Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
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O que eu espero ver no SXSW (e por que talvez ainda não estejamos prontos para digerir tudo o que vamos ver).

Direto do SXSW 2026, enquanto o mundo celebra tendências e repete slogans sobre o futuro, este artigo faz o que quase ninguém faz por lá: questiona como a tecnologia está reconfigurando nossa mente - e por que seguimos aceitando respostas prontas para perguntas que ainda nem aprendemos a formular.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Festivais de inovação costumam funcionar como vitrines do presente. Eles mostram tendências, celebram tecnologias emergentes, revelam novos formatos de comunicação e apresentam os casos que todos querem replicar. Há algo de importante nisso: festivais organizam o imaginário de uma época.

Mas, quanto mais participo desses encontros ao redor do mundo, mais percebo um paradoxo curioso. Falamos cada vez mais sobre futuro, mas raramente nos permitimos questionar profundamente o que esse futuro está fazendo conosco e o que queremos fazer dele. 

Nos últimos anos, especialmente depois da explosão da inteligência artificial generativa, entramos em uma fase em que tecnologia deixou de ser apenas ferramenta, ela passou a ser infraestrutura cognitiva. Ela molda como pensamos, como decidimos, como criamos, como prestamos atenção, e o que isso significa?

Sistemas digitais começaram a ocupar camadas que antes pertenciam exclusivamente à mente humana. Motores de busca substituem parte da memória. Sistemas de recomendação filtram o que vemos. Algoritmos organizam nossas preferências culturais. Inteligência artificial escreve textos, gera imagens, sugere ideias, resume documentos, analisa cenários e até propõe decisões. Quando uma tecnologia começa a participar da formulação de pensamento — e não apenas da execução de tarefas — ela deixa de ser apenas ferramenta. Ela se torna infraestrutura cognitiva.

Isso significa que não estamos apenas usando tecnologia. Estamos pensando com tecnologia e isso entrou na agenda do SXSW com força total.

Quando comunicação, criatividade e tecnologia se encontram, como em um festival como o SXSW, não estamos apenas discutindo tendências de mercado. Estamos discutindo, ainda que indiretamente, o tipo de mente que estamos construindo para o século XXI. E vejo as pessoas mais preocupadas em repetir, compartilhar o que viram do que realmente fazendo um exercício de entender como realmente mudar e trazer os insights para além das ruas de Austin. 

Talvez por isso, há 3 anos, os pós pandemia, eu vou com um objetivo bem definido, uma agenda construída e uma meta com um exercício mental: imaginar não apenas o que provavelmente veremos nos palcos, mas o que deveríamos ver se realmente quisermos discutir inovação de forma honesta.

Algumas dessas coisas podem parecer improváveis. Outras talvez desconfortáveis. Mas exatamente por isso elas me parecem necessárias.

1. Um palco sem slides

Desde que PowerPoint virou idioma universal dos negócios, aprendemos a embalar pensamento em bullet points. É eficiente, mas também perigoso. Slides organizam ideias — e, ao mesmo tempo, simplificam demais aquilo que deveria ser complexo. Eu gostaria de ver um palco onde ninguém pudesse usar slides, a audiência fica perdida por que não sabe mais do que tirar foto. 

A razão na minha cabeça é simples: pensamento real não nasce em diagramas prontos. Ele nasce em raciocínio vivo, em construção coletiva, em ideias que ainda estão sendo formuladas. Quando retiramos o slide, devolvemos ao público algo raro hoje: o pensamento acontecendo em tempo real. Num mundo cada vez mais mediado por interfaces, talvez um festival de inovação devesse lembrar que a primeira tecnologia da humanidade ainda é a conversa.

2. Um debate sobre os efeitos psicológicos da tecnologia

Nunca falamos tanto sobre inovação tecnológica e, ao mesmo tempo, nunca estivemos tão silenciosos sobre seus efeitos psicológicos. Os algoritmos moldam nosso consumo de informação. Plataformas competem pela nossa atenção. Sistemas de recomendação organizam nossas preferências culturais. Inteligência artificial começa a participar da criação de textos, imagens e decisões.

Os últimos dois anos isso ficou pouco evidente e esse ano a agenda do impacto disso sobre a mente humana ganha mais força. 

A intersecção entre tecnologia e psicologia talvez seja um dos grandes temas do nosso tempo e temos algumas palestras sobre o tema. O que acontece com a criatividade quando uma máquina pode gerar ideias instantaneamente? O que acontece com a memória quando tudo pode ser buscado? O que acontece com a atenção quando cada aplicativo compete por segundos do nosso foco?

3. Uma sala onde o Wi-Fi seja desligado (isso traria 100% da atenção para o agora)

Pode parecer uma provocação quase irônica propor isso em um festival de tecnologia.

Mas a verdade é que nunca estivemos tão conectados, e tão cognitivamente fragmentados. Cada conversa hoje acontece em paralelo com notificações, mensagens, fotos, posts e registros. Cada um nos seus milhares de grupos de whatsapp, curadorias, grupos de conteúdo e no final pouco foco no conteúdo. Gostaria de ver uma sala onde o Wi-Fi fosse deliberadamente desligado e zero internet. 

Não como um gesto nostálgico, mas como experimento social. O que acontece quando as pessoas sabem que nada será registrado, publicado ou transmitido? Talvez as conversas se tornem mais honestas. Talvez as ideias sejam mais ousadas.

Em um mundo obcecado por conteúdo, talvez o gesto mais radical seja permitir que algumas conversas simplesmente existam.

4. Um painel sobre o que a inteligência artificial nunca deveria fazer

Essa foi minha proposta. A narrativa dominante da inteligência artificial é de expansão infinita. Tudo pode ser automatizado. Tudo pode ser otimizado. Tudo pode ser transformado em modelo. Mas tecnologia madura não é apenas aquela que expande possibilidades. É também aquela que aprende a estabelecer limites.

A pergunta mais interessante sobre IA talvez não seja o que ela consegue fazer, mas o que ela não deveria fazer.

Deveríamos delegar decisões éticas a algoritmos? Devemos permitir que sistemas automatizados tomem decisões judiciais, educacionais ou culturais? Até que ponto criatividade pode ser automatizada sem perder seu significado humano? Essas são perguntas difíceis. Justamente por isso precisam aparecer nos palcos.

5. Um espaço para falar de fracasso

Festivais são, por natureza, celebrativos. Eles mostram cases bem-sucedidos, campanhas premiadas e startups que cresceram exponencialmente. Mas uma das palestras que mais me tocou nos últimos anos foi uma que falava quantas vezes um cineasta falhou até chegar a Hollywood e aqui realmente foi intenso e verdadeiro, até por que a inovação real raramente nasce de trajetórias lineares, aprender com falhas faz mais sentido do que só ver histórias de sucesso. 

Inovação nasce de experimentos que falham, hipóteses que não funcionam, caminhos que precisam ser abandonados. O fracasso, quando analisado com honestidade, é um dos maiores motores de aprendizado. Gostaria de ver um espaço dedicado apenas a projetos que deram errado, não como confissão constrangedora, mas como laboratório público de aprendizado. Porque a história da inovação não é feita apenas de sucessos. Ela é feita, sobretudo, de tentativas.

6. Um painel com pessoas que normalmente não estão nesses festivais

Existe uma certa homogeneidade nos festivais de inovação. Mesmos perfis, mesmas trajetórias, mesmas perspectivas. Chega até ser engraçado por que as vezes é aquela viagem de amigos que nunca foi combinada e todos estão lá. 

Mas a tecnologia hoje impacta profundamente pessoas que raramente aparecem nesses palcos. Quem está por detrás do impacto e da transformação? Talvez uma das conversas mais ricas sobre o futuro venha justamente de quem não trabalha diretamente com tecnologia, mas vive diariamente suas consequências.

7. Um debate honesto sobre poder tecnológico

Nos últimos anos, tecnologia deixou de ser apenas indústria. Ela se tornou infraestrutura geopolítica. A sensação que eu tenho é que ainda que muito legal as conversas são superficiais e não discutem a verdade, aquela que não pode ser discutida. 

Quem controla os modelos de inteligência artificial? Quem domina a fabricação de chips? Quem define as plataformas onde bilhões de pessoas interagem? Essas questões não são apenas técnicas. São questões de poder.

Ignorar essa dimensão transforma qualquer debate sobre inovação em algo superficial. Discutir tecnologia hoje exige entender economia, política, soberania e governança.

8. Uma conversa sobre o que estamos desaprendendo

Esse tópico apareceu como uma reflexão no ano passado, mas não se desenrolou. Toda tecnologia amplia capacidades humanas. Mas quase toda tecnologia também enfraquece algumas delas. Calculadoras reduziram nossa habilidade de cálculo mental. GPS diminui nossa capacidade de navegação espacial. Motores de busca alteraram nossa relação com a memória.

Agora entramos em uma nova fase: sistemas que pensam, escrevem, desenham e programam ao nosso lado. E poucos entenderam o que isso realmente significa e a pergunta que raramente fazemos é simples: o que estamos desaprendendo nesse processo?

Talvez não somente escute sobre o impacto mas também precise discutir quais habilidades humanas queremos preservar em meio a tantas mudanças e desafios. 

9. Um momento de silêncio

Festivais são ambientes de alta estimulação: múltiplos palcos, conversas simultâneas, ideias em fluxo constante. Mas por experiência, quando eu preciso decidir, criar ou renovar isso raramente nasce em ambientes saturados de estímulos, isso nasce em momentos de pausa, reflexão, assimilação.

Imagino como seria um festival que incluísse deliberadamente um momento de silêncio coletivo. Cinco minutos sem fala, sem celular, sem estímulo externo. Pode parecer um gesto simbólico, mas talvez seja exatamente o que precisamos em uma era de excesso informacional.

10. Uma conversa radicalmente humana sobre o futuro

Ano passado uma das agendas foi sobre intimidade artificial, outra sobre solidão e uma que trazia a visão o Ikigai. No fundo, todas essas provocações apontam para uma pergunta maior. Quando máquinas escrevem textos, geram imagens, analisam dados, produzem música e começam a participar da tomada de decisões, o que significa ser humano em um mundo como esse?

Talvez o papel de festivais de inovação não seja apenas apresentar novas tecnologias. Talvez seja também nos ajudar a refletir sobre quem estamos nos tornando enquanto as criamos e eu espero muito que esse ano continue nesse ritmo. 

Eventos como o SXSW se tornaram influentes exatamente porque conseguiram fazer isso: conectar tecnologia com cultura, negócios com filosofia, inovação com reflexão humana.

Se um festival de comunicação, criatividade e tecnologia quiser realmente discutir o futuro, talvez precise ir além da celebração, talvez precise criar espaço para perguntas que ainda não sabemos responder.

Porque, no fim, a inovação mais profunda raramente acontece em um lugar muito específico, a transformação acontece em todos os lugares. Ela acontece quando começamos a questionar o tipo de mundo que estamos construindo.

Eu volto daqui uns dias contando mais sobre o que eu vou ver por lá!

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Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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