Como estruturar ambientes de trabalho em que as pessoas possam entregar resultados sem deixar de lado a própria saúde? Essa foi uma das questões que atravessaram as discussões do Mind Summit 2026 em São Paulo.
Especialistas nacionais e internacionais, entre líderes de RH, saúde e negócios, abordaram temas que, embora diferentes, conectam-se na experiência profissional: burnout, produtividade, segurança psicológica, felicidade, liderança e os impactos da inteligência artificial. Em comum, as discussões colocaram em evidência o papel das organizações na construção das condições em que as pessoas trabalham.
O encontro, nos dias 16 e 17 de setembro na São Paulo Expo, contou, pela primeira vez, com treinamentos práticos e plenárias com especialistas do Brasil e do exterior em três arenas simultâneas. A programação com workshops e masterclasses foi focada para ampliar os debates de como a ciência de ponta pode impactar na decisão de negócio.
Burnout e produtividade: olhar para além do indivíduo
O debate sobre saúde mental começou pelo próprio modo como o trabalho é organizado. Christina Maslach, da Universidade da Califórnia, Berkeley, referência mundial nos estudos sobre burnout (criou o instrumento que mede burnout no mundo inteiro e é base do reconhecimento pela OMS), questionou o chamado “mito do colaborador resiliente”: a ideia de que cabe principalmente ao profissional desenvolver estratégias para suportar ambientes desgastantes.

Christina Maslach no palco do Mind Summit 2026 | Foto: LabJornalismo
A perspectiva apresentada pela pesquisadora, autora de The Burnout Challenge (escrito em parceria com o colega Michael P. Leiter) e listado pela Publisher’s Weekly como um dos dez melhores livros de negócios e economia em 2025,. propõe olhar também para fatores presentes na própria organização. Carga de trabalho, controle, recompensa, comunidade, justiça e valores estão entre as seis áreas da vida profissional associadas aos estudos de Maslach. Quando existe um desalinhamento nessas dimensões, o estresse pode se acumular e contribuir para o esgotamento.
Izabella Camargo, jornalista, palestrante e autora do livro Dá um tempo! Como encontrar limite em um mundo sem limites, ampliou essa discussão ao abordar a produtividade sustentável. A questão deixa de ser apenas quanto uma pessoa consegue produzir e passa a envolver as condições necessárias para manter o desempenho sem transformar a exaustão em requisito para entregar resultados.
Nesse contexto, comunicação, clareza de papéis, reconhecimento e condições de trabalho também passam a fazer parte da conversa sobre produtividade e saúde mental.
Segurança psicológica: quando falar, discordar e errar fazem parte do aprendizado
Se as condições de trabalho influenciam a saúde das pessoas, outro elemento aparece nas relações cotidianas: elas se sentem seguras para falar?
Amy Edmondson, professora da Harvard Business School eleita duas vezes pensadora nº 1 do mundo em gestão, apresentou o conceito de segurança psicológica como a possibilidade de profissionais fazerem perguntas, admitirem erros, pedirem ajuda e expressarem opiniões diferentes sem medo de consequências interpessoais. Isso não significa eliminar cobranças ou conflitos. Ao contrário, a discordância pode contribuir para identificar problemas e favorecer o aprendizado coletivo.

Amy C. Edmonsdson no palco do Mind Summit 2026 | Foto: LabJornalismo
A ideia ganhou uma dimensão prática com Viviane Mansi, presidente da Associação Brasileira das Empresas de Benefícios ao Trabalhador (ABBT), e Luciana Campos Lima, professora do Insper, doutora em Administração pela USP e sócia-fundadora da ScienceConsulting, na conversa “Conversas corajosas”. As palestrantes destacaram que não basta defender uma cultura de abertura se temas difíceis continuam sem espaço para serem discutidos. Remuneração, carreira, benefícios, expectativas e conflitos fazem parte da realidade das organizações e o desafio está tanto no que precisa ser conversado quanto na forma como essas conversas são conduzidas.
Assim, segurança psicológica não significa ausência de fricção, mas a criação de condições para que diferentes pontos de vista possam ser colocados na mesa de maneira respeitosa e produtiva.
Felicidade e bem-estar também exigem intenção
Relações de trabalho também podem encontrar outro caminho na ciência da felicidade. Sonja Lyubomirsky, da University of California, Riverside, apresentou pesquisas sobre felicidade e bem-estar e destacou que a felicidade não deve ser entendida como um estado permanente ou resultado apenas das circunstâncias externas.
A autora de A ciência da felicidade e Os mitos da felicidade – O que deveria fazer você feliz, mas não faz; o que não deveria fazer você feliz, mas faz, indicou que comportamentos, práticas e intervenções podem contribuir para o bem-estar quando incorporados de maneira intencional e adequada ao contexto de cada pessoa. A ideia de que “felicidade dá trabalho” sintetiza essa perspectiva: cuidar do bem-estar exige atenção e práticas consistentes, e não apenas iniciativas pontuais.
Renata Rivetti, fundadora da Reconnect Happiness at Work e colunista da Fast Company Brasil, aproximou esse debate da realidade das organizações, relacionando ciência da felicidade, liderança, bem-estar e futuro do trabalho. A questão, segundo a autora de O Poder do Bem-Estar, passa, então, por como líderes e empresas podem criar condições para relações mais saudáveis e experiências profissionais mais positivas.
IA e o futuro do trabalho: entre a substituição e a ampliação da capacidade humana
As transformações tecnológicas acrescentaram outra camada ao debate. Jan-Emmanuel De Neve, economista e professor de Oxford, responsável por estudo sobre bem-estar no trabalho, com mais de 25 milhões de pesquisas, discutiu a relação entre bem-estar, produtividade e as mudanças provocadas pela inteligência artificial, incluindo a insegurança de profissionais diante da possibilidade de substituição de funções.
Uma das perspectivas apresentadas foi a de utilizar a tecnologia não apenas para substituir atividades, mas para ampliar as capacidades humanas, conceito conhecido como augmentation. Para isso, comunicação clara, preparação e desenvolvimento de novas competências tornam-se importantes tanto para profissionais quanto para organizações.
Michele Schneider ampliou a reflexão ao defender que a transformação provocada pela IA não depende apenas da implementação de novas ferramentas. Processos, estruturas e formas de trabalhar também precisam ser adaptados para que a tecnologia seja incorporada de maneira efetiva.

Michelle Schneider no palco do Mind Summit 2026 | Foto: LabJornalismo
A questão, portanto, não é apenas aprender a utilizar uma ferramenta, mas entender como ela pode ser integrada ao trabalho para potencializar capacidades humanas.
Um desafio que envolve pessoas, organizações e resultados
Para quem acompanhou o evento, as discussões também provocaram reflexões sobre a própria experiência profissional. Shirley Acioly, 52 anos, psicóloga e diretora de Pessoas e Cultura da Biosphera.ntwk, resumiu um dos aprendizados que levou do Mind Summit: “Estratégia, desempenho e saúde mental não são agendas separadas: são dimensões da mesma realidade”.
As diferentes perspectivas apresentadas ao longo do evento apontam para uma troca de ideias que ultrapassa iniciativas isoladas de bem-estar. Do enfrentamento do burnout à construção de ambientes psicologicamente seguros; da ciência da felicidade aos impactos da inteligência artificial, os debates colocaram em pauta a forma como o trabalho é organizado, liderado e vivido.
Mais do que oferecer respostas prontas, o Mind Summit 2026 deixa uma questão para as organizações: que ambientes estão sendo construídos para que as pessoas possam trabalhar, falar, aprender, se desenvolver e, ao mesmo tempo, sustentar resultados?





