Diversidade

5 lições que a Copa do Mundo nos ensinou sobre diversidade

Episódios do maior evento esportivo planetário podem estimular avanços no mundo corporativo
Fundadora e CEO da Blend Edu, startup que já tem em seu portfólio empresas como 3M, TIM, Reserva, Movile, Grupo Fleury, TechnipFMC, Prumo Logística, brMalls etc. Thalita também está presente na lista da Forbes Under 30 de 2019, como uma dos 6 jovens destaques na categoria Terceiro Setor e Empreendedorismo Social.

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A Copa do Mundo do Qatar levantou uma série de reflexões que tangenciam a discussão sobre diversidade e inclusão na nossa sociedade. Alguns dos erros, acertos e depoimentos que aconteceram ao longo da competição em 2022 podem ensinar e oferecer insights para indivíduos, empresas e governos.

Ao longo desse artigo da minha coluna, vou explicar e compartilhar algumas das lições mais importantes que eu observei no mundo do esporte, traçando um paralelo com a realidade corporativa.

### Lição 1: Como se posicionar (ou não) em prol da diversidade e inclusão?
Recentemente, o presidente da FIFA, Gianni Infantino deu a [seguinte declaração](https://m.lance.com.br/fora-de-campo/presidente-da-fifa-responde-criticas-a-copa-do-mundo-hoje-me-sinto-catari-gay-e-imigrante.html.amp):

> “Hoje me sinto catari. Hoje me sinto árabe. Hoje me sinto africano. Hoje me sinto gay. Hoje me sinto deficiente. Hoje me sinto como um trabalhador imigrante. (…) Eu sou europeu. Pelo que temos feito por 3.000 anos em todo o mundo, devemos nos desculpar pelos próximos 3.000 anos antes de dar lições de moral.
>
> Claro que eu não sou catari, nem árabe, nem africano, nem gay, nem deficiente, nem um trabalhador imigrante. Mas eu sinto, eu sei como é ser discriminado, como é ser tratado como um estrangeiro. Como criança na escola eu sofria bullying, porque eu tinha cabelo ruivo e sardas.”

Pode ser até que o depoimento de Gianni tenha sido bem-intencionado, tentando partir de um princípio (mesmo que equivocado) de empatia. Mas, então, qual o problema nele?

Apesar de a fala tentar trazer um tom de “defendo e apoio a diversidade” (o que poderia ser visto com bons olhos), ela foi extremamente mal colocada. Esse é um erro muito comum entre as lideranças brasileiras, que querem se posicionar em prol de D&I, mas nem sempre possuem letramento para fazer da melhor maneira.

O resultado? O tiro sai pela culatra. O que os erros de Gianni podem nos ensinar?

1. Não acredite que por ter a capacidade de empatizar com um grupo minorizado você consequentemente sente exatamente o que o outro sente.
2. Não tente traçar um paralelo entre a sua realidade (que pode ser mais privilegiada) com a de pessoas de grupos minorizados, que passam recorrentemente por preconceito e discriminação. Por exemplo, não é porque ele passou por um bullying enquanto criança ruiva, que isso significa que você também entende a realidade de um homem gay, por exemplo.
Assim como não é porque eu sou uma mulher lésbica, que eu sei exatamente o que uma mulher trans passa no seu dia a dia. Ambas as dores podem ser válidas e pertinentes, mas elas não são (necessariamente) equivalentes.
3. Use as expressões corretas (ex: pessoa com deficiência ao invés de “deficiente”).

O que ele acertou?

1. Falar em prol da diversidade é importante, especialmente quando você é uma pessoa com poder, influência e visibilidade em um cargo de liderança.
2. Reconhecer a dívida histórica que países europeus têm com vários outros países do mundo.
3. Ter o bom senso de ressaltar que “claro que eu não sou catari, nem árabe (…)” (apesar da conclusão equivocada).

Precisamos aprofundar nosso conhecimento sobre empatia, lugar de fala e entendimento sobre nossos privilégios. O posicionamento em prol da diversidade demanda tempo, conhecimento e consistência.

### Lição 2: Como a abertura da Copa do Mundo 2022 nos ensinou sobre “tokenismo” e “diversity washing”?
O termo “[tokenismo](https://www.politize.com.br/tokenismo/)” vem da palavra “token”, que significa “símbolo” em inglês. Esse conceito vem para explicar uma inclusão simbólica e pontual (por meio de uma pessoa ou de um “símbolo”) fazendo concessões superficiais a grupos minoritários, transmitindo uma imagem progressista somente para gerar uma sensação de igualdade. Entretanto, não existe um esforço real e significativo para incluir esses grupos minorizados de fato.

Já o termo “[diversity washing](https://www.blend-edu.com/o-que-e-diversity-washing-e-porque-sua-empresa-deveria-se-preocupar-com-isso/)” (traduzido livremente por alguns como “lavagem a diversidade”) surgiu para explicar o comportamento de muitas empresas e marcas que criam campanhas e posicionamentos em prol da diversidade, dando visibilidade em diversos canais e aumentando o valor da marca, porém sem ter ações internas e uma cultura verdadeiramente inclusiva na interação com seus stakeholders.

Vimos um forte indício de “diversity washing” e “tokenismo” ao longo da abertura Copa, que teve representatividade pontual e uma narrativa muito bonita, porém absolutamente diferente do que estamos vendo na prática (já que o país segue violando direitos humanos). Ou seja, não há consistência alguma e talvez possamos dizer que tem até uma certa má fé por tentar “maquiar” a realidade.

### Lição 3: Entender que a experiência de uma pessoa de grupo minorizado não representa toda a vivência deste grupo
Brian Swanson, diretor de relações com a mídia da FIFA, [deu o seguinte depoimento](https://ge.globo.com/google/amp/futebol/copa-do-mundo/noticia/2022/11/19/diretor-da-fifa-defende-copa-do-mundo-no-catar-como-homem-gay-me-sinto-a-vontade-aqui.ghtml):

> “Eu tenho lido muitas críticas da comunidade LGBTI+ sobre a Copa do Catar. Mas quero dizer aqui, em público, que como um homem gay, me sinto à vontade aqui, me sinto bem-vindo”.

A princípio, entendo que a declaração foi dada como uma forma de contornar as críticas diante da violação de direitos humanos da comunidade LGBTI+ no Qatar.

Eu não acho que o Brian esteja necessariamente mentindo, afinal, enquanto diretor da FIFA e pessoa em posição de poder na organização do evento, imagino que ele realmente se sinta seguro exatamente por vivenciar um cenário de muito mais privilégio e proteção do que as demais pessoas que estão visitando ou vivendo no país.

Da mesma forma, recorrentemente estou facilitando treinamentos e escuto depoimentos como: “Thalita, mas meu melhor amigo é um homem negro e me falou que nunca passou por situações de racismo”.

Eu respondo a esses exemplos e declarações comentando que, ao estudar e debater o tema da diversidade, precisamos compreender que a experiência individual de uma pessoa de determinado grupo minorizado não reflete necessariamente a vivência coletiva que esse grupo possui.

Quando criamos ações para promover a diversidade (seja na gestão pública ou dentro do mundo corporativo), estamos endereçando questões sociais, culturais e históricas que atravessam inúmeras pessoas na nossa sociedade. Esse cenário coletivo é evidenciado por meio de pesquisas, estudos, dados e observações, indo muito além de achismos ou uma experiência isolada.

Ao olharmos o contexto do Qatar, onde o próprio Código Penal fala sobre a homossexualidade como uma prática criminosa e passível de uma pena de [oito anos de prisão ou até mesmo de morte](https://www.uol.com.br/universa/noticias/redacao/2022/11/18/posso-ser-preso-por-ser-gay-no-qatar-entenda-legislacao-do-pais-da-copa.htm?cmpid=copiaecola), podemos compreender que a população LGBTI+ dificilmente encontrará realmente um cenário de real segurança institucional.

### Lição 4: A importância do ativismo em prol da diversidade e inclusão (mesmo que de forma sutil e silenciosa)
Diante das polêmicas e contexto envolvendo a Copa do Qatar, também pudemos observar exemplos positivos de ativismo e posicionamento real em prol da diversidade.

Por exemplo, Dua Lipa, Shakira e Rod Stewart declinaram do convite para se apresentarem na cerimônia de abertura, falando exatamente que não o fariam por irem contra os seus valores pessoais.

O ativismo também aconteceu dentro dos campos. O símbolo da campanha One Love, que surgiu na Holanda em 2020, seria usado na braçadeira dos capitães de pelo menos sete equipes no Qatar. Suas cores representam diferentes raças, origens, identidades de gênero e orientações sexuais. No entanto, a FIFA proibiu o seu uso e sinalizou que aplicaria punições aos times que a usassem.

Diante disso, talvez possamos pensar: não há mais nada a ser feito. Certo? Errado.

Mesmo diante das proibições institucionais, jogadores, políticos e políticas encontraram formas de realizar protestos não violentos e silenciosos, contornando as punições estabelecidas.

Por exemplo, os atletas da seleção da Alemanha colocaram a mão sobre a boca na foto oficial posada, em sinal claro de que estavam sendo calados.

Já a ministra dos Esportes da França, Amelie Oudea-Castera, acompanhou o jogo entre Inglaterra e França vestindo uma blusa azul com listras das cores do arco-íris, em uma alusão à bandeira LGBTI+.

Também tivemos a oportunidade de ver marcas se posicionando em prol da diversidade. A Pantone decidiu lançar uma bandeira na cor branca, apenas com os códigos das cores símbolo do movimento LGBTI+, na campanha chamada de #ColorsOfLove. A ação da empresa aconteceu em resposta ao Comitê Nacional de Contraterrorismo do Qatar, que afirmou em entrevista à agência de notícias Associated Press que as bandeiras LGBTI+ não poderiam ser levadas para dentro dos estádios.

Já a cervejaria escocesa BrewDog realizou diversas ações “[antipatrocínio](https://www.mktesportivo.com/2022/11/cervejaria-brewdog-anuncia-antipatrocinio-a-copa-do-mundo-no-catar/)” reforçando também seu posicionamento contra a escolha do Qatar como sede do torneio. O mais interessante na ação é que os lucros obtidos com a venda da cerveja Lost Lager durante o período da Copa serão destinados a iniciativas de combate aos abusos contra direitos humanos.

### Lição 5: A necessidade de seguirmos avançando em acessibilidade e inclusão
A Copa do Mundo é um dos eventos esportivos mais assistidos no mundo, mas infelizmente não conta com muitos recursos de acessibilidade em suas transmissões. Só no Brasil temos mais de 23,9% de pessoas com pelo menos um tipo de deficiência (de acordo com o censo).

Ao longo da competição, tive a oportunidade de ver um vídeo do Fernando Campos no Instagram (@fernandocampos), mostrando como a realidade pode ser completamente diferente quando há acesso à [acessibilidade](https://www.blend-edu.com/acessibilidade-e-inovacao/) comunicacional.

No vídeo há um print de um post no Twitter com a frase: “já que as transmissões dos jogos através dos meios de comunicação de massa não dispõem de áudio descrição, painho fica encarregado de me descrever jogadas e lances dos jogos”.

Fernando aparece ao lado de seu pai, sentado em um sofá e de frente para a TV, onde é exibido o jogo da seleção. Ele está com a palma da mão virada para cima, possibilitando que seu pai indique (com os dedos deslizando pela mão) como foi a movimentação em campo até o gol do Brasil.

[Clique aqui](https://www.instagram.com/p/ClzOhkPumfk/?igshid=YmMyMTA2M2Y=) para ver o vídeo.

O Fernando tem a sorte de ter o pai ao lado dele para possibilitar que ele acompanhe os jogos com acessibilidade, mas será que não poderíamos ampliar esta boa prática para mais pessoas? Uma opção seria ter um link alternativo da transmissão (seja na versão streaming ou no Youtube) com áudio descrição. É algo relativamente simples, mas que pode transformar a experiência de milhões de pessoas. E, claro, é importante lembrar que a acessibilidade é um direito assegurado por lei.

Por outro lado, também tivemos uma evolução marcante: pela primeira vez em 92 anos de história, uma equipe formada somente por mulheres foi escalada para apitar uma partida oficial na Copa do Mundo masculina. Também tivemos a [Renata Silveira](https://exame.com/pop/quem-e-renata-silveira-conheca-a-primeira-mulher-a-narrar-um-jogo-de-copa-do-mundo-na-tv-aberta/), que se tornou a primeira mulher a narrar uma Copa do Mundo em TV aberta.

Com isso, também esperamos que mais avanços possam acontecer ao longo das próximas edições do campeonato mundial. É como dizem por aí: o futebol é mais que um esporte. Ele replica dentro de campo os fenômenos sociais mais bonitos e mais tóxicos da nossa sociedade.

Eu acredito que, por meio do esporte, importantes lições podem ser assimiladas e espero que esse artigo também possa fazer mais pessoas refletirem sobre a importância da diversidade nos tempos atuais.

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