Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
10 minutos min de leitura

Quem vai liderar sua empresa em 2035? A dívida de senioridade que a IA está criando nas organizações

Enquanto algumas organizações reduzem contratações de profissionais em início de carreira graças aos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial, outras fazem exatamente o oposto e ampliam seus programas de formação. O motivo é simples: toda vaga júnior eliminada hoje pode se transformar em uma escassez de profissionais experientes amanhã.
Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Palestrante, Mentor, Conselheiro, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR e Especialista do Gerson Lehrman Group e da Coleman Research – Fala sobre Inovação, Governança e ESG.

Compartilhar:

Em fevereiro de 2025, Marc Benioff, presidente da Salesforce, avisou que a empresa não contrataria nenhum engenheiro novo naquele ano. A IA já entregava, segundo ele, 30% mais produtividade em engenharia. Um ano depois, em fevereiro de 2026, Nickle LaMoreaux, líder de recursos humanos da IBM, disse o oposto de cima de um palco: a IBM estava triplicando a contratação de profissionais em início de carreira, inclusive desenvolvedores de software, justamente as funções que dizem que a IA fará. E cravou uma aposta de prazo. As empresas mais bem-sucedidas daqui a três a cinco anos, afirmou, serão as que dobraram a aposta na entrada de carreira neste exato momento.

Dois presidentes, duas leituras opostas do mesmo fato. Um enxerga um custo a cortar. O outro, um ativo a proteger. A diferença entre eles não é sobre tecnologia, porque ambos têm acesso à mesma IA. É sobre horizonte de tempo. E é aí que mora o conceito deste artigo: a dívida de senioridade, o passivo silencioso que uma empresa acumula toda vez que deixa de formar os próprios quadros.

A IA come a base da pirâmide primeiro

Há uma razão técnica para a IA atacar primeiro o trabalho de entrada, e ela é mais profunda do que parece. A inteligência artificial generativa é brilhante em produzir o que é explícito, documentado e codificável: o texto, o código, a planilha, a resposta padronizada. E isso é, quase por definição, o conteúdo do trabalho júnior. O Anthropic Economic Index, que mede a exposição real das ocupações à IA, coloca no topo da lista os programadores e os atendentes, seguidos por quem faz entrada de dados. Não é coincidência. São funções cujo produto é justamente aquilo que um modelo de linguagem gera direto.

O que a IA ainda não faz bem é o oposto disso: o conhecimento tácito. Em 1966, o filósofo Michael Polanyi resumiu numa frase o que hoje separa o júnior do sênior. Sabemos mais do que conseguimos dizer. O economista David Autor, do MIT, batizou a ideia de paradoxo de

Polanyi para explicar por que certas tarefas resistem à automação. O julgamento do profissional experiente, a intuição de que algo está errado antes de saber por quê, a leitura da política interna de um cliente, nada disso está num manual. E o que não está num manual, a máquina não aprende a copiar.

O problema é que essas duas coisas estão amarradas uma à outra. O tácito nasce do codificado. Ninguém vira sênior sem antes ter feito, muitas e muitas vezes, o trabalho júnior que a IA agora faz sozinha.

O canário já cantou

Isso deixou de ser hipótese. Em agosto de 2026, os economistas Erik Brynjolfsson, Bharat Chandar e Ruyu Chen, do Stanford Digital Economy Lab, publicaram a versão mais recente de um estudo com um nome que já é um aviso: Canários na Mina. Usando a folha de pagamento de milhões de trabalhadores americanos, encontraram um padrão nítido. O emprego de jovens de 22 a 25 anos nas ocupações mais expostas à IA está 19% abaixo do que estaria se tivesse acompanhado o de colegas em funções menos expostas. Entre os trabalhadores experientes das mesmas ocupações, não há queda equivalente.

Dois detalhes tornam o dado mais inquietante, não menos. Primeiro, o mecanismo. A queda não vem de demissões, vem da redução de novas contratações. A porta de entrada está se fechando em silêncio, sem manchete de demissão em massa. Segundo, a tendência. A divergência vem crescendo de forma constante desde que foi vista pela primeira vez, em agosto de 2025, quando era de 13%. Os autores são cuidadosos e chamam esses números de canários, sinais precoces, e não de veredito causal fechado. Mas canário na mina serve para uma coisa só. Quando ele cai, é hora de prestar atenção.

Fechar a escola e ficar com os diplomas

Aqui a conta começa a fazer sentido. Se o profissional sênior se forma subindo pelo degrau de entrada, e esse degrau está sendo automatizado, de onde virão os seniores da próxima década?

Matt Garman, presidente da AWS, foi direto ao ouvir a ideia de trocar juniores por IA. Chamou-a de uma das coisas mais tolas que já tinha escutado. O raciocínio dele é de gestão pura: os juniores são os funcionários mais baratos, os que mais usam as ferramentas de IA, e sem eles, daqui a dez anos, não haverá dentro de casa ninguém que tenha aprendido nada. A engenheira Camille Fournier formulou a mesma inquietação como pergunta. Como as pessoas se tornam seniores se nunca começam como juniores?

A Harvard Business Review deu nome a esse passivo. Em um artigo de junho de 2026, a consultora Jenny Fernandez chamou de dívida de capacidade organizacional o buraco que se abre entre as habilidades de julgamento que a empresa precisará em seus futuros líderes e o que seu funil encolhido de fato entrega. A metáfora é financeira de propósito. O que parece uma decisão de eficiência de custo é, no fundo, uma decisão sobre o suprimento futuro de liderança, cujo preço só aparece anos depois. Eu chamo a versão nossa disso de a dívida de

senioridade. Toda vaga júnior cortada por economia é uma parcela dessa dívida, contraída hoje, com vencimento marcado para quando o sênior fizer falta.

E o mercado já está contraindo essa dívida em ritmo acelerado. Segundo o relatório SignalFire de 2026, a fatia de recém-formados nas contratações das maiores empresas de tecnologia caiu para cerca de 7%, ante quinze por cento antes da pandemia. Metade da esteira, desligada. Fechamos a escola e ficamos com os diplomas.

O outro lado da moeda

Seria desonesto contar apenas essa metade. Há um argumento forte na direção contrária, e ele precisa ser levado a sério.

A mesma IA que ameaça o degrau também eleva quem já está nele. Um estudo de Erik Brynjolfsson com Danielle Li e Lindsey Raymond, publicado em 2025, acompanhou mais de cinco mil atendentes e encontrou um ganho de produtividade de cerca de 14% na média, mas de 34% entre os novatos e os menos qualificados. A IA funciona como um sênior invisível ao lado do júnior, destilando as melhores práticas dos melhores e encurtando a curva de aprendizado. Autor vai além e defende que a IA pode democratizar a expertise, devolver a profissionais comuns a capacidade de tomar decisões que antes exigiam anos de especialização.

Tudo isso é verdade. E não resolve o problema, apenas o desloca. Porque esse efeito de elevação só age sobre quem já cruzou a porta. A IA transforma o novato em alguém muito mais produtivo, mas não cria a vaga que traria esse novato para dentro. Ela turbina quem entrou e desestimula a entrada de mais gente. O ganho é real para o indivíduo empregado e, ainda assim, a esteira coletiva de formação continua encolhendo. A promessa de democratizar a expertise não tem sobre quem incidir se a expertise não tiver mais por onde começar.

No Brasil, o degrau ainda parece firme

E no Brasil? Aqui o quadro esconde uma armadilha. Em fevereiro de 2026, o IBGE informou que o desemprego dos jovens de 18 a 24 anos havia caído para 11,4%, o menor da série histórica. Ou seja, nada nos indicadores de hoje sugere que a base da pirâmide esteja em risco. E é exatamente esse o perigo. O degrau ainda parece firme, e por isso quase ninguém percebe que ele começou a ser serrado por baixo.

Um setor já sente a serra. O teleatendimento, que emprega cerca de 1,4 milhão de brasileiros e foi por décadas a maior porta de primeiro emprego do país, encolheu. A Feninfra estima algo como 70 mil postos perdidos no telemarketing entre 2022 e 2024, e o Fórum Econômico Mundial, em parceria com a Fundação Dom Cabral, colocou o operador de telemarketing entre as ocupações de declínio mais rápido no Brasil até 2030. Como resumiu uma especialista da Singularity University, os contact centers eram espaços de formação, onde o jovem aprendia a ouvir, a negociar e a operar sob pressão. Quando se automatiza a porta de entrada, não se perde apenas um emprego. Perde-se uma escola.

Há um contraponto animador, e o Brasil o tem. O programa Jovem Aprendiz bateu recorde em 2025, com mais de 715 mil aprendizes ativos, amparado por uma lei que obriga empresas de médio e grande porte a reservar de 5% a 15% das vagas para a formação de entrada. É uma esteira institucional que funciona. A questão é se ela vai sobreviver à tentação de ser cortada em nome da eficiência, num país que, segundo as projeções do próprio IBGE, para de crescer em população por volta de 2041 e envelhece depressa. O aperto vem dos dois lados: menos jovens entrando pela base e uma força de trabalho encanecendo no topo. Quem não formar os próprios seniores agora vai procurá-los num mercado que terá cada vez menos gente.

O que fazer antes que a conta vença

Seis movimentos para quem entende que formar sênior é decisão de continuidade do negócio, e não tarefa de RH:

  1. Trate o corte de vagas júnior como decisão de investimento, não de custo. Antes de eliminar uma turma de entrada, pergunte de onde virá o sênior que ela produziria daqui a dez anos.
  2. Redesenhe o trabalho júnior, não o extermine. Se a IA faz a tarefa antiga, crie a nova. Use o modelo que a McKinsey chama de gabarito: o iniciante tenta, a IA compara, o gestor discute a diferença. A tarefa deixa de ser produção e vira treino de julgamento.
  3. Mapeie a sua própria dívida de senioridade. Olhe a pirâmide de idade e de experiência da empresa e projete quem estará apto a assumir as cadeiras críticas quando os ocupantes atuais saírem.
  4. Use os instrumentos que já existem. No Brasil, a Lei de Aprendizagem e os programas de trainee são esteira de formação pronta. Reforce-os de propósito, em vez de deixá-los murchar.
  5. Meça a formação como se mede caixa. Coloque no painel do negócio um indicador de quantos seniores a empresa forma por ano, não apenas de quantos custos ela cortou.
  6. Proteja o tempo de quem ensina. A senioridade se transmite na convivência, e um sênior afogado em trabalho não forma ninguém. Conhecimento tácito precisa de folga para acontecer.


Quem vai comandar a operação?

A IA vai continuar melhorando no trabalho codificado, e a tentação de cortar a base para baixar custo só vai crescer. Mas quem corta a base corta o próprio futuro. O sênior não se compra pronto na prateleira do mercado. Ele se cultiva, um degrau de cada vez, ao longo de anos, e cada degrau eliminado hoje é um profissional que não existirá amanhã.

Benioff e a IBM olham para a mesma IA e enxergam coisas opostas porque contam o tempo de formas opostas. A pergunta que fica para cada líder não é se a IA consegue fazer o trabalho do seu júnior. Ela consegue, cada vez mais. A pergunta é outra, e é a que decide a

continuidade da sua empresa. Se você desligar a escola agora, quem estará pronto para assumir o topo em 2035?

Compartilhar:

Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Palestrante, Mentor, Conselheiro, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil, Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR e Especialista do Gerson Lehrman Group e da Coleman Research – Fala sobre Inovação, Governança e ESG.

Artigos relacionados

O que o gestor intermediário recebe, além da cobrança?

Lideranças são constantemente cobradas a desenvolver equipes engajadas, seguras e resilientes. Mas o que acontece quando elas recebem a responsabilidade pela mudança sem tempo, recursos ou autonomia para promovê-la? Uma reflexão sobre o limite entre responsabilidade individual e responsabilidade organizacional.

Headless: a empresa precisa funcionar fora da própria tela

Conversar com um assistente para resolver uma demanda parece simples para o usuário. Para as organizações, porém, isso exige uma transformação muito mais profunda: explicitar processos, organizar capacidades de negócio e construir uma arquitetura capaz de conectar intenção, decisão e execução de forma confiável. É nesse encontro entre inteligência artificial e arquitetura headless que surge uma nova lógica para o futuro das operações empresariais.

Geopolítica
20 de setembro de 2026 08H00
A disputa geopolítica entre Estados Unidos e China, a transição energética e a corrida pela inteligência artificial estão redefinindo o equilíbrio global de poder. Nesse cenário, o Brasil reúne uma combinação rara de recursos estratégicos - energia limpa, minerais críticos e capacidade produtiva - que pode transformar sua posição internacional.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia. Mestre em Ação Política pela Universidad Rey Juan Carlos (2007). Ex-Diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal.

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
19 de setembro de 2026 14H00
A IA não está eliminando apenas empregos. Está eliminando a experiência. Se os profissionais juniores deixam de executar as atividades que historicamente os preparavam para desafios mais complexos, surge um problema silencioso para empresas e para o mercado de trabalho: onde serão desenvolvidos os talentos que ocuparão as posições de liderança e especialização nos próximos anos?

Matheus Fonseca - Fundador da Leapy

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Tecnologia & inteligencia artificial
19 de setembro de 2026 08H00
Profissionais de alto impacto já conseguem pesquisar, analisar, testar hipóteses e executar entregas com um nível de autonomia impensável há poucos anos. O problema é que muitas organizações ainda operam com estruturas, processos e planos de carreira desenhados para limitar exatamente esse potencial.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

Oferecido por:
8 minutos min de leitura
Liderança
18 de setembro de 2026 14H00
A crença de que tudo é urgente pode até transmitir sensação de velocidade, mas frequentemente produz o efeito oposto: queda de qualidade, esgotamento das equipes e perda de produtividade. Mais do que acelerar a execução, liderar exige coragem para definir prioridades, estabelecer limites e fazer escolhas conscientes sobre onde concentrar energia e recursos.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

Oferecido por:
2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de setembro de 2026 08H00
Depois de anos de investimentos em modelagem, capacitação e padronização, muitas empresas de engenharia enfrentam um novo desafio: fazer com que o BIM (Building Information Management) deixe de ser uma competência operacional e passe a influenciar a gestão, a integração entre áreas e a geração de valor para a organização.

Marcus Granadeiro - Membro do RICS - Royal Institution of Chartered Surveyors (MRICS) e sócio-diretor do Construtivo

Oferecido por:
3 minutos min de leitura
Vendas, Liderança
17 de setembro de 2026 15H00
Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.

Carol Manciola - CEO da Conectas e autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e do recém-lançado Vendas Movem o Mundo.

Oferecido por:
7 minutos min de leitura
Marketing
17 de setembro de 2026 13H00
As principais lições para quem está entrando no mundo das buscas generativas e quer entender como marcas passam a ser encontradas, citadas e recomendadas pelas IAs

Clayton Melo - Jornalista, estrategista de inovação, GEO PR, storytelling estratégico e comunicador de futuros. Tem MBA em Marketing pela FGV, Master em Foresight e Design de Futuros pela ESPM e formação em Leadership for the AI Age (MIT Professional Education) e Multimedia Storytelling pela University of the Arts London. É diretor de IA, Foresight e Inovação da GBR.

Oferecido por:
Direito, Regulação & Compliance
17 de setembro de 2026 08H00
Quando uma grande empresa entra em recuperação judicial, os impactos não ficam restritos ao seu balanço. Fornecedores deixam de receber, investimentos são adiados, empregos ficam ameaçados e a atividade econômica perde força, criando um efeito dominó que alcança empresas e consumidores em todo o país.

João Alberto Graça - Advogado, consultor em Direito Tributário, Societário e Governança Corporativa, membro do Conselho de Contribuintes e Recursos Fiscais do Estado do Paraná

Oferecido por:
5 minutos min de leitura
Liderança
16 de setembro de 2026 18H00
Ao observar a comunicação constante de um pequeno grupo de galinhas-d’angola, o autor encontrou uma metáfora surpreendente para um dos maiores desafios dos líderes: perceber, interpretar e responder aos sinais que as pessoas emitem antes que o silêncio, a desmotivação ou a ruptura se tornem irreversíveis.

Carlos Eduardo de Barros - Fundador e CEO da Cogntion & Business Consultoria, conselheiro de empresas e consultor em estratégia, governança e liderança

Oferecido por:
12 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de setembro de 2026 14H00
A área branca se tornou um ativo estratégico! Energia, refrigeração, distribuição elétrica e gestão térmica passaram a determinar quais infraestruturas conseguirão acompanhar a próxima geração da transformação digital.

Felipe Vasco da Silva - Diretor de Aplicações Tecnológicas para a América Latina da Vertiv

Oferecido por:
4 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução