Inovação & estratégia
5 minutos min de leitura

Segmentação de mercado antes, IA depois

Antes dos agentes, antes da IA. A camada do pensamento analógico
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Compartilhar:


Antes dos agentes e muito antes da IA, segmentação de mercado continua sendo uma disciplina analógica, que exige pensamento multidimensional e hipóteses sólidas, não apenas ferramentas.

O trabalho real envolve lidar com dados frágeis, integrar camadas estruturadas e não estruturadas, e interpretar tensores de informação que revelam oportunidades e assimetrias competitivas. Este artigo trata justamente dessa camada anterior à automação: a clareza conceitual que líderes precisam recuperar antes de tentar saltar para a cultura algorítmica.

Tratando de segmentação de mercado, não conheci um caso realmente bem relatado no Brasil.

Se, em um nível mais simplista, pensamos em matrizes clássicas, como BCG ou McKinsey, o exercício de segmentação real é muito mais complexo. Em certos contextos, chega a se aproximar do funcionamento de um tensor: múltiplas dimensões, dependências cruzadas, pesos distintos, temporalidade e fatores contextuais que mudam o significado dos dados conforme o eixo analisado.

Pensar como um tensor é praticar “model thinking”, o que continua sendo, antes de tudo, uma disciplina analógica. Exige cérebro, não máquina.

O desafio é necessariamente multidisciplinar, e aí que está o sofrimento de executivos que gastam muito tempo com times imaturos.

Mesmo quando os operadores do negócio conseguem trazer dados quantitativos de ERP, CRM ou de relatórios setoriais (que, no Brasil, ainda são escassos e, não raro, metodologicamente frágeis), o conjunto de informações precisa ser normalizado. Esse processo demanda um conjunto adicional de competências: conhecimento estatístico, técnicas de limpeza de dados, noções de sampling, modelagem dimensional e até lógica de sistemas para evitar colinearidades e redundâncias.

Quando se adicionam dados desestruturados, o desafio se amplifica. Isso inclui desde um sentiment analysis mais sofisticado até insumos qualitativos vindos de equipes de campo, gravações de clientes ou informações mineradas de fontes terceiras.

Nesses casos, o problema não se limita à normalização: envolve interpretar, validar, reduzir ruído e converter linguagem natural em estruturas que possam dialogar com dados transacionais. É epistemológico, não apenas técnico.

A segmentação séria não é uma mera fotografia do mercado. Ela plota e sobrepõe (overplot) múltiplas camadas: dados de recursos humanos estratégicos (tanto internos quanto dos concorrentes), histórico de aquisição de ativos, maturidade tecnológica, receitas e margens, elasticidade de precificação, movimentos de mídia, opinião pública, além de mapas de ecossistema e da posição real dos players.

Uma boa segmentação revela receitas não obtidas, erros de posicionamento, falhas de precificação, clusters ignorados, assimetrias entre capacidade e discurso e até movimentos sutis de concorrentes que passam despercebidos nas instâncias táticas.

Todo esse processo exige outras competências igualmente essenciais: modelagem de datasets, domínio de tabelas relacionais, uso de linguagens de manipulação (como SQL, Python ou R), estatística básica e aplicada, técnicas de visualização, clustering, análise de similaridade e, sobretudo, capacidade de formular hipóteses. Sem hipóteses, não há segmentação. Há apenas ordenação de tabelas.

Na chamada era dos agentes (já se fala em década dos agentes), surge um arsenal complementar que pode apoiar esses processos.

Agentes capazes de limpar e normalizar dados, agentes de web scraping para enriquecer informações, agentes que classificam e etiquetam conteúdos usando LLMs como rotuladores, agentes de automação estatística aptos a executar clustering, PCA ou análises de churn, agentes de reconciliação de bases que resolvem problemas de deduplicação e matching probabilístico, além de agentes de simulação competitiva, capazes de testar cenários de elasticidade, movimentos de preço ou reações de players.

Em último caso (e não no primeiro como pensa o líder fora do centro tecnológico), entra o RAG.

Esse artigo poderia citar agentes disponíveis no ecossistema para uso imediato, mas trata de fato da capacidades que são anteriores à automação.

Antes de qualquer automação, existe o conhecimento basal: compreender realmente a disciplina de segmentação, conhecer princípios de comportamento de mercado e ter clareza dos modelos de informação que geram insights estratégicos para direcionar portfólio, capacidade produtiva e vantagem competitiva. Nenhuma GPU, por mais poderosa, substitui essa clareza conceitual.

E essa clareza não é, necessariamente, uma responsabilidade exclusiva da TI, do CTO ou das equipes de marketing  (entendendo marketing aqui segundo a definição da American Marketing Association).

Segmentação é um trabalho que pertence a líderes multidimensionais, capazes de transitar entre estratégia, operação, dados, comportamento e finanças com igual naturalidade.

A pergunta provocativa permanece: esses líderes existem na perspectiva analógica, antes da automação?

Muitas empresas tentam saltar diretamente da cultura subjetiva para a cultura algorítmica, sem construir a cultura metodológica intermediária, e essa é uma das fontes silenciosas de fracasso nesse momento.

Há literatura robusta sobre segmentação e, vale dizer, ela exige musculatura intelectual.

Gosto de Malcolm McDonald e Ian Dunbar, em “market segmentation” – vale conferir Strategic Marketing Expert | Malcolm McDonald.

Volto a citar Peter Fader, trazendo uma visão mais financeira e de precificação em “The Customer-Base Audit”.

Obviamente esses dois trabalhos dão um “glimpse” do pensamento por trás da ideia estruturada.

Finalmente, duas observações.

Primeiro, o que acabo de escrever não é algo que o ChatGPT, mesmo sendo um modelo “generativo”, produziria espontaneamente.

LLMs não fazem assunções implícitas com assuntos cruzados, nem articulam camadas disciplinares cuja conexão depende de repertório humano e não foram propostas antes. Elas respondem a partir de corpora “antigo”, não sintetizam paradigmas sozinhas.

Segundo, as escolas de negócios tradicionais não ensinam esse tipo de pensamento. E não ensinam porque não foram desenhadas para isso.

Seu público-alvo são gerentes em trajetória ascendente, não líderes executivos.

Essa escassez de conhecimento para alta liderança se “explica”: decorre do fato de que eles não fazem volume suficiente para justificar o modelo de negócio da educação empresarial.

Líderes executivos estão carentes de reposição de matriz de conhecimento na era do “continuing learning”.

É o paradoxo do nosso tempo.

Compartilhar:

Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Artigos relacionados

Sua empresa precisa de um cargo ou de uma competência?

Enquanto muitas empresas ainda estruturam suas decisões de contratação a partir de cargos e organogramas, um novo modelo ganha espaço: acessar especialistas, mentores e executivos sob demanda para resolver desafios específicos de negócio. O artigo mostra como o Open Talent está redefinindo a gestão de pessoas e criando formas mais ágeis de conectar competências às necessidades reais das organizações.

O que CEOs e CFOs realmente avaliam nas reuniões de orçamento

Toda discussão sobre orçamento coloca duas perguntas na mesa ao mesmo tempo: por que investir nesta iniciativa e por que confiar no julgamento de quem a propõe? Ao explorar a lógica por trás das decisões de alocação de recursos, o artigo revela por que as negociações orçamentárias são também um dos mais importantes testes de liderança nas organizações.

Quando a geopolítica entra pela porta da empresa

Em um ambiente descrito por pesquisadores como polarizado, líquido, tenso e hiperconectado, liderar deixou de significar apenas definir direções. O desafio agora é criar culturas capazes de transformar complexidade em diálogo, ambiguidade em aprendizagem e mudanças constantes em capacidade de adaptação. O artigo discute por que essa pode ser uma das competências mais estratégicas da liderança contemporânea.

Bem-estar & saúde
20 de julho de 2026 07H00
Quase 80% dos trabalhadores sentem culpa ao tirar férias e muitos continuam respondendo mensagens durante o período de descanso. O artigo discute como essa cultura afeta pessoas e organizações e por que líderes precisam dar o exemplo para transformar a relação com o descanso.

Tatiana Pimenta - Fundadora e CEO da Vittude e autora do livro “Saúde mental é inegociável”

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 14H00
WhatsApp, redes sociais, chats e inteligência artificial mudaram a forma como as empresas se relacionam com seus clientes. O desafio agora não é apenas responder mais rápido, mas transformar cada interação em uma oportunidade de fortalecer confiança, reputação e valor de marca.

Edson Alves - CEO da Ikatec

3 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
19 de julho de 2026 08H00
Pensamento estratégico, julgamento humano, curadoria de ferramentas digitais, desaprendizagem contínua e construção de significado despontam como as competências que diferenciarão profissionais em uma era em que inteligência e execução estão cada vez mais distribuídas entre pessoas e máquinas.

Denis Caldeira - CEO da Caldeira Growth e autor de "Cresça ou Desapareça"

8 minutos min de leitura
Empreendedorismo, Cultura organizacional, User Experience, UX
18 de julho de 2026 14H00
À medida que os eventos se consolidam como ferramentas de cultura, engajamento e construção de relacionamentos, a escolha dos destinos deixa de ser uma decisão operacional. Este artigo explora como experiências, conexões humanas e identidade local estão redefinindo o papel dos encontros corporativos e transformando cidades em plataformas de desenvolvimento econômico e cultural.

Aziz Camali Constantino - Idealizador e cofundador do Oxigênio Ilhabela

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
18 de julho de 2026 07H00
Enquanto a maioria das empresas não pode se dar ao luxo de substituir sistemas críticos da noite para o dia, startups vêm assumindo um papel estratégico na construção de uma transformação tecnológica mais rápida, modular e segura.

Philippe Rosa - Diretor de Inovação e Novos Negócios da TQI e líder do TQI Ventures

3 minutos min de leitura
Lifelong learning, Tecnologia & inteligencia artificial
17 de julho de 2026 13H00
Ferramentas de IA já produzem textos, avaliações, vídeos e conteúdos em segundos. Mas a transformação mais importante talvez não esteja na velocidade da produção, e sim na capacidade de redesenhar experiências de aprendizagem que desenvolvam pensamento crítico, prática, feedback e autonomia humana.

Daniel Luzzi - Fundador e CEO da Cognita Learning Lab

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
17 de julho de 2026 08H00
A sensação constante de apagar incêndios não é apenas um problema de produtividade. Este artigo mostra por que organização, gestão da agenda e definição de limites são competências essenciais para preservar desempenho, reduzir o esgotamento e recuperar o controle sobre a própria rotina profissional.

Rubens Pimentel - CEO da Trajeto Desenvolvimento

2 minutos min de leitura
Marketing & growth, Estratégia
16 de julho de 2026 14H00
Copa do Mundo, Olimpíadas, Super Bowl ou Black Friday: toda vez que a atenção coletiva se concentra em um grande evento, o mercado de mídia muda de comportamento. Entender esse movimento pode ser a diferença entre capturar demanda reprimida ou pagar, mais uma vez, o preço do improviso.

Rafael Mayrink - Empresário, sócio do Neil Patel e CEO da NP Digital Brasil

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
16 de julho de 2026 08H00
Robôs humanoides deixaram de ser protótipo e entraram em produção comercial em série. Enquanto conselhos ainda debatem a IA generativa, a automação física avança sem esperar. O atraso não aparece no balanço, mas se acumula como dívida de reação.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner, Embaixador e membro do Senior Advisory Board do Instituto Capitalismo Consciente Brasil. Embaixador e Membro da Comissão ESG da Board Academy BR.

10 minutos min de leitura
Empreendedorismo
15 de julho de 2026 15H00
Construído sobre a área que durante décadas abrigou a fábrica e a recreativa da Tigre, o Cidade das Águas nasceu de uma pergunta pouco comum ao mercado imobiliário: antes de erguer torres, que tipo de bairro vale a pena construir?

Sandra Regina da Silva - Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios

12 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #173

A Geoeconomia entra no mundo corporativo