Tecnologia & inteligencia artificial
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Por que alguém ensinaria a IA a fazer o próprio trabalho?

Por trás de cada iniciativa de inteligência artificial existe uma negociação raramente explicitada. Compartilhar conhecimento, revisar respostas, adaptar processos e sustentar a transição exige tempo, esforço e exposição. Antes de atribuir a resistência à mudança a uma questão cultural, talvez seja preciso entender quais incentivos estão sendo oferecidos para que as pessoas escolham cooperar.
Executiva de Tecnologia, professora, palestrante, empresária, além de coordenadora da Comissão de Estratégia e Inovação do IBGC e membro do Grupo de Trabalho de Inteligência Artificial da ABES. Atua na interseção entre tecnologia, governança e estratégia, ajudando líderes e organizações a compreenderem e aplicarem a inteligência artificial como vetor de transformação e vantagem competitiva. É reconhecida por sua visão integrativa e provocativa, conectando pessoas, processos e dados para construir o futuro com propósito e protagonismo.

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Consigo imaginar uma profissional diante de uma solicitação perfeitamente bem-intencionada: explicar à inteligência artificial como realiza o trabalho no qual se tornou referência. Ela conhece as exceções, percebe quando uma informação aparentemente correta não faz sentido e identifica, antes dos demais, o problema que ainda não entrou no indicador. Para ensinar o sistema, precisará interromper entregas, organizar esse conhecimento, testar respostas e corrigir erros. Depois, continuará responsável pelos resultados. A empresa chama esse processo de adoção; do lugar daquela profissional, ele também pode ser entendido como uma negociação sobre o valor futuro da sua contribuição.

É essa negociação que me interessa. Temos dedicado energia a discutir como convencer as pessoas a usar IA, mas nem sempre tornamos explícito o que estamos pedindo que elas entreguem, quais riscos deverão assumir e o que receberão em troca. Não me refiro apenas a remuneração. Refiro-me a reconhecimento, autonomia, tempo para aprender, perspectivas de carreira e critérios de responsabilização. Uma transformação que modifica a produção de valor sem discutir sua distribuição deixa uma parte decisiva do problema fora da agenda executiva.

Quando ouço que uma equipe precisa mudar de mentalidade, considero a hipótese de que ela já tenha compreendido as consequências da mudança melhor do que a liderança imagina. Uma pessoa pode reconhecer a utilidade da tecnologia e, ainda assim, não enxergar vantagem em expor que conclui uma tarefa mais rapidamente. Se a resposta previsível for aumentar sua carga, eliminar sua oportunidade de desenvolvimento ou responsabilizá-la por decisões que não consegue controlar, a baixa adesão deixa de ser um enigma cultural. Torna-se uma resposta a incentivos que nós, gestores, ajudamos a construir.

Não quero substituir uma explicação simplista por outra. Existem receios infundados, lacunas de conhecimento, hábitos difíceis de rever e interesses que precisam ser confrontados. Nem toda resistência é racional, e uma empresa não pode atribuir poder de veto individual a qualquer mudança. O que defendo é um diagnóstico mais exigente: antes de tratar a relutância como deficiência humana, precisamos verificar se o desenho da transformação oferece condições razoáveis para cooperar. Convencer alguém a trabalhar contra os próprios incentivos pode produzir adesão momentânea; dificilmente constitui uma capacidade organizacional confiável.

As pesquisas reunidas pela OCDE sobre IA e trabalho ajudam a qualificar essa conversa. Em levantamentos com trabalhadores e empregadores dos setores financeiro e industrial de sete países, treinamento e consulta aos trabalhadores apareceram associados a resultados mais favoráveis para eles. Trata-se de associação, não de demonstração de causalidade, e o recorte não representa todas as atividades econômicas.1 Ainda assim, considero relevante que a discussão não se limite à disponibilidade da ferramenta: importa como as pessoas participam das condições em que ela será utilizada.

No cotidiano, a negociação costuma começar por algo muito concreto: quem fará o trabalho adicional da transição? Enquanto o novo processo aprende a funcionar, alguém mantém o antigo, testa a alternativa e reconcilia os resultados. Se essa carga não estiver prevista, a inovação passa a depender de horas invisíveis. A liderança recebe a demonstração de produtividade, mas o custo foi deslocado para a disponibilidade pessoal de quem tornou a demonstração possível. Chamar esse esforço de protagonismo não deveria nos dispensar de financiá-lo.

Existe também o custo de conferir. A resposta de uma IA pode ficar pronta antes de ser confiável para aquele uso, e avaliar um resultado plausível pode exigir conhecimento superior ao necessário para produzi-lo. Um profissional experiente talvez encontre rapidamente uma resposta por conta própria, mas precise reconstruir o raciocínio do sistema para aceitar a alternativa sugerida. Em outros casos, a ferramenta efetivamente reduz esse trabalho. A decisão deveria vir da comparação do fluxo completo, incluindo revisão e correção, não de uma impressão baseada na velocidade com que o texto apareceu na tela.

Um experimento da METR, divulgado em julho de 2025, tornou essa diferença especialmente visível: 16 desenvolvedores experientes, trabalhando em 246 tarefas reais de projetos que conheciam, levaram 19% mais tempo quando puderam usar as ferramentas de IA testadas. O resultado não autoriza uma conclusão geral sobre programação ou sobre ferramentas posteriores.2 Em fevereiro de 2026, a própria organização relatou dificuldades de seleção e medição em uma investigação subsequente e advertiu contra estimativas simples para o novo contexto.3 Para mim, a lição está na disciplina de medir, inclusive quando a evidência contraria tanto o entusiasmo quanto o ceticismo.

A arquitetura participa diretamente desse contrato. Dados, contexto, interoperabilidade, orquestração e governança não são somente requisitos técnicos: determinam quanto esforço e risco serão transferidos ao usuário. Se o sistema não conhece a política vigente, alguém precisará fornecê-la. Se não tem acesso ao histórico, alguém reconstruirá o contexto. Se consegue recomendar, mas não executar, uma pessoa completará o percurso. Quanto mais essas lacunas forem tratadas como detalhes, maior a chance de a empresa anunciar uma transformação que continua sendo sustentada por trabalho manual não reconhecido.

A situação se torna mais delicada quando capacidade de ação e responsabilidade não avançam juntas. Eu considero inadequado pedir a uma pessoa que responda pelo resultado de um sistema sem lhe dar meios para compreender seus limites, contestar uma recomendação e interromper uma ação inadequada. A assinatura humana não resolve essa assimetria por si só. Se o volume, o tempo disponível ou a falta de acesso tornam a revisão impraticável, temos uma aprovação nominal, não uma supervisão efetiva. O desenho precisa prever a autoridade necessária para cumprir a responsabilidade atribuída.

Há, porém, uma dimensão ainda menos discutida: ensinar a organização pode modificar o poder de quem detém conhecimento. Boa parte do valor de um profissional está em perceber exceções que não aparecem no procedimento, reconhecer ambiguidades e saber quando a regra deixa de servir. Tornar esse conhecimento compartilhável pode ser excelente para o negócio, mas exige reconhecer a contribuição de quem o estrutura. A empresa não deveria valorizar a pessoa apenas por executar uma tarefa e, ao mesmo tempo, esperar que ela trabalhe espontaneamente para que essa tarefa deixe de definir seu papel.

Minha posição não é a de defender conhecimento retido como mecanismo de proteção. Isso limitaria a aprendizagem coletiva e poderia criar dependências perigosas. Defendo que transferir conhecimento seja tratado como trabalho de alto valor, com crédito, tempo e possibilidades concretas de evolução. Quem melhora a capacidade da organização deveria ter caminhos para atuar na supervisão, no desenho de novos processos, na resolução de exceções ou em outras funções compatíveis com suas competências. Nem todos seguirão a mesma trajetória, mas é preciso existir algo mais consistente do que a promessa vaga de que surgirão atividades estratégicas.

Essa discussão não permite garantias que a liderança não pode sustentar. Seria irresponsável prometer que nenhuma função será alterada ou que todo ganho será convertido em expansão. Mudanças de quadro podem fazer parte de uma transformação, e ocultar essa possibilidade corrói a confiança que se pretende construir. O compromisso defensável é outro: clareza sobre objetivos e critérios, participação na implementação, condições reais de aprendizagem e tratamento responsável dos impactos. Não se trata de eliminar o conflito econômico, mas de administrá-lo sem converter a ambiguidade em instrumento de adesão.

Quando projeto esse tema para os próximos anos, enxergo três arranjos plausíveis, que podem inclusive coexistir dentro da mesma companhia. No primeiro, a organização captura ganhos e amplia exigências sem rever a relação com as pessoas. Pode obter eficiência de curto prazo, mas corre o risco de reduzir a disposição para ensinar, revelar problemas e compartilhar melhorias. No segundo, indivíduos utilizam IA discretamente para proteger sua própria produtividade, enquanto a empresa acumula licenças e continua sem transformar processos. No terceiro, os ganhos são tornados visíveis e recebem destinação negociada, permitindo que a aprendizagem individual se converta em capacidade coletiva.

Não atribuo probabilidades a esses futuros. Interessa-me perceber que escolhas presentes favorecem cada um deles. Quando um erro relatado de boa-fé gera punição, a organização ensina a ocultá-lo; quando uma melhoria individual resulta apenas em mais tarefas, ensina a não revelá-la. Da mesma forma, quando o profissional que ensina o sistema ganha reconhecimento e espaço para assumir responsabilidades mais relevantes, a empresa cria uma razão concreta para cooperar. A política de adoção não está apenas no documento de comunicação, mas na consequência observável de cada comportamento.

Eu levaria esse debate conjuntamente ao CEO, ao CHRO, ao responsável pela operação e à liderança de tecnologia. O RH não consegue compensar com treinamento um sistema que exige revisão impossível; a tecnologia não consegue produzir confiança onde o critério de avaliação pune a experimentação responsável; a operação não deveria manter indefinidamente dois processos sem financiar a transição. Tampouco basta medir acessos. Precisamos saber quem está absorvendo a conferência, se as exceções estão diminuindo, quanto tempo é necessário para trabalhar de outra forma e se a contribuição de quem ensina está sendo reconhecida.

Um sinal especialmente importante seria a disposição dos profissionais mais experientes para tornar seu julgamento discutível e compartilhável. Não porque devam concordar com toda proposta tecnológica, mas porque sua participação revela se o sistema oferece condições de colaboração. Outro sinal seria a redução da distância entre a demonstração do projeto e a experiência de quem o utiliza em um dia difícil, com dados incompletos, pressão de prazo e consequências reais. A adoção merece ser avaliada nesse cotidiano, não apenas no ambiente protegido da apresentação executiva.

No fundo, estamos pedindo às pessoas que ajudem a construir uma organização diferente daquela na qual aprenderam a ter valor. Eu considero esse pedido legítimo e necessário, mas suficientemente importante para não ser resumido a um chamado por entusiasmo. Antes de perguntar por que alguém ainda não abraçou a inteligência artificial, a liderança precisa conseguir explicar o que está oferecendo em troca dessa colaboração. O futuro do trabalho também será definido pela qualidade desse acordo, inclusive nas empresas que preferirem não reconhecer que ele existe.

Fontes dos dados e conceitos citados

[1] OCDE. AI and work. Página temática; seção sobre experiências de trabalhadores e empregadores.

[2] METR. Measuring the Impact of Early-2025 AI on Experienced Open-Source Developer Productivity. 10 jul. 2025.

[3] METR. Atualização da pesquisa de produtividade. 24 fev. 2026.

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