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Surfar e mergulhar

Conheça processos de aprendizado que podem fortalecer o pensamento estratégico em sua empresa
é presidente da Sloan International e autora de Learning to Think Strategically. Este artigo foi adaptado de um trecho do livro, com permissão de Taylor & Francis Books UK.

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Não é surpresa para ninguém que a natureza imprevisível do ambiente em que os executivos atuam hoje demanda um raciocínio cada vez mais ágil. Diante disso, proponho uma visão nova sobre as diferenças entre o pensamento tradicional, mais linear, e a abordagem “esportiva” que se requer hoje em dia: “surfar”e “mergulhar”.

**SURFAR**

A ideia de surfar está relacionada com o aprendizado que acontece na superfície. Trata-se de dar sentido ao que vemos, com base em dados e fatos, e criar uma série de respostas e ações suficientemente claras. Implica o aprendizado de coisas de fácil compreensão e é instrumental. A jornada é relativamente segura. 

**MERGULHAR**

O conceito de mergulhar, por sua vez, exige nos aprofundarmos abaixo da superfície. Trata-se  de dar sentido aos dados e, com base em informações, experiências e situações, chegar a nossas próprias conclusões. Implica explorar o desconhecido, o território onde faltam respostas, cujas fronteiras não estão claras. A aventura do conhecimento parece indefinida (e, assim, mais arriscada).

No surfe, o aprendizado se baseia no  conceito de que saber “o quê” e “como” nos possibilita resolver problemas. Isso porque controlamos nosso ambiente agindo sobre ele.  No ambiente organizacional, esse domínio  está relacionado com as atividades do  dia a dia, mais transacionais. Quando surfamos, fazemos previsões sobre fatos observáveis (que podem se mostrar corretas ou incorretas), estabelecemos relações de causa e efeito e solucionamos problemas. O porém é que, em um ambiente caracterizado pela incerteza, o pensamento estratégico reduzido a um modelo do tipo “surfar” acaba aprisionando e dificultando a criação de valor.

O mergulho serve como contrapeso à  visão reducionista do surfe, uma vez que  convida todos a identificar, testar,  desafiar, refinar e, possivelmente,  alterar os parâmetros de referência. Com frequência, embarcamos em soluções  sem examiná-las criticamente, testando ou desafiando seus parâmetros. Adotar avidamente soluções prematuras tende a reforçar os mesmos tipos de pensamento, descartando as opiniões criativas ou divergentes. O aprendizado baseado no mergulhar exige que  se expandam ou se mudem os parâmetros de referência. Divergências e oposições podem ser gatilhos especialmente úteis para esse tipo de aprendizado, por provocarem a reflexão crítica, a investigação e o diálogo. O resultado pode ser uma mudança mínima ou, no outro extremo, uma transformação total.  

> No ambiente organizacional, os profissionais que se dedicam a pensar a estratégia podem escolher qual dos dois tipos de aprendizado empregar. O nome que se dá a cada um deles não é importante: o que faz diferença é desenvolver as capacidades cognitivas necessárias para explorar as diferentes opções, a fim de apoiar os requisitos da estratégia.
>
> Essa contraposição entre surfar e mergulhar ecoa no conceito de “aprendizado transformador”, do sociólogo Jack Mezirow, especialista em educação de jovens e adultos [e também em Paulo Freire].

**O PAPEL DOS PARÂMETROS NA  ELABORAÇÃO DA ESTRATÉGIA**

A maneira pela qual estruturamos determinado assunto ou fato define a que estamos dando mais atenção. De todo lugar a que vamos na vida, saímos com um conjunto de parâmetros mentais que influenciam a forma de estruturar nosso pensamento. As organizações também possuem seus parâmetros, que ensinam, reforçam, recompensam e aplicam nas reuniões sobre estratégia, tanto formal como informalmente. 

Esses parâmetros são passados adiante por meio de protocolos, políticas corporativas e canais de comunicação e contribuem para a interpretação subjetiva dos acontecimentos. Por exemplo, pode-se olhar uma atividade pelo parâmetro funcional ou enxergar o mesmo problema pela perspectiva econômica, em que todas as decisões são avaliadas de acordo com seu custo e valor financeiro para os negócios. Várias rodadas de perguntas sobre dados, posições e recomendações a respeito dos problemas estratégicos, assim como a escuta atenta, acompanhada de investigações adicionais, podem ser valiosas para identificar e explicitar parâmetros escondidos e pressupostos subjacentes.

**PROBLEMA:** Temos a tendência de reunir dados que se encaixam nos parâmetros existentes ou habituais, o que perpetua as mesmas estruturas de pensamento. 

Veja 3 erros que devem ser evitados:

**Erro 1 -** **Restringir o grupo que lida com a estratégia**

Limitar as discussões de estratégias a um pequeno e seleto grupo é uma tentação; é mais fácil reunir cabeças semelhantes e excluir aquelas cujos parâmetros possam ser significativamente diferentes

Um líder, no entanto, tem de resistir à tentação. Você deve identificar as ideias habituais das reuniões de estratégia e buscar outras referências e estruturas de pensamento que podem ser valiosas e têm sido excluídas.

![](https://revista-hsm-public.s3.amazonaws.com/uploads/b533bfe3-4e12-48a2-b33d-cbd2863d2ff3.jpeg)

**Erro 2 – Cercar-se de profissionais leais com pensamentos semelhantes**

É claro que a lealdade tem de ser recompensada. Mas deve ser também desafiada. Se a lealdade a uma pessoa, a um produto, a uma marca ou a uma organização leva ao reforço das mesmas estruturas de pensamento, isso tende a afetar negativamente a discussão da estratégia. 

É possível observar esse ponto de vista estreito em  muitas situações, especialmente em épocas de urgência e desespero, quando os executivos estão freneticamente em busca de novas estratégias. A lealdade  bem-intencionada mas cega sabota o  pensamento estratégico.

> A capacidade de  surfar e mergulhar  ao mesmo tempo  diferencia os  pensadores estratégicos  mais poderosos  do restante.

**Erro 3 – Chegar a falsas mudanças de parâmetros**

Isso acontece quando se acredita  que uma transformação ocorreu, mas, na verdade, é apenas uma ilusão. Algumas vezes, ficamos tão encantados com a participação em uma reunião sobre estratégia que não prestamos atenção à real variedade  de pontos de vista à mesa ou ao grau  de envolvimento genuíno.

**Agora, veja algumas sugestões para estimular a mudança de estrutura de pensamento e, como resultado, o aprendizado  baseado em mergulhar:**

• Varie a composição dos grupos dedicados às discussões estratégicas para aumentar a exposição a novos parâmetros. 

• Mude o local das reuniões para criar um elemento-surpresa. 

• Convide pessoas de fora da empresa ou do grupo de discussão estratégica para trazer diálogos e apresentações provocadores. 

• Interaja com pessoas comuns, que não são especialistas em seu setor de atividade, e também com acadêmicos, políticos, profissionais de outros campos de atuação, pessoas de diferentes idades, de extremos da pirâmide social e de grupos étnicos e culturais diversos do seu. 

• Ao participar de reuniões sobre estratégia, registre os parâmetros representados à medida que os vários pontos de vista são apresentados. 

• Observe se falta algum ponto de vista que pode agregar valor à discussão da estratégia.

É impressionante o número de executivos com atuação mundial que desenvolveram ou estão desenvolvendo negócios nos mercados emergentes e não possuem sequer um conhecimento rudimentar (ou mesmo interesse) sobre referências históricas, culturais, sociais, militares ou políticas daquelas regiões. 

Eles não apenas são ignorantes em relação a essas referências, como afirmam que elas são irrelevantes e supérfluas. O fato é que incluir dados e pontos de vista diversos nos diálogos sobre estratégia se torna cada vez mais essencial para manter a vantagem competitiva. Ignorar parâmetros que não os próprios faz com que surjam pontos cegos com impacto danoso sobre os negócios no longo prazo.

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