O setor de transportes e mobilidade vive um cenário de transformação, em que modelos mais eficientes, resilientes e sustentáveis são parte indissociável do planejamento urbano e se tornaram uma necessidade das grandes cidades. A mobilidade urbana evidencia cada vez mais a urgência de debater e priorizar, nas agendas pública e privada, novas soluções e modelos inovadores de concessão, capazes de responder aos desafios contemporâneos e promover melhorias efetivas para a sociedade.
Por muitos anos, o modelo de concessões brasileiro baseou-se em critérios econômicos, em que vencia o licitante com a menor oferta, seja em tarifa ao usuário ou valor de serviço, mas que sinalizasse a viabilidade do projeto. Nesse modelo, as propostas eram avaliadas e comparadas quase que exclusivamente pelo preço, com peso reduzido para critérios voltados para inovação, sustentabilidade ou qualidade operacional.
Nesse cenário, muitos projetos acabaram se mostrando economicamente inviáveis após o início da operação, aumentando o risco e demandando revisões de contratos e de tarifas. Com isso, a previsibilidade regulatória foi enfraquecida, exigindo intervenções. Especialmente a partir dos anos 2010, o Brasil passou a adotar novas normas e exigências, buscando reduzir o risco de propostas inviáveis e aumentar a sustentabilidade de longo prazo dos contratos.
Essa evolução no modelo de concessões chega agora a um novo momento, com as mudanças trazidas pela tecnologia, pelas preocupações com a sustentabilidade ambiental e o desenvolvimento de novos modelos de veículos baseados em combustíveis limpos e menor emissão de carbono.
Isso já se reflete, inclusive, nos anúncios do governo federal para as novas concessões rodoviárias. O Ministério dos Transportes projeta mais de R$ 120 bilhões em investimentos nos leilões realizados entre 2025 e 2026, com uma carteira de projetos que reflete uma estratégia que combina segurança regulatória, inovação e critérios sustentáveis.
Esses pontos são corroborados pelo estudo Global Transportation Trends, lançado em 2025 pela Deloitte. O documento identifica cinco tendências para os transportes e a mobilidade urbana para os próximos anos, que passam por diversificar os modelos de financiamento e de receitas; fortalecer a infraestrutura; integrar mobilidade autônoma; promover veículos de baixa ou zero emissão de carbono; e escalonar o emprego de IA.
A inovação e a inteligência artificial também são citadas como peças-chave na edição de 2025 da pesquisa Government Trends, também da Deloitte, que aponta como demandas públicas cada vez mais complexas tornam a eficiência na gestão governamental um imperativo. Nesse contexto, governos ao redor do mundo vêm encontrando caminhos para melhorar a entrega de políticas públicas por meio da modernização digital.
O exemplo vindo de iniciativas bem-sucedidas já adotadas em outros países ajuda a preparar um benchmark para possíveis soluções brasileiras. Um deles, analisado no estudo Global Transportation Trends, é o desenvolvimento de um gêmeo digital pela Organização de Planejamento Metropolitano de Broward, na Flórida.
O objetivo é aprimorar o planejamento de infraestrutura ao integrar dados sobre habitação, zoneamento, população e clima, permitindo que os planejadores utilizem visualizações geoespaciais para desenvolver ideias. O SMART METRO busca prever congestionamentos e riscos de inundação, além de simular impactos no transporte e no uso do solo. A agência espera utilizar a ferramenta para orientar projetos de reurbanização, melhorar as vias existentes e determinar as localizações ideais para paradas e rotas de transporte público.
A compreensão integrada dessas tendências e experiências é fundamental para direcionar recursos ao setor de transportes e mobilidade brasileiro, maximizando o valor gerado pelos investimentos e preparando o sistema para os desafios atuais e futuros. A infraestrutura segue sendo uma classe de ativo atraente e de longo prazo, abrindo espaço para a evolução do mecanismo de concessões no Brasil e possibilitando parceiras cada vez mais maduras entre setor público e privado, essenciais para fazer o país avançar.




