Dias atrás, li uma reportagem sobre executivos que estão voltando à sala de aula para estudar contabilidade. Advogados, engenheiros, economistas, gente com cargo alto e agenda cheia, matriculada em pós-graduação na Fipecafi porque percebeu que, para chegar ao C-level ou a uma cadeira de conselho, não dá mais para depender de alguém traduzindo os números.
Confesso que li com um meio sorriso.
Lembrei da época do vestibular. Eu vinha do técnico em contabilidade, que fiz ainda adolescente, e resolvi seguir em Ciências Contábeis. Os amigos estavam todos de olho em administração, engenharia, arquitetura, medicina, publicidade, história. Contábeis não aparecia na lista de ninguém. Quando eu contava a minha escolha, a reação ficava entre a brincadeira e a preocupação sincera: “você endoidou?”
Não era uma pergunta absurda. A imagem da profissão, naquela época, era a do sujeito atrás de uma pilha de guias, conferindo lançamento e calculando imposto. Uma escolha segura, talvez, mas sem nenhum glamour. Eu não saberia explicar direito por que insisti. Tinha mais a ver com gosto do que com estratégia: eu gostava de entender como as coisas se encaixavam, de onde vinha cada número e para onde ele ia.
Muitos anos depois, vejo o mercado chegando, por outro caminho, a uma conclusão parecida com a minha.
Sou contador desde 2000. Os primeiros anos foram de fechamento, conciliação, auditoria batendo na porta, aquele trabalho que quase ninguém vê e que, quando é bem feito, ninguém comenta. Foi ali que aprendi a desconfiar de número redondo demais. Depois veio a controladoria em empresa de capital aberto, e com ela outra lição: um balanço publicado carrega um compromisso com quem está do outro lado, gente que nunca vai entrar na fábrica, mas que decide se confia ou não na empresa a partir do que está escrito ali.
Em 2021 participei de um IPO. Poucas experiências ensinam tanto sobre o que o investidor realmente quer saber. Pelo que vivi, as perguntas que mais pesam raramente são sobre o lucro do último trimestre. Giram em torno da geração de caixa, da qualidade do capital de giro e da capacidade de sustentar o crescimento sem depender de dívida cara.
Como CFO, passei por indústrias de setores regulados, em multinacionais e em empresas familiares, cada uma com seu ritmo, sua cultura e seu jeito de decidir. Hoje, como diretor financeiro, estou no meio de um turnaround, talvez a experiência mais intensa de todas: fazer uma operação que consumia caixa passar a gerar caixa, reconquistar a confiança dos bancos, liberar garantias e voltar a ter acesso a crédito de curto, médio e longo prazo.
Em nenhum desses momentos a contabilidade foi o ponto de chegada. Ela foi o que me permitiu entender o que estava em jogo quando as decisões eram tomadas. Os executivos da reportagem saíram da gestão em direção aos números. Eu saí dos números em direção à gestão. Acho que os dois caminhos levam ao mesmo lugar, mas cada um chega com um olhar diferente. O meu, por formação e um pouco por vício, começa sempre pelo balanço.
E é curioso como o balanço ainda é pouco lido. Na maioria das reuniões de resultado que acompanhei ao longo da carreira, a conversa começa e termina na DRE: quanto vendemos, qual foi a margem, quanto sobrou de lucro. Faz sentido, é ali que está a história do crescimento, a parte que todo mundo gosta de contar. Acontece que o lucro depende de critério contábil, de regime de competência, deestimativa. O caixa não depende de nada disso. Ou o dinheiro entrou, ou não entrou.
Já vi muitas empresas apresentarem lucro e, no mesmo mês, fazerem contas para pagar fornecedor e folha. Quase sempre a explicação estava no balanço, à vista de quem quisesse procurar.
Estava no contas a receber, crescendo num ritmo maior que o das vendas, sinal de que a empresa passou a financiar o cliente sem que ninguém tivesse decidido isso. Estava nos estoques, que engordam trimestre após trimestre até virarem dinheiro parado no armazém. Estava no descasamento entre uma dívida que vence em doze meses e um investimento que só vai dar retorno daqui a cinco anos. E estava, muitas vezes, num lugar que quase ninguém lê com calma, as notas explicativas, onde aparecem os recebíveis já cedidos, os imóveis já dados em garantia, os bens que não vão poder sustentar um novo empréstimo justamente quando a empresa mais precisar dele.
Para quem é dono, essa leitura costuma incomodar, e eu entendo. Depois de anos construindo a empresa, olhar para o lucro é olhar para a recompensa do esforço. Mesmo assim, vale fazer uma pergunta antes de comemorar o resultado: onde esse lucro está agora? Se a resposta passa por cliente que ainda não pagou, estoque que ainda não girou e garantia que já está comprometida, o desafio da empresa deixou de ser vender mais. Passou a ser transformar em dinheiro aquilo que já vendeu. Caixa travado tira a liberdade de investir, enfraquece a negociação com o banco e, lá na frente, muda completamente a conversa com um investidor ou com um comprador.
Também faço questão de falar com os colegas contadores, porque a mesma reportagem traz um ponto que me parece essencial. Os escritórios de contabilidade estão no centro da vida das empresas menores, e a reforma tributária vai empurrá-los para além da apuração de impostos e do fechamento anual. Concordo, e acho que a oportunidade é enorme. Quem fecha o balanço de um cliente todo mês sabe, muitas vezes antes do próprio dono, quando o capital de giro começa a apertar. Esse conhecimento costuma ficar guardado em relatórios que ninguém discute. Sentar com o cliente e mostrar o que dá para fazer a respeito, e não apenas o que já aconteceu, talvez seja a maior mudança de papel que a profissão vai viver nos próximos anos.
Os executivos que hoje estudam contabilidade estão fazendo a coisa certa. Ninguém precisa virar contador para ocupar um cargo de liderança, mas decidir sem saber ler os números é confiar demais na sorte, e a sorte costuma cobrar caro de quem depende dela.
Olhando para trás, aquela escolha que meus amigos achavam meio maluca acabou sendo uma das melhores que fiz. Menos pelo diploma e mais pelo jeito de enxergar empresas que ela me deu. Quem aprende a ler o balanço percebe cedo se a empresa tem fôlego para crescer ou se está apenas crescendo até o caixa acabar.
Se eu endoidei lá atrás, foi de um jeito que valeu a pena.




