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Villain Era: a oportunidade das marcas para escutar quem cansa de agradar

Com milhares de publicações nas redes sociais, a villain era tornou-se uma forma de nomear um movimento cada vez mais presente entre mulheres: abandonar a obrigação de agradar constantemente e sustentar escolhas, opiniões e limites sem culpa. O artigo discute o que esse fenômeno revela sobre expectativas sociais, relações de trabalho e construção de autonomia.
Sócia e Diretora de Consumer Behavior & Estratégia da FutureBrand São Paulo, agência de branding, design, cultura organizacional e consumer behaviour. Socióloga de formação e curiosa por natureza, atua como pesquisadora há mais de quinze anos, com um amplo repertório de metodologias e técnicas. Acredita que ter um olhar atento e ouvir as pessoas permite construir marcas mais conectadas com a sociedade e, portanto, à prova de futuro. É por esse motivo que sua motivação é ser a ponte entre as pessoas e os negócios.

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No TikTok, a expressão ‘villain Era’ ganhou força como uma forma bem-humorada de descrever um movimento cada vez mais presente entre mulheres: parar de agradar o tempo todo, sustentar limites, tomar decisões sem pedir desculpas constantemente e priorizar as próprias necessidades. Com mais de 68 mil vídeos publicados com a hashtag, a tendência rapidamente ultrapassou o universo das redes sociais e se transformou em uma linguagem para nomear um desejo coletivo menos glamouroso do que parece: o de não precisar ser palatável o tempo inteiro.

O sucesso do termo revela algo que vai muito além de uma moda digital. A chamada ‘villain Era’ surge como resposta a cultura em que agradar continua funcionando menos como traço de personalidade e mais como mecanismo de adaptação social. Dados da YouGov mostram que 69% das pessoas afirmam colocar as necessidades dos outros à frente das próprias com alguma frequência. Além disso, 29% dizem fazer grandes esforços para evitar conflitos de forma recorrente. Em um contexto como esse, estabelecer limites ainda pode ser interpretado como um gesto de ruptura.

Por isso, a relevância da ‘villain Era’ está menos em sua estética e mais no que ela expõe. O fenômeno joga luz sobre o desconforto social que ainda acompanha atitudes de autopreservação, especialmente quando elas partem de mulheres.

Essa percepção também aparece no ambiente profissional. Segundo o relatório Women @ Work 2025, da Deloitte, metade das mulheres sente que sua voz não é levada a sério no trabalho. Muitas afirmam calibrar o que dizem com base em como acreditam que serão percebidas, enquanto apenas uma em cada dez acredita que haveria uma resposta efetiva diante de uma denúncia ou problema formalizado. Quando o ambiente social ou corporativo penaliza quem causa desconforto, impor limites pode parecer excessivo, mesmo quando é necessário.

Nesse contexto, torna-se compreensível que muitas mulheres ainda demonstrem receio ao defender seus próprios interesses. Uma pesquisa qualitativa realizada pela FutureBrand identificou esse sentimento de forma recorrente: embora exista um esforço crescente para sustentar opiniões e decisões com mais firmeza, permanece a preocupação com a forma como essas atitudes serão interpretadas pelos outros.

O resultado revela uma tensão comum. De um lado, há o desejo de se posicionar de maneira mais assertiva; de outro, o medo de julgamentos e rótulos negativos. Nesse sentido, a chamada “villain era” não está necessariamente relacionada ao comportamento em si, mas à maneira como atitudes de autopreservação e estabelecimento de limites ainda são percebidas socialmente.

É justamente por isso que ela não celebra a falta de empatia ou o individualismo extremo. Seu significado cultural está em evidenciar que atitudes básicas de autopreservação ainda podem ser vistas como desvios de comportamento quando desafiam expectativas sociais historicamente construídas.

Para as marcas, esse movimento representa uma oportunidade de leitura cultural importante. O desafio não está em romantizar ou estetizar a figura da “vilã”, mas em compreender o desgaste emocional que existe por trás desse comportamento.

Um exemplo relevante é a campanha Dream Crazier, da Nike. O filme parte de um repertório familiar para muitas mulheres: a tendência de classificar como “dramáticas”, “emocionais” ou “loucas” aquelas que demonstram ambição, intensidade ou inconformismo. Em vez de evitar esses rótulos, a campanha os coloca no centro da narrativa para mostrar como características frequentemente valorizadas em homens,  como liderança, competitividade e determinação, ainda são recebidas de maneira diferente quando expressas por mulheres.

O mérito da campanha está justamente em revelar esse filtro cultural. Mais do que falar sobre esporte ou performance, ela questiona por que a ocupação de espaços de poder e a demonstração de ambição continuam gerando desconforto quando fogem dos comportamentos socialmente esperados.

No fim, a popularidade da ‘villain era’ talvez revele menos a vontade de ser vista como má e mais o cansaço coletivo diante da obrigação constante de agradar. Afinal, quando colocar-se em primeiro lugar passa a ser interpretado como um ato de rebeldia, vale a pena perguntar: estamos falando de vilania ou apenas da frustração de quem já não ocupa o centro das decisões?

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