ESG
6 minutos min de leitura

35 anos da Lei de Cotas: por que a inclusão ainda não virou estratégia de negócio?

Este artigo mostra por que a inclusão de pessoas com deficiência ainda não evoluiu de obrigação legal para estratégia de negócio nas organizações brasileiras.
CEO e fundadora do Grupo Talento Incluir.

Compartilhar:

No dia 24 de julho, a Lei de Cotas para pessoas com deficiência completa 35 anos no Brasil. Criada em 1991, a Lei nº 8.213 foi uma resposta necessária a um mercado de trabalho historicamente excludente e segue, até hoje, como a principal política pública para a entrada das pessoas com deficiência no emprego formal. Não é privilégio. Trata-se de uma ação afirmativa com objetivo de fazer uma reparação histórica.

Ainda assim, três décadas e meia depois, os dados mostram que avançamos pouco e, em muitos aspectos, seguimos presos à lógica da inclusão por obrigação e não por convicção. A Lei de Cotas precisa ser encarada como um chamado à maturidade do mercado de trabalho brasileiro.

Atualmente, apenas 54% das vagas previstas pela Lei de Cotas estão efetivamente ocupadas no país, segundo dados do Ministério do Trabalho e Emprego. Isso significa que quase metade das oportunidades que deveriam garantir o direito ao trabalho para pessoas com deficiência seguem vazias.

Por definição conceitual, toda ação afirmativa nasce para ser uma medida transitória. O propósito de uma cota é criar um impulso artificial em um mercado distorcido para que, no futuro, a inclusão aconteça de forma orgânica e a lei se torne obsoleta. No entanto, ao celebrarmos os 35 anos da Lei de Cotas, a verdade é que não temos a menor pista de quando ela deixará de ser necessária.

O cenário se torna ainda mais grave quando observamos o contexto geral da empregabilidade. O Brasil tem hoje mais de 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população, segundo o Censo 2022. Esse dado é muito questionável ainda. Talvez, esse seja o menor número de pessoas com deficiência já registrado em uma pesquisa de Censo. O número está muito abaixo da média mundial apontada pela OMS, que estima que 16% da população global (cerca de 1,3 bilhão de pessoas) vive com algum tipo de deficiência.

No entanto, menos de um terço dessas pessoas está efetivamente ocupada no mercado de trabalho. Ainda que a contratação formal tenha crescido nos últimos anos, chegando a 634,6 mil pessoas com deficiência ou reabilitadas empregadas formalmente em janeiro de 2026, 93,58% dessas contratações estão concentradas em empresas obrigadas a cumprir a Lei de Cotas. Ou seja, fora da obrigação legal, a inclusão praticamente não acontece.

Esses dados mostram que o problema não está na falta de profissionais. O país conta com 7,3 milhões de pessoas com deficiência ou autismo em idade ativa, número suficiente para preencher mais de sete vezes todas as vagas previstas em lei. O entrave segue sendo estrutural: empresas que contratam para cumprir a cota, mas não se responsabilizam pela construção de ambientes acessíveis, inclusivos e preparados para garantir permanência e desenvolvimento profissional.

A própria percepção das pessoas com deficiência confirma essa realidade. A pesquisa Radar da Inclusão 2025 revela que, para 96%das pessoas com deficiência entrevistadas, a Lei de Cotas é um impulso fundamental para a empregabilidade e deve continuar existindo. O mesmo percentual (96%) afirma que o governo precisa fiscalizar de forma mais rigorosa para garantir que a legislação seja, de fato, cumprida pelas empresas.

Ao mesmo tempo, os dados escancaram uma verdade incômoda: 95% dos respondentes acreditam que as empresas só contratam pessoas com deficiência porque são obrigadas pela Lei de Cotas. E mais: 89%afirmam que, mesmo quando contratam, as empresas não oferecem condições ideais de trabalho, como acessibilidade, desenvolvimento profissional, oportunidades de crescimento e ambientes livres de capacitismo.

A pergunta que as lideranças das empresas deveriam se fazer não é ‘como bato a cota este mês?’, mas sim ‘o que minha empresa está fazendo para que as cotas não precisem existir daqui a uma década?’.

A resposta talvez possa ajudar  a resolver um dos desafios que a pesquisa apontou:   67% das pessoas com deficiência da pesquisa nunca foram promovidas, mesmo com tempo de casa superior a três anos na maioria dos casos. Além disso, 56% relatam que barreiras de acessibilidade já impactaram diretamente seu desempenho e bem-estar no trabalho. Estar empregado, para a maioria, ainda não significa ter um trabalho digno. O que as empresas estão fazendo para tirar essas barreiras e tornar o processo de inclusão uma iniciativa natural, sem que ocorra apenas por imposição da lei?

Por isso, é fundamental reforçar: a inclusão de pessoas com deficiência precisa partir da pessoa, e não da cota. A cota é um instrumento legal, não um projeto de inclusão. Quando a empresa entende a pessoa apenas como um número a ser preenchido, reduz talentos, histórias e potencial humano a uma obrigação burocrática. Isso não transforma culturas, não gera inovação e não fortalece negócios.

Desde que a Lei de Cotas foi criada, é inegável que ela possibilitou avanços importantes. Sem ela, a presença de pessoas com deficiência no mercado formal seria ainda menor. Porém, é inegável que pouca coisa evoluiu no modelo de inclusão praticado pelas empresas. A lei segue sendo a principal porta de entrada, mas raramente se transforma em porta de permanência, desenvolvimento ou liderança.

Defendo, com convicção, que a Lei de Cotas é essencial e deve ser preservada. Mas, ela não pode continuar sendo o único motor da inclusão. Empresas que desejam ser sustentáveis, inovadoras e competitivas precisam compreender que incluir pessoas com deficiência não é caridade nem custo operacional. É uma decisão estratégica que impacta cultura organizacional, diversidade de pensamento, inovação, reputação de marca e resultados de negócio.

A inclusão por convicção acontece quando a empresa se prepara: investe em acessibilidade em todas as suas dimensões, revisa processos, forma lideranças, combate o capacitismo estrutural e cria condições reais para que pessoas com deficiência se desenvolvam profissionalmente com equidade. É nesse ponto que a inclusão deixa de ser obrigação legal e passa a ser valor incorporado à gestão.

Ao completar 35 anos, a Lei de Cotas não deve ser lembrada apenas como um marco histórico. Cumprir a lei é o mínimo. O verdadeiro desafio é ir além dela.

Porque a inclusão não é sobre preencher vagas. É reconhecer pessoas como talentos, garantir dignidade no trabalho e construir organizações que não precisem ser obrigadas a fazer o que já deveria ser natural. A Lei de Cotas segue há 35 anos sendo a única porta de entrada das pessoas com deficiência no trabalho porque, infelizmente, o mercado não construiu outra!

Compartilhar:

Artigos relacionados

Por que sua lista de tarefas explode

Organizações não estão falhando por falta de esforço, estão falhando por fazer coisas demais ao mesmo tempo. Este artigo reforça que o verdadeiro papel da liderança não é multiplicar tarefas, mas definir o problema certo e simplificar a execução.

Para quem tem martelo, tudo é prego

Quando a IA vira solução antes de existir o problema, o resultado tende a ser irrelevante. Este artigo mostra por que o erro das empresas não está na tecnologia, mas na ordem das decisões

Estratégia, ESG
28 de maio de 2026 08H00
Este artigo mostra como o mercado voluntário de carbono foi da narrativa ambiental para a lógica de investimento - e por que empresas que ainda tratam o tema como reputação estão ignorando uma nova infraestrutura de valor global.

Eduardo Joaquim da Silva - Coordenador do Comitê Estratégico e Expansão de Negócios da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Liderança, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
27 de maio de 2026 17H00
Este artigo traz um compilado dos principais insights que emergiram da edição do ATD Summit 2026. Realizada em Los Angeles, entre os dias 17 e 20 de maio, as reflexões desse evento global precisam entrar, com urgência, na agenda de líderes e organizações.

Daniel Spinelli - Consultor especialista em liderança, Palestrante Internacional e Mentor

7 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
27 de maio de 2026 14H00
Ao propor o conceito PACE, este artigo argumenta que a inteligência artificial não apenas intensificou o caos, mas criou uma nova infraestrutura de ação - deslocando o foco da sobrevivência para a capacidade de operar, decidir e criar valor em um mundo reprogramável.

Leonardo Tristão - CEO da Performa_IT e membro do Conselho de Administração da IMA

13 minutos min de leitura
Liderança, Cultura organizacional
27 de maio de 2026 08H00
A crise do trabalho não é de esforço - é de estrutura. Este artigo mostra que nunca se investiu tanto em produtividade, e nunca o trabalho pareceu tão insustentável.

Tiago Amor - CEO na Lecom

3 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
O problema das govtechs não é a burocracia - é tratar o governo como cliente quando ele deveria ser parceiro.

Luiz Costa - Gerente de Inovação da Dome Ventures e Lincoln Ferdinand - Gerente de Marketing da Dome Ventures

3 minutos min de leitura
Estratégia, Bem-estar & saúde, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
26 de maio de 2026 07H00
Ao criticar abordagens superficiais e reativas, este artigo mostra por que cumprir a norma não basta - e como organizações precisam ir além do diagnóstico de risco para construir, de fato, ambientes que sustentem o florescimento humano.

Miguel Nisembaum - Sócio da Mapa de Talentos, gestor da comunidade de aprendizagem Lider Academy e professor

11 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia
25 de maio de 2026 17H00
Diante da crescente complexidade dos negócios, este artigo propõe uma mudança estrutural: sair de modelos organizacionais fragmentados para desenvolver a nexialidade - a capacidade de conectar inteligências, integrar decisões e operar como um sistema coletivo em rede.

Marcelo Murilo - Co-Fundador e VP de Inovação e Tecnologia do Grupo Benner

7 minutos min de leitura
Estratégia
26 de maio de 2026 14H00
Quando a inteligência deixa de ser centralizada, a criatividade deixa de ser limitada - e a organização inteira passa a responder melhor ao mundo real.

Marcos Brabo - Chief Strategy Officer (CSO) e sócio da Agência Ginga

4 minutos min de leitura
Estratégia
25 de maio de 2026 08H00
Ao olhar para o fitness como laboratório de comportamento, este artigo revela por que engajamento real não nasce da atração inicial, mas da capacidade de transformar intenção em rotina por meio de conveniência, personalização e pertencimento.

Felipe Calbucci - CEO Latam da TotalPass

4 minutos min de leitura
Estratégia, Gestão de Pessoas
24 de maio de 2026 12H00
Quando a energia do Mundial entra no cotidiano corporativo, o humor, empatia e pertencimento se modificam; e quem ganha é a corporação, com o incremento do comprometimento de colaboradores e impactados

Ivan Cruz - Cofundador da Mereo

0 min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão