Uncategorized

Os efeitos da pandemia na visão dos millennials e geração Z

Recorte de uma pesquisa da Deloitte ajuda a compreender como jovens enfrentam as consequências da pandemia e lidam com problemas contemporâneos e estruturais envolvendo finanças, meio ambiente e saúde mental
Subeditor de digital para HSM Management e MIT Sloan Management Review Brasil.

Compartilhar:

Por inúmeros fatores, a pandemia do novo coronavírus vem provocando efeitos devastadores em toda a sociedade. Famílias e amigos perderam pessoas queridas, milhares de empresas fecharam as portas e profissionais tiveram que se reinventar ao perder ou trocar de emprego. Além desses problemas, tornam-se cada vez mais visíveis as complicações que a pandemia vem causando na [saúde mental](https://www.revistahsm.com.br/post/saude-mental-no-trabalho-otimizando-o-roi-do-seu-maior-ativo) de milhões de pessoas.

Frente a esta realidade, é necessário olhar com mais atenção sobre como os jovens da geração millennial e Z estão sobrevivendo e lidando com as sequelas desse caos. A partir disso, a Deloitte, gigante de consultoria e outros serviços, realizou uma [pesquisa global em 43 países](https://www2.deloitte.com/content/dam/Deloitte/br/Documents/human-capital/Deloitte-Millennial-2020.pdf) para ouvir 27,5 mil jovens dessas duas gerações.

Os participantes foram convidados a falar sobre suas visões de negócios, governo, meio ambiente e claro, a pandemia da covid-19. O levantamento foi realizado em dois períodos: de novembro de 2019 até janeiro de 2020 e, em seguida, de abril a maio de 2020.

Em linhas gerais, e apesar de toda a crise que os cercam, os jovens responderam de maneira positiva às questões trazidas. Os entrevistados disseram que é possível manter o olhar mais otimista para políticas sociais comunitárias, bem como para cobrar governo e empresas sobre planos e ações de sustentabilidade ambiental.

## Recorte brasileiro
No Brasil, a Deloitte ouviu 1.013 jovens. Para eles, as medidas adotadas por empregadores durante a pandemia para lidar com problemas de saúde mental os motivaram a permanecer no emprego. Estar ao lado de familiares, o [home office](https://www.revistahsm.com.br/post/compliance-no-home-office) e os momentos de folga inerentes à redução da jornada de trabalho também ajudaram na diminuição da carga de estresse e ansiedade.

Sobre finanças, antes da crise, 80% dos entrevistados consideravam que a situação financeira iria melhorar em 12 meses. Com a pandemia, esse número caiu para 20%. Além disso, parte deles (41% dos millennials e 51% dos Zs) afirmaram ter dificuldade para quitar contas em meio à crise.

Outro destaque são as problemáticas do meio ambiente: 39% disseram que a reparação de danos ambientais continua lenta e somente um quarto dos entrevistados considera de maneira satisfatória a velocidade de respostas do governo frente aos problemas ambientais.

## Dados em diferentes realidades
A partir (ou além) dos números, é necessário compreender que a [realidade dos jovens brasileiros](https://www.revistahsm.com.br/post/os-novos-ecossistemas-que-influenciam-a-geracao-z) é diferente da encontrada em parte dos 43 países em que a Deloitte realizou a pesquisa. No Brasil, o percentual de jovens de 15 até 29 anos que não trabalha e nem estuda, conhecida como a [geração nem-nem](https://www.revistahsm.com.br/post/geracao-covid-e-a-juventude-potencia), é de 30%, diferente do que ocorre, por exemplo, no Reino Unido, onde essa porcentagem é de 11% entre millennials e de 10% entre Zs.

A realidade contida nos números implica em identificar problemas complexos e estruturais ligados à educação e no acesso ao mercado de trabalho. Nesse sentido, é fundamental discorrer de maneira mais detalhada sobre as dificuldades e anseios das pessoas que fazem parte dessas gerações.

## Finanças e economia em queda
A pesquisa da Deloitte evidenciou a preocupação dos jovens com a estabilidade financeira. No entanto, é impossível ler esse problema sem apontar que a geração Z representa a maior comunidade de consumidores no mundo, de acordo com [levantamento da Intelligence Node](https://www.forbes.com/sites/forbestechcouncil/2020/09/08/2020-consumer-purchasing-behavior-and-the-pivotal-events-that-shaped-it/?sh=3caed2ef3450), o que impacta diretamente no orçamento.

O contexto de cada época também reflete no uso do dinheiro, e esse fato não está atrelado somente ao público mais jovem. Nesse sentido, basta olhar para os últimos 15 anos e verificar a queda no crescimento econômico brasileiro, do boom que ocorreu de 2006 a 2010 – atravessando uma desaceleração a partir de 2011 – até a entrada, a partir de 2014, do [ciclo de recessão](https://portal.fgv.br/artigos/decada-cada-vez-mais-perdida-economia-brasileira-e-comparacoes-internacionais) agravado recentemente pela pandemia do coronavírus.

Segundo a Eureca, consultoria de recrutamento e desenvolvimento de jovens, essa realidade dificulta não só as finanças pessoais dos jovens, mas também no acesso ao ensino e, consequentemente, na entrada do mercado de trabalho e de remuneração qualificada. Nessa conjuntura, numa comparação entre as duas gerações, a Z foi mais impactada: perda de 13% de renda frente aos millennials, diz a Deloitte.

No mercado de trabalho, por sua vez, uma parte considerável dos jovens não exerce funções essenciais. Outra parcela expressiva trabalha em atividades que, na indústria 4.0, podem ser – e muitas vezes são – substituídas por soluções automatizadas. Em complemento, ainda de acordo com a Eureca, as organizações devem mostrar à sociedade se estão realmente dispostas a desenvolver habilidades num público que precisa encarar um mercado extremamente competitivo.

## Meio ambiente e prioridades
Assim como ocorre no mundo das finanças, é preciso considerar também a disparidade entre a realidade de millennials e Zs brasileiros e de outros países quando o tema é meio ambiente. Enquanto problemas ambientais são a prioridade de países como Dinamarca, Luxemburgo, Noruega e Suíça, nossa juventude elenca o desemprego como seu maior desafio.

Especialmente após a pandemia, o temor de ser vítima de algum tipo de crime deixa de ser o primeiro item e abre espaço para a insegurança sobre a carreira. Na visão da Eureca, isso não significa, contudo, que a urgente pauta climática seja negligenciada. No entanto, é necessário um esforço crítico para vermos a frágil realidade estrutural vivida pelos jovens brasileiros.

## Saúde mental, um caminho a percorrer
Por fim, a saúde mental foi outro tópico levantado pela pesquisa. O tema, apesar da relevância, ainda tem uma natureza neófita no Brasil, sobretudo no ambiente de trabalho. O caminho a ser percorrido ainda é longo e diferente do que ocorre no Reino Unido, por exemplo, onde a [saúde mental é pauta prioritária no trabalho](https://www.gov.uk/government/news/prime-minister-appoints-dr-alex-george-as-youth-mental-health-ambassador).

Contudo, é possível nutrir esperança sobre o tema, tendo em vista que nos últimos anos diversos escritórios de RHs notaram a importância que a estabilidade psicológica tem na vida de profissionais, do estagiário ao chefe da empresa, o que inclui os jovens em discussão. No aspecto individual (e coletivo, no sentido de geração), a Deloitte mostrou que a percepção que os jovens têm do estresse está diretamente relacionada ao status financeiro, especialmente sobre perda de renda e instabilidade na carreira agravada pela pandemia.

Ainda de acordo com a Eureca, isso pode ser um alerta sobre como tratamos de forma transversal o tema de [saúde mental nas organizações](https://www.revistahsm.com.br/post/o-papel-de-empresas-e-liderancas-na-saude-mental-organizacional), partindo não somente do eixo de apoio psicológico e afins, mas também da transparência das informações de saúde financeira da organização e do alinhamento de expectativas de carreira e remuneração, quesitos que podem ganhar espaço na lista de prioridades do EVP.

*Quer saber mais sobre gestão e juventudes, [acesse nossas newsletters](https://www.revistahsm.com.br/newsletter).*

Compartilhar:

Artigos relacionados

O melhor profissional do time pode estar na lista de desligamento

Nem sempre as pessoas que mais contribuem para os resultados são aquelas que aparecem melhor nos indicadores individuais. Em muitas organizações, existe um trabalho invisível que conecta equipes, transfere conhecimento, reduz conflitos e faz o restante do sistema funcionar. O artigo propõe uma reflexão sobre os limites dos modelos tradicionais de avaliação de desempenho e alerta para um risco pouco percebido: demitir quem sustenta as relações e a colaboração de um time pode custar muito mais do que qualquer planilha é capaz de mostrar.

Por que alguém ensinaria a IA a fazer o próprio trabalho?

Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.

Ter mais robôs já não é suficiente

Durante anos, a automação corporativa esteve associada à eliminação de tarefas repetitivas e operacionais. Agora, uma nova etapa começa a ganhar espaço: a integração entre RPA, inteligência artificial, APIs e agentes autônomos para coordenar processos inteiros de ponta a ponta.

A pergunta que todo treinamento deveria responder

Treinamentos costumam ser vistos como solução para desafios de desempenho, cultura e transformação. Mas existe uma pergunta que raramente aparece nas discussões sobre desenvolvimento: o ambiente de trabalho favorece os comportamentos que a organização deseja incentivar? O artigo mostra por que o sucesso de qualquer programa depende menos do conteúdo ensinado e mais da coerência entre estratégia, liderança e mecanismos de gestão.

Direito, Regulação & Compliance, Estratégia
24 de setembro de 2026 14H00
Enquanto grupos como Casas Bahia, Americanas e Braskem recorrem abertamente a processos de reestruturação para preservar suas operações, muitos empresários de médio porte ainda enxergam a Recuperação Judicial como um sinal de fracasso. O artigo questiona essa percepção e mostra por que, em muitos casos, o verdadeiro risco não está na recuperação em si, mas em esperar tempo demais para enfrentar a crise.

Aislan Campos Rocco - Advogado, Sócio na Barroso Advogados Associados

7 minutos min de leitura
Marketing & growth
24 de setembro de 2026 08H00
As empresas acumulam volumes crescentes de dados, tecnologias e ferramentas para entender o consumidor. Ainda assim, muitos clientes continuam sentindo que não são realmente compreendidos. Nesse cenário, o papel do marketing evolui: deixa de ser apenas uma função de comunicação para se tornar um elo estratégico comportamento, experiência e crescimento do negócio.

Ana Flavia Martins - CMO da Algar

5 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
23 de setembro de 2026 13H00
O crescimento da população acima dos 60 anos está alterando padrões de consumo, comportamento e bem-estar em velocidade crescente. Para as empresas, o desafio não é criar soluções para idosos, mas compreender como a própria noção de envelhecimento está mudando e quais oportunidades surgem a partir dessa nova realidade.

Felipe Calbucci - CEO LATAM da TotalPass

Oferecido por: TotalPass
2 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
23 de setembro de 2026 08H00
A crescente complexidade regulatória da armazenagem e distribuição de agroquímicos elevou o nível de responsabilidade das empresas do setor. O que antes era visto como uma exigência burocrática agora impacta diretamente a sustentabilidade financeira, jurídica e reputacional das organizações.

Antonio Sousa - Gerente corporativo de HSE da Bravo Serviços Logísticos

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
22 de setembro de 2026 14H00
Ao eliminar distorções fiscais e reduzir a antecipação do recolhimento do ICMS em determinados produtos, as novas regras trazem mais equilíbrio tributário para fabricantes e distribuidores. A mudança não reduz necessariamente a carga tributária, mas pode melhorar o fluxo de caixa, simplificar operações e impulsionar a competitividade do setor.

Alexandro Ferreira de Souza - Superintendente de Planejamento Econômico e Financeiro da Termomecanica

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
22 de setembro de 2026 08H00
Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.

Fulvio Mascara - Head global de inovação da Foursys

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
21 de setembro de 2026 14H00
Da carta assinada por milhares de pesquisadores aos recentes pedidos de desaceleração feitos por líderes da OpenAI, Anthropic e DeepMind, cresce o debate sobre os riscos e os limites da inteligência artificial. O desafio talvez não seja decidir se devemos continuar avançando, mas descobrir como fazê-lo sem perder o controle do rumo que estamos escolhendo.

Marcel Nobre - CEO da BetaLab, Professor, Pesquisador e Keynote Speaker de inovação e novas tecnologias

12 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
21 de setembro de 2026 08H00
Entre ciência da felicidade, burnout, inteligência artificial e futuro do trabalho, a 4ª edição do Mind Summit deixou à autora uma pergunta maior: em um mundo saturado de informação, como distinguimos evidência, narrativa e ideias realmente capazes de mudar a forma como trabalhamos?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

8 minutos min de leitura
Liderança, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
20 de setembro de 2026 14H00
Muitas organizações possuem metas claras, planejamento estruturado e prioridades bem definidas, mas continuam enfrentando dificuldades para transformar estratégia em resultado. O problema raramente está na falta de entendimento. Está na capacidade de mobilizar pessoas, construir segurança psicológica e criar uma cultura em que colaboradores se sintam parte da solução, e não apenas destinatários das decisões.

Valéria Siqueira - Fundadora da Let’s Level

5 minutos min de leitura
Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução