamos uma diferença salarial tão grande entre homens e mulheres como temos hoje.

Se a nossa sociedade não tivesse (e mantivesse por 400 anos) a visão de que a mulher e esposa ideal é passiva e obediente, teríamos mulheres e meninas mais corajosas. Mais **desobedientes**. 

O mundo não foi sempre assim. Ainda dá tempo de mudar. E me dá um sorriso no rosto ver cada vez mais mulheres em posições de poder e a força que o movimento feminista ganha ano após ano.

Mas, precisamos de mais. Precisamos saber que **PODEMOS** estar lá. Saber do nosso poder.

Fica o convite para resgatarmos as forças das bruxas que lutaram e que morreram pelas mãos do patriarcado.

Seguimos!

__PS 1:__ Para uma leitura mais aprofundada sobre a nossa história, indico o livro *Calibã e a Bruxa*, da Silva Federicci.
__Ps 2:__ É importante ressaltar que a história contada foi retirada do livro e tem uma perspectiva eurocêntrica.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA aumentou a produtividade, mas quem está ganhando tempo?

Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

A IA não está substituindo os bancos. Está mudando o trabalho dentro deles.

O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

A Reforma Tributária já não é um tema fiscal. É um tema de supply chain.

O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Liderança, Estratégia
5 de outubro de 2026 14H00
Embora o calendário ainda indique os últimos meses de 2026, as principais decisões que definirão o desempenho das empresas no próximo ciclo já estão sendo tomadas agora. A questão não é prever o que acontecerá em 2027, mas construir antecipadamente as capacidades que permitirão responder melhor ao que vier.

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de outubro de 2026 08H00
Plataformas digitais e ferramentas de inteligência artificial estão chegando às salas de aula em ritmo acelerado. Mas a transformação educacional não depende apenas da disponibilidade de novas soluções. Ela exige clareza sobre os problemas que se pretende resolver, participação de quem vive o cotidiano escolar e condições reais para que a tecnologia faça sentido no processo de aprendizagem.

Camila Wasserman e Sabrina Serafim -

6 minutos min de leitura
Liderança
4 de outubro de 2026 14H00
Por trás de uma das obras mais inovadoras da literatura brasileira havia um método rigoroso de trabalho. A partir dessa provocação, o artigo discute por que organizações que desejam crescer de forma consistente precisam desenvolver algo que nenhuma tecnologia entrega pronta: critérios compartilhados, disciplina intelectual e capacidade coletiva de manter a qualidade em escala.

Ulisses Pimentel - Executivo, advisor e especialista em vendas consultivas B2B

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de outubro de 2026 08H00
Empresas raramente entram em declínio de forma repentina. Primeiro perdem capacidade de adaptação, depois relevância e, por fim, espaço para investir na própria transformação. A partir do caso Abril, o artigo analisa como decisões sobre inovação, sucessão, crescimento e alocação de recursos influenciam a capacidade de uma organização sobreviver em ciclos de disrupção cada vez mais rápidos.

Pedro Fenati Bicalho - Sócio-diretor da FC Partners

5 minutos min de leitura
Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução