Direto ao ponto

Precisaremos de bancos centrais pandêmicos

Na Rotman Management, o autor de The Pandemic Information Gap Joshua Gans sugere que cada país se inspire em seu sistema financeiro para controlar contágios

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“A principal ferramenta ao nosso dispor para combater consequências econômicas de pandemias, além das vacinas, é a coleta e o uso de informações sobre pessoas infectadas. Por isso, nossa preparação para lidar com ameaças futuras deve incluir a criação de uma infraestrutura para a captação de dados e a capacitação dos líderes para tomar decisões baseadas neles.”

É assim que Joshua Gans, professor da Rotman School of Management, ligado à University of Toronto, Canadá, apresenta um novo e importante aspecto de economia que países e empresas devem considerar daqui para a frente. Apesar de inicialmente ter recomendado a criação de uma autoridade supranacional que se sobrepusesse a outros interesses para lidar com o desafio, hoje acredita que existem maneiras de lidar com o problema da informação pandêmica em nível nacional mesmo. O autor de *The Pandemic Information Gap* estudou a rede mundial de bancos centrais para apresentar algumas sugestões práticas sobre como fazer isso.

### Contágio financeiro vs. viral

Há algo no fluxo e no refluxo do sistema financeiro que faz com que cientistas vejam o sistema como um quebra-cabeça a ser montado. O sistema tem períodos de relativa estabilidade, seguidos por um aumento de otimismo ou flutuações, seguidos de pessimismo e estouro de bolhas. Às vezes isso envolve, por exemplo, ações, títulos e o familiar terreno dos mercados imobiliário e financeiro.

Embora admita ser um exagero achar que os altos e baixos do mercado financeiro têm um padrão semelhante ao das flutuações no número de infectados durante uma pandemia, Gans vê uma ligação interessante entre epidemias e instabilidade financeira, descrita por meio do conceito de contágio: o pessimismo é tão contagioso quanto um coronavírus e impele as pessoas a mudar de ideia sobre o mercado – às vezes, tarde demais. Assim, é tentador pensar em termos de massa crítica: quando há muitas pessoas otimistas, elas convencem os outros a ver tudo à sua maneira; quando alguns investidores se mostram pessimistas, demora para que as pessoas percebam que algo está errado.

Andrew Haldane, do Banco da Inglaterra, já havia dito em 2009, segundo Gans, que as semelhanças entre pandemias e mercado financeiro são “impressionantes”. Citando Haldane, funciona assim: “Um evento externo ocorre. O medo domina o sistema, que entra em crise. O dano colateral resultante é amplo e profundo. E, a *posteriori*, o evento desencadeante nem era tudo isso”. Tais semelhanças não são coincidência. Nos dois casos, uma rede complexa e adaptativa manifesta seu comportamento sob estresse.

Ressalvando que, no caso de colapsos de mercado, quanto mais pessoas se escondem, mais as condições econômicas pioram, e que o oposto acontece com a saúde pública durante uma pandemia, Gans explica por que o ponto de vista de Haldane é válido. A epidemiologia e as finanças chegam à mesma conclusão ao avaliar a chance de instabilidade e o risco de contágio generalizado: a interdependência global é fonte de risco. Sendo assim, para nos protegermos é preciso reduzir interdependências e romper a cadeia de transmissão, isolando instituições que assumam comportamentos de risco.

### Então, o que fazer?

Analogias ajudam a perceber semelhanças entre epidemiologia e finanças e encontrar um caminho, segundo o professor da Rotman School. Citando o matemático e epidemiologista Adam Kucharski, Gans escreve: “Para ser infectada durante uma epidemia, a pessoa precisa ser exposta ao patógeno. O contágio financeiro também pode se espalhar por meio de exposições tangíveis, como um empréstimo entre bancos ou um investimento no mesmo ativo que o de outra pessoa. A diferença, na área financeira, é que as empresas nem sempre precisam de uma exposição direta para adoecer”.

Daria para isolar preventivamente comportamentos financeiros problemáticos? Não. Isso só seria possível se houvesse uma relação direta entre quem corre riscos excessivos e quem é pego de surpresa quando tudo desaba. E não há. O contágio financeiro envolve, isto sim, a falta de informação que gera desconfiança. A regulação reduz o problema, mas não o elimina, porque o sistema financeiro inventa novas formas de movimentar o dinheiro – como aconteceu em 2008, quando os bancos ofereciam aos investidores títulos garantidos por hipotecas com baixa qualidade de crédito.

Numa pandemia, a falta de informação que gera desconfiança também é o xis da questão, segundo Gans. As pessoas ficam sabendo de uma doença que está se espalhando entre a população, mas lhes falta informação sobre quem pode disseminá-la.

Para restaurar a confiança, tanto em quedas de mercado como em pandemias, as pessoas precisam, portanto, receber informação rápida sobre os problemas específicos e separá-los do sistema. Nos sistemas financeiros, esse trabalho recai principalmente sobre os bancos centrais. E na saúde pública?

Como diz Gans, precisamos criar equivalentes dos bancos centrais para gerenciar as próximas pandemias – não só uma agência de vigilância sanitária, mas um órgão com poder de agir. Afinal, a menos que combatidos rapidamente, vírus saem de controle. O desafio fundamental é de informações e de poder efetivamente usá-las para decidir quem isolar e o que fazer.

![figura 1 – precisaremos de bancos centrais pandêmicos](//images.ctfassets.net/ucp6tw9r5u7d/5pAOFm5zBKWbbo2p7JjvO/521c071016fac722a016cb36efcda200/figura_1_-_precisaremos_de_bancos_centrais_pand__micos.png)

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