Business content, Saúde mental

Saúde mental: como a síndrome de burnout impacta sua vida

A pandemia a amplificou, mas essa doença relacionada ao trabalho já estava presente nas empresas antes, fazendo as pessoas sentirem esgotamento físico e mental, e uma série de sintomas. O melhor tratamento? A prevenção
Editor de conteúdo multimídia para HSM Management, radialista, jornalista e professor universitário, especialista em comunicação corporativa, mestre em comunicação e inovação e doutorando em processos comunicacionais. Desde 2008, atua em agências, consultorias de comunicação e gestão para grandes empresas e em multinacionais.

Compartilhar:

Última atualização: 20/08/2021

Ansiedade antes de dormir. Dificuldade de acordar para ir trabalhar. Afastamento da empresa por 50 dias. Izabella Camargo, jornalista e palestrante, viveu tudo isso em 2018. E descobriu que tudo se devia à [síndrome de burnout](https://www.revistahsm.com.br/post/o-estado-mental-do-brasileiro-na-pandemia), uma doença que não estamos acostumados a identificar, definida no dia a dia como “estresse crônico relacionado com o trabalho que não foi administrado com sucesso”.

O burnout nem CID tem, ou seja, não figura na classificação estatística internacional de doenças da Organização Mundial da Saúde (OMS) e, por isso, seu tratamento não é coberto pelos planos de saúde. Mas será em breve: a partir de 2022, a síndrome passa a integrar a famosa lista. Ela combina sintomas bem próximos de outras doenças com CID, inclusive, como o transtorno de pânico, a síndrome de ansiedade e a depressão.

Agora, com a pandemia de covid-19, estima-se que aumente muito o número de pessoas com a mesma experiência de Camargo. Dados da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sobre os efeitos da pandemia e do isolamento físico sobre os brasileiros mostram, por exemplo, que os sintomas de ansiedade e depressão afetam 47,3% de trabalhadores de serviços essenciais no Brasil. E o pior: mais da metade deles (27,4% do total de entrevistados) sofre de ansiedade e depressão ao mesmo tempo.

Essas estatísticas não chegam a ser uma surpresa. Como explica a psicóloga Ana Paula Tognotti, o ser humano é naturalmente social e a simples suspensão dessa possibilidade de interação com o isolamento social já causa ansiedade. Tognotti atua no Zenklub, plataforma que conecta pacientes com prestadores de cuidados com a saúde emocional e o desenvolvimento pessoa. A plataforma, que atende pessoas e [empresas](https://www.revistahsm.com.br/post/o-papel-de-empresas-e-liderancas-na-saude-mental-organizacional), viu um aumento de 42% nas menções sobre síndrome de burnout nas sessões de terapia ante o mesmo período de 2020. “Quando não há diferenciação de espaço físico no home office, isso nos dá a sensação de que estamos 24 horas no trabalho, concentrados e produzindo.”

Tognotti observa, no entanto, que o trabalho remoto apenas agravou uma tendência que já era verificada no trabalho presencial. “No expediente presencial, muitas pessoas têm de fazer reuniões o dia inteiro, uma após a outra, e chegam ao final esgotadas, com a sensação de que não produziram nada”, explica ela.

Foi exatamente isso que aconteceu com Izabella Camargo, que teve seu burnout antes da pandemia, na rotina de trabalho presencial. “Não era falta de energia para o trabalho. Venho de uma família de agricultores que trabalham de segunda a segunda; a natureza exige muito trabalho. A diferença é que, na agricultura, o trabalho tem intervalos e eu não aprendi a fazer esses intervalos na minha vida profissional”, conta ela. Resultado? A bolsinha de remédios que Camargo carregava foi aumentando de tamanho, bem como da quantidade de consultas médicas marcadas em sua agenda.

## Duas histórias reveladoras

No dia 14 de agosto de 2018, Izabella Camargo estava apresentando a previsão do tempo no telejornal, como de costume, quando sentiu o coração disparar. Mãos e pés gelaram, o corpo todo passou a transpirar, a visão ficou turva – por pouco, ela não desmaiou ao vivo. O diagnóstico foi síndrome de burnout e saiu em licença médica, que durou até o final de outubro. A causa? Sempre há várias. Pode-se especular sobre pelo menos três: um trabalho de alta exposição, um cargo altamente concorrido (a competição para estar na frente das câmeras é ferrenha, como se sabe) e o excesso de vontade de abraçar muitos projetos interessantes ao mesmo tempo.

Cinco anos antes, em 2013, Nina Silva sentia algo parecido. “Eu procrastinava. Não tinha vontade de acordar, respirar, fazer minha meditação e ir ao trabalho. À noite, eu sentia que se aproximava um novo dia, que não era de esperança. E, no trabalho, se “boicotava”, diz. Seu pico de burnout foi resultado de dez anos de trabalho em uma atividade sujeita a mudanças aceleradas, tecnologia, e, naquele momento, numa organização em que não se sentia acolhida – e onde era, em boa parte do tempo, uma mulher negra entre muitos homens brancos. A saída que Nina encontrou para o problema foi demitir-se, fazer uma temporada de descompressão nos Estados Unidos, estudando literatura, e abraçar o ativismo social. Acabou fundando o movimento Black Money e o D’Black Bank, do qual é CEO.

Os casos de Silva e Camargo mostram que essa doença não chega de um dia para o outro ,os ambientes de trabalho vão “cultivando” o transtorno em seus funcionários, mesmo sem ter intenção de fazê-lo. E mostram que a doença também não vai embora de um dia para o outro. Camargo voltou ao trabalho após dois meses e meio de licença, por exemplo. Hoje ela enxerga com clareza o que aconteceu. “Eu achava que estava sendo resiliente, mas não. Eu estava é apelando para dar conta de um modelo de trabalho insustentável”, comenta.

Foi por essa conscientização que Camargo decidiu se tornar uma espécie de porta-voz de informações corretas sobre a doença. “O preconceito em relação à saúde mental traz estigmas e, para o doente, é tão ou mais doloroso que a doença.”

## Pilar estratégico dos negócios

O entendimento cada vez maior sobre o que é o burnout não deixa dúvida: a melhor ação, nesse caso, é a prevenção, que consiste de um trabalho mais amplo de construção de bem-estar e de habilidades emocionals. A empresa Revelo, uma startup que atua na área de recursos humanos, busca fazer justamente esse trabalho. Um indicador disso é o e-mail de integração que o colaborador recebe ao ingressar na companhia, que traz a saúde mental como um dos primeiro benefícios: “Seja bem-vindo, conheça o benefício Zenklub para aprender a cuidar de você.

A decisão de fazer isso, segundo a CMO da Revelo, Patrícia Carvalho, baseou-se no fato de que as notícias não são boas o tempo todo e as demandas são altas, e as pessoas precisam de ajuda para lidar com as duas coisas. E mesmo quando as notícias são boas, como no caso de crescimento acelerado, as demandas altas fazem com que as pessoas precisem de ajuda.

A empresa já oferecia o benefício Zenklub antes da covid-19, mas, com a pandemia, consultas virtuais ficaram mais comuns e mais necessárias. Isso porque o setor de tecnologia cresceu 25% – e muito rapidamente –, e a carga de trabalho na Zenklub, que atende muitas empresas de tecnologia, subiu proporcionalmente. “Antes de tudo, nosso colaborador precisa estar bem para lidar com isso”, explica a executiva-chefe de marketing. A taxa de colaboradores da Revelo que utilizam a plataforma é próxima de 60%; a prevenção já virou parte da cultura.

A adesão na Revelo não surpreende Rui Brandão, CEO do Zenklub. Quando as pessoas têm acesso a esses cuidados, elas querem se cuidar. “As organizações só precisam trabalhar o desenvolvimento comportamental e o bem-estar dos colaboradores, algo que é do seu interessse, porque [a mesma ferramenta de bem-estar é ferramenta de produtividade](https://www.revistahsm.com.br/post/saude-corporativa-beneficio-ou-estrategia)”, argumenta Brandão. Nas empresas que não tinham enxergado isso ainda, a pandemia está dando um empurrãozinho. “Com a pandemia, finalmente entendemos que perdemos controle do que acreditávamos controlar, diz o CEO.

Ficou evidente, ainda segundo Brandão, que a vulnerabilidade psicológica realmente independe de cargo, salário ou gênero. A coincidência de os casos aqui citados (de Izabella Camargo e Nina Silva) serem ambos do gênero feminino, inclusive, é atribuída ao fato de os homens falarem pouco do assunto, e não a uma predisposição maior das mulheres a esse ocorrência.

O Zenklub não foi pego despreparado para o crescimento rápido. Com cinco anos de existência, a empresa sabia que, mais dia, menos dia, a saúde emocional e o desenvolvimento pessoal iriam se transformar em um pilar de responsabilidade corporativa em um amplo grupo de empresas, um pilar tão importante quanto sustentabilidade e diversidade. Afinal, as empresas não querem continuar a ser percebidas como as [vilãs do estresse e da ansiedade](https://www.revistahsm.com.br/post/apenas-falar-de-saude-mental-nao-e-o-suficiente) em tempos de ESG – governança ambiental, social e corporativa.

Por que o desenvolvimento pessoal, de soft skills, que coaches oferecem na plataforma, ajuda no trabalho de prevenção? Pense no que fez Nina Silva em seu processo de startup – viajou para estudar literatura, começou a escrever poesia. E isso a fez superar a síndrome e achar um novo rumo profissional. Preventivamente, funciona melhor ainda. Todos os estudos de habilidade do trabalhador do futuro apontam para essas necessidade interpessoais e de comunicação. “As empresas precisam fornecer[ serviços de apoio para o desenvolvimento, não só para a saúde](https://www.mitsloanreview.com.br/post/desafios-da-pandemia-produtividade-e-colaboracao)”, conclui Brandão.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Tecnologia se compra. Liderança se constrói.

O artigo discute por que sucessão, desenvolvimento de lideranças e fortalecimento da cultura organizacional deixaram de ser temas de RH para ocupar o centro das decisões estratégicas e da competitividade empresarial.

Autonomia não é fazer sozinho

Empresas querem profissionais protagonistas, capazes de decidir e agir com independência. As pessoas querem mais confiança, voz e espaço para fazer escolhas. O desafio é que autonomia costuma significar coisas diferentes para cada lado dessa relação.

Quando pessoas inteligentes discordam, o problema pode não ser a informação

Em reuniões de conselho, comitês executivos e equipes de alta gestão, é comum que profissionais experientes analisem os mesmos dados e cheguem a conclusões completamente diferentes. Nem sempre isso é sinal de desalinhamento ou falta de informação. Muitas vezes, a divergência revela algo mais profundo: critérios distintos para avaliar riscos, oportunidades, prioridades e sucesso.

Cultura organizacional
3 de outubro de 2026 14H00
Uma promoção, uma nova função, um momento difícil ou uma fase de adaptação podem mudar temporariamente a performance de qualquer profissional. A questão é saber se as organizações conseguem enxergar essas oscilações como parte da trajetória humana ou se passam a avaliar pessoas apenas pelo resultado do momento.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

5 minutos min de leitura
Estratégia, Direito, Regulação & Compliance
3 de outubro de 2026 08H00
Em um momento em que a ONU afirma buscar a reconstrução da confiança internacional, o debate sobre a exclusão de Taiwan recoloca uma questão fundamental para a governança global: como defender representatividade, cooperação e direitos universais quando milhões de pessoas permanecem à margem de importantes fóruns internacionais? O artigo analisa as implicações jurídicas, geopolíticas e econômicas dessa controvérsia e seus impactos sobre a estabilidade global.

Márcio Coimbra - CEO da Casa Política e Presidente-Executivo do Instituto Monitor da Democracia

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
2 de outubro de 2026 14H00
Imagine carregar, em um único ambiente digital, diplomas, cursos, certificações e qualificações profissionais, todos verificáveis em segundos. O artigo explora como a combinação entre credenciais digitais, blockchain e identidade digital pode redefinir a forma como pessoas comprovam suas competências e como o país acompanha a evolução da educação e da empregabilidade.

Carolina Ferrés - Diretora POK Brasil

Oferecido por: POK
11 minutos min de leitura
Cultura organizacional
2 de outubro de 2026 08H00
Medo e pressão são ótimos para o resultado. Desde que você não precise das mesmas pessoas no trimestre seguinte.

Thais Requito - Palestrante, consultora e pesquisadora em saúde mental e trabalho sustentável

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Comunicação, Estratégia
1º de outubro de 2026 14H00
Palcos, entrevistas e redes sociais ampliam alcance, mas não constroem autoridade por si só. O artigo explora como empresas e executivos podem desenvolver influência genuína em um cenário em que a confiança se tornou mais pessoal, mais seletiva e cada vez mais vinculada à qualidade do pensamento que produzem e compartilham.

Caetano Tona - Fundador da Life Lab, TEDx Organizer e Professor de Comunicação na ESPM

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de outubro de 2026 08H00
A tecnologia está mudando a forma como criamos, trabalhamos e tomamos decisões. Mas existe uma diferença fundamental entre processar informação e acumular vivência. O artigo propõe uma reflexão sobre pensamento crítico, criatividade e o papel das chamadas “power skills” em um cenário onde a inteligência artificial amplia capacidades, mas não substitui experiências humanas.

Carol Martins - CEO da SOAP

Oferecido por SOAP
3 minutos min de leitura
Estratégia e Execução
30 de setembro de 2026 14H00
Poucos elementos são tão perigosos quanto um sistema que parece funcionar bem o suficiente para não ser questionado. No universo das parcerias, resultados de curto prazo podem mascarar desalinhamentos estratégicos, limitações de escala e modelos que já não atendem às necessidades futuras da empresa.

Juliana Tubino - Cofundadora do Ecossistema Octo e coautora do best-seller Ecossistema de Parceiros: Método Octo.

6 minutos min de leitura
ESG
30 de setembro de 2026 08H00
Dados recentes mostram uma queda significativa na representação de grupos historicamente sub-representados na comunicação das empresas. Mais do que uma questão de imagem, a mudança reacende discussões sobre consistência, coragem institucional e a capacidade das marcas de sustentar seus valores quando eles deixam de ser consenso.

Dilma Campos - Copresidente da Mark Up

3 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 14H00
Dois jovens iniciaram a carreira no mesmo programa de trainees, com formações semelhantes e perspectivas promissoras. Trinta anos depois, vivem realidades profissionais e financeiras muito diferentes. A partir dessa história, o artigo propõe uma reflexão sobre como empresas podem contribuir para trajetórias mais sustentáveis e equitativas ao longo de toda a vida.

Fran Winandy - CEO da Acalântis Services, Consultora, Palestrante e Professora nas áreas de Diversidade Geracional, Etarismo e Longevidade

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
29 de setembro de 2026 08H00
Enquanto algumas organizações reduzem contratações de profissionais em início de carreira graças aos ganhos de produtividade proporcionados pela inteligência artificial, outras fazem exatamente o oposto e ampliam seus programas de formação. O motivo é simples: toda vaga júnior eliminada hoje pode se transformar em uma escassez de profissionais experientes amanhã.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução