Bônus. Palavra mágica que adoça o vocabulário corporativo e que funciona como uma espécie de “santo graal” no universo dos colaboradores do Brasil e do mundo. Mas como, de fato, as empresas lidam com a mecânica de remuneração variável?
Em pesquisa recente realizada pela Mereo, HR Tech, presente em mais de 40 países, responsável por atender cerca de 10% das 500 maiores empresas do Brasil, se constatou que a maioria das corporações adota estratégias de bonificação. Mas qual estratégia? A resposta é simples e direta: algumas pagam, mas poucas, de fato, usam a remuneração variável como uma alavanca de performance. Explico.
A remuneração variável costuma ser tratada como um cálculo financeiro. É uma letra fria. Ou seja, lança-se mão de um percentual da folha de pagamento, um valor ao fim do ano, um “extra” condicionado ao resultado obtido naquele período e pronto. Só que na prática a realidade é outra.
O bônus é algo extremamente sensível. Porque é um contrato psicológico de justiça laboral entre a empresa e seus colaboradores. E esse é um entendimento tão simples quanto. Portanto, tratá-lo à luz de uma calculadora financeira faz com que a essência seja perdida, ou seja, o engajamento genuíno corporativo vai embora.
Portanto, quando esse contrato é bem desenhado, o bônus direciona energia, disciplina a execução e reforça cultura. Agora, quando é mal estruturado, produz exatamente o oposto: frustração, cinismo e perda silenciosa de engajamento. E esse custo raramente aparece no Demonstrativo do Resultado do Exercício (DRE).
Leitura criteriosa
Tomando o cuidado de levar em conta que as empresas respondentes do levantamento já tem no seu dia a dia estruturas formais de pagamento de bônus, essa pesquisa, contudo, revelou padrões importantes. Quais sejam: regras definidas, metas formalizadas, notas de performance, targets por cargo, gatilhos financeiros e mecanismos de proporcionalidade.
Mesmo assim é preciso ler esses dados com prudência.
Esse recorte não significa que o mercado, como um todo, já opere com modelos maduros ou bem estruturados. Ainda existe uma parcela significativa de empresas sem qualquer programa formal de bônus – ou com modelos frágeis, improvisados, excessivamente subjetivos e pouco conectados à estratégia.
O que os dados revelam, contudo, é outra coisa: onde a remuneração variável existe, a expectativa por coerência e justiça é mais alta. E isso aumenta o risco de erro. Porque, quando há regras, elas são analisadas. Quando há fórmulas, elas são testadas. Quando há metas, elas são comparadas.
Portanto, ter bônus não é suficiente. Ter um bônus coerente, explicável e sustentável é o verdadeiro desafio.
Isso nos leva a outro pensamento: o conceitual. Porque o bônus certo sempre responde a três conceitos: elegibilidade, gatilhos e regras. E essas marcações se transformam em três questões:
1) Quem participa? (Elegibilidade)
Nem todo mundo precisa estar no programa – mas quem está fora precisa entender o porquê, uma vez que elegibilidade mal definida cria narrativas paralelas, ressentimento e a sensação de privilégio mal explicado.
2) Quando existe bônus? (Pool e gatilhos)
Bônus precisa de condição de existência. Sem gatilho financeiro, vira risco de caixa. Com gatilho confuso, vira risco de credibilidade.
3) Como o valor é calculado? (Regras, metas e nota de performance)
A fórmula não precisa ser complexa. Ela precisa ser consistente e previsível. O colaborador deve conseguir entender como suas entregas se convertem em reconhecimento.
Quando essas três respostas estão claras, o bônus vira instrumento de execução. Quando não estão, vira loteria.
Com essa análise debaixo do braço, é possível observar onde os programas mal estruturados costumam falhar. E eles saem do trilho invariavelmente na intenção, e não no desenho.
Quer um exemplo? Na elegibilidade. Quando ninguém entende quem entra e quem fica de fora, o discurso de meritocracia perde força rapidamente.
Quer outro? Em gatilhos frouxos.Porque eles revelam uma lógica pouco clara de financiamento. E ele, bônus, passa a depender mais do “ano” do que da performance, minando a relação entre esforço e recompensa.
Já no que diz respeito ao regramento. Bem… O caldo entorna de vez quando elas são alteradas no fim do “jogo”, quando se vê no fechamento do ciclo, que havia condições não explicitadas. E a sensação é simples: tudo estava armado.
Virada
O fato é que há um ponto de virada. Mas é preciso tratar o bônus como sistema, não como planilha. As empresas que usam a remuneração variável como alavanca real de gestão tratam o tema como um sistema, não como um cálculo isolado.
Na prática, isso significa seguir uma lógica simples e rigorosa. Qual seja:
Elegibilidade → Pool → Gatilhos → Ciclos → Regras de cálculo → Governança
Porque um bom programa de bônus precisa ser auditável – não apenas do ponto de vista jurídico, mas cultural. E auditável é quando o colaborador entende o jogo, o líder consegue explicar sem improviso, o diretor-financeiro confia nos impactos financeiros e a empresa não depende de exceções para fechar a conta.
Em outras palavras, se a empresa estiver disposta a testar a saúde do seu programa de bônus, recomenda-se três perguntas simples:
- Para um colaborador: “O que você precisa entregar para ganhar bônus?”
- Para um líder: “Explique o cálculo em dois minutos.”
- Para o diretor-financeiro: “Qual é o risco financeiro do programa em cenários diferentes?”
Se as respostas forem confusas, divergentes ou cheias de “depende”, provavelmente o programa está pagando bônus, mas cobrando um preço alto em confiança, alinhamento e cultura. E, em gestão de performance, confiança é o ativo mais caro que existe.




