Inovação & estratégia
6 minutos min de leitura

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.
Gerente de Vendas do Aftermarket da FUCHS

Compartilhar:

Em 2026, a indústria automotiva brasileira completa 70 anos de existência, e esta é uma história que, habitualmente, é contada do ponto de vista dos carros que chegaram às ruas, das montadoras que se instalaram no país ou das tecnologias que transformaram os motores. No entanto, o desenvolvimento desse setor está diretamente relacionado à evolução dos lubrificantes automotivos, fator fundamental para assegurar desempenho, eficiência e durabilidade aos veículos produzidos nacionalmente.

Em 1956, a criação do Grupo Executivo da Indústria Automobilística (GEIA) ofereceu as condições iniciais para o estabelecimento deste segmento no país, a partir de metas de nacionalização que ajudaram a estruturar uma cadeia produtiva local. À época, o carro que chegava às linhas de produção brasileiras era muito diferente do automóvel de hoje e, paralelamente, o mesmo pode ser dito sobre o lubrificante utilizado nestes veículos no período.

A função deste produto era essencialmente relacionada à proteção dos componentes mecânicos dos carros. Porém, a evolução dos motores contribuiu para aumentar as exigências sobre os fluidos automotivos, no que se refere a maior controle de temperatura, redução de atrito, proteção contra desgaste, estabilidade em condições mais severas e contribuição para a eficiência do conjunto. Por conta disso, um levantamento da Mordor Intelligence aponta que, atualmente, o Brasil é o maior consumidor de lubrificantes acabados da América do Sul, com projeção de movimentar 1,5 bilhões de litros em 2026.

Evolução inicial dos lubrificantes automotivos

Nos primórdios da indústria automotiva brasileira, motores, materiais e processos de fabricação eram menos sofisticados do que os atuais e, nesse sentido, reduzir o atrito entre componentes, controlar o desgaste e proteger as peças contra corrosão eram as principais funções desempenhadas pelos lubrificantes. Foi nesta fase que grandes montadoras internacionais começaram a estabelecer suas produções no país e ampliar a demanda pelo produto. Em 1960, a frota circulante brasileira já estava na casa das 310 mil unidades, de acordo com a Nota Técnica nº 41/2013/CPT/DF da Agência Nacional do Petróleo (ANP).

Com o passar dos anos, o progresso técnico da indústria direcionou o setor a produzir motores que operavam com maior potência, temperaturas mais elevadas e componentes desenvolvidos para entregar maior nível de desempenho em sistemas cada vez mais compactos.

O ano de 1970, que desencadeou uma década de massificação da produção automotiva no país, também foi marcado pelo início da regulamentação dos lubrificantes acabados pelo órgão competente do setor de petróleo. A primeira legislação específica foi a Resolução CNP nº 8,que estabeleceu, entre outras medidas, o registro prévio dos produtos e a apresentação de suas especificações físico-químicas.

Neste período, houve um aumento na escala de produção de automóveis de passeio, bem como no número de oficinas independentes, postos de serviço, lojas de autopeças, redes de distribuição e peças e produtos disponíveis no mercado de reposição. Foi nesse momento que o óleo lubrificante se transformou em um produto de consumo recorrente associado à posse do veículo.

O fator do controle de emissões

Já a década de 1980 se destacou pela transição para uma fase em que eficiência, desempenho e emissões foram os fatores determinantes para o desenvolvimento dos veículos, exigindo, consequentemente, que o papel dos lubrificantes automotivos evoluísse para um importante componente de engenharia do motor.

Uma das medidas que contribuiu para isso foi a criação do Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), em 1986, que buscou promover o desenvolvimento tecnológico da indústria automobilística nacional, melhorar os métodos de ensaio, medição e as características dos combustíveis utilizados pela frota, ampliando, também, as exigências sobre os demais componentes e fluidos automotivos.

Neste contexto de evolução dos motores, os aditivos ganharam espaço nas formulações de lubrificantes, por potencializarem características como controle de oxidação, detergência e dispersão, proteção contra desgaste, controle de depósitos e estabilidade em diferentes condições de operação.

A partir de 1990, o processo de reestruturação econômica do Brasil promoveu um aumento expressivo nas importações. O consumidor brasileiro passou a ter contato com uma diversidade muito maior de tecnologias, o que impactou diretamente a cadeia de autopeças do país e, por consequência, o mercado de lubrificantes.

Essa nova dinâmica pressionou o setor a incorporar padrões internacionais de preço e qualidade, o que culminou, em 1999, na publicação da Portaria nº 131 pela ANP, tornando obrigatório o registro de óleos lubrificantes, graxas e determinados aditivos destinados à aplicação automotiva comercializados no Brasil. Na prática, a medida estabeleceu, pela primeira vez, níveis mínimos de desempenho para os lubrificantes comercializados no país.

Boom automotivo dos anos 2000

A virada do milênio trouxe uma nova realidade para a indústria automotiva no Brasil. Uma população com mais condições aquisitivas teve acesso a uma ampla frota de veículos de diferentes origens, datas de criação, sistemas de alimentação, tecnologias de transmissão, entre outras especificações das montadoras.

Diante deste cenário, no que diz respeito aos lubrificantes automotivos, um único produto já não era mais capaz de atender adequadamente toda a frota, o que exigiu das empresas do setor um trabalho cada vez mais focado em especificações relacionadas ao tipo de motor, combustível, viscosidade, nível de desempenho, aplicação, recomendação da montadora e condições de operação.

Este movimento veio acompanhado da Resolução nº 10/2007 da ANP, que elevou os níveis mínimos de desempenho estabelecidos anteriormente pela Portaria nº 131/1999 e estabeleceu os critérios para registro dos lubrificantes acabados e as obrigações para produtores, importadores e terceirizadores.

A partir dos anos 2010, o avanço da agenda ESG e o endurecimento dos limites de emissão promovido pelo Proconve alteraram a prioridade da indústria para motores menores e mais eficientes, turboalimentação, sistemas de pós-tratamento de emissões, intervalos de manutenção diferentes e busca por redução do consumo de combustível passaram a exigir formulações específicas.

Por essa razão, características como viscosidade, estabilidade térmica, controle de depósitos, compatibilidade com sistemas de pós-tratamento e economia de combustível assumiram uma posição de destaque para o mercado de lubrificantes, de modo que as formulações foram cada vez mais desenvolvidas em função da arquitetura e dos requisitos específicos do motor.

Eletrificação e futuro da indústria automotiva

Desde 2020, o Brasil vivencia uma realidade contraditória em relação aos automóveis. Enquanto transição energética e eletrificação dos veículos vêm sendo tratados como prioridade para a indústria, a idade média da frota circulante em 2023 se aproximava dos 11 anos, segundo o Sindicato Nacional da Indústria de Componentes para Veículos Automotores (Sindipeças). Isso significa que uma grande parcela dos carros ainda necessitará dos processos tradicionais de manutenção, reposição de óleo e outros fluidos por muitos anos.

Porém, o aumento no número de veículos eletrificados nas ruas promove o surgimento de novos pontos críticos de lubrificação e gerenciamento térmico. Dessa maneira, o setor precisa continuar aperfeiçoando os óleos destinados aos motores de combustão, mas simultaneamente desenvolver fluidos para os novos componentes elétricos e sistemas de transmissão que serão utilizados daqui para frente.

Ao longo de 70 anos, o mercado brasileiro de lubrificantes automotivos acompanhou a expansão da frota, a sofisticação dos motores e o endurecimento das exigências de eficiência e emissões, ajudando a viabilizar estes movimentos, o que contribuiu para torná-los parte essencial da evolução do automóvel.

A relevância deste produto, historicamente, não está relacionada a uma determinada tecnologia de motor, mas à capacidade de responder aos novos desafios da mobilidade. É exatamente essa característica que deve continuar fazendo do lubrificante uma ferramenta essencial da indústria automotiva brasileira nas próximas décadas.

Compartilhar:

Artigos relacionados

O papel dos lubrificantes nos 70 anos da indústria automotiva no Brasil

A trajetória dos lubrificantes automotivos acompanha os principais marcos da indústria automotiva brasileira. Com a chegada de motores mais eficientes, exigências ambientais mais rigorosas e a expansão da eletrificação, o setor precisou inovar continuamente para atender novas demandas e permanecer relevante em um cenário de transformação da mobilidade.

Smart Sampa: vazamento de senhas expõe o desafio de proteger uma cidade monitorada por milhares de câmeras

O debate sobre videomonitoramento e inteligência artificial não se limita aos benefícios dessas ferramentas. Ele também envolve questões como governança, controle de acessos, transparência e proteção de dados. O artigo analisa como incidentes e questionamentos recentes reforçam a importância de mecanismos de supervisão capazes de garantir que tecnologias de segurança operem de forma confiável e responsável.

RH: como contratar para profissões que ainda estão mudando?

À medida que a inteligência artificial transforma funções, processos e competências, cresce a pressão sobre as áreas de Recursos Humanos para encontrar profissionais preparados para um cenário de constante transformação. O desafio não é apenas contratar talentos, mas desenvolver a capacidade de adaptação dentro das organizações.

Tecnologia & inteligencia artificial
12 de outubro de 2026 18H00
Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.

Ale Fu - Executiva de Tecnologia, Professora, Palestrante, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES

9 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
12 de outubro de 2026 14H00
Durante anos, a automação corporativa esteve associada à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais. Agora, uma nova etapa começa a ganhar espaço: a integração entre RPA, inteligência artificial, APIs e agentes autônomos para coordenar processos inteiros de ponta a ponta.

Daniel Torres - CEO da Roboteasy

5 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
12 de outubro de 2026 08H00
Por muito tempo, compliance foi visto como a última etapa antes da aprovação de um projeto. Hoje, organizações mais maduras estão adotando uma abordagem diferente: envolver a área desde o início para construir soluções viáveis, seguras e aderentes às expectativas de governança e integridade.

André Tourinho - Gerente de Integridade da Eldorado Brasil Celulose

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
11 de outubro de 2026 14H00
Treinamentos costumam ser vistos como solução para desafios de desempenho, cultura e transformação. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre desenvolvimento: o ambiente de trabalho favorece os comportamentos que a organização deseja incentivar? O artigo mostra por que o sucesso de qualquer programa depende menos do conteúdo ensinado e mais da coerência entre estratégia, liderança e mecanismos de gestão.

Lauro Xerfan Neto - Conselheiro empresarial, consultor e professor na USP EACH e na FIA LabFin Provar

10 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
11 de outubro de 2026 08H00
A saída de um pesquisador da Anthropic reacende um debate que está deixando os laboratórios e chegando às empresas: como garantir que sistemas de inteligência artificial cada vez mais autônomos continuem operando de forma previsível, segura e alinhada aos objetivos humanos?

Claudio Lucio - Pesquisador, professor e sócio-fundador da A3Data

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 de outubro de 2026 14H00
Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

Renan Caixeiro - Cofundador e CMO do Reportei

3 minutos min de leitura
User Experience, UX, Tecnologia & inteligencia artificial
10 de outubro de 2026 08H00
O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

João Pedro Brasileiro - CEO da Innovation Latam, Professor da Fundação Dom Cabral (FDC) e da XP Educação

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
9 de outubro de 2026 14H00
O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Jade Lumi Satomi - Diretora de Indústria na nstech

4 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
9 de outubro de 2026 08H00
A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Maria Eduarda Silveira - Founder & CEO da BOLD HRO

5 minutos min de leitura
Estratégia
8 de outubro de 2026 14H00
Da aquisição à expansão de clientes, o artigo propõe uma reflexão sobre como organizações podem substituir crescimento baseado em volume por crescimento sustentado por retenção, adoção de valor e decisões mais inteligentes.

Renata Centurión - Sócia e Diretora da Winning By Design LATAM

5 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução