As mulheres têm conquistado cada vez mais espaço em cargos de liderança, ainda que tenhamos muito a avançar. Mas, o aumento da presença feminina nas mesas de decisão não significa, necessariamente, igualdade de voz. Avançamos em diversidade, mas ainda convivemos com padrões de comunicação e de interpretação que favorecem algumas vozes mais do que outras.
Prova disso são os dados do relatório “The World Economic Forum’s Insight Report: Closing the Gender Gap in Senior Leadership”, produzido como parte da iniciativa Global Gender Parity Sprint e em colaboração com o LinkedIn Economic Graph Research Institute e a Egon Zehnder.
De acordo com a pesquisa, mulheres ocupam 24,6% dos cargos de C-suite no mundo, mas na cadeira de CEO, esse número cai para 19,1%. Nos conselhos de administração a distância aumenta. Mais de nove em cada dez conselhos agora incluem pelo menos uma mulher e elas ocupam 29,3% das cadeiras. Entretanto, elas representam apenas uma em cada dez funções executivas em conselhos e cerca de 5% dos cargos de presidente.
Em outras palavras, a representação melhorou, mas a influência continua distribuída de forma desigual. Em anos de trabalho com executivas, vejo o mesmo padrão se repetir. Mulher que se posiciona com firmeza numa reunião é chamada de grossa, destemperada, ou ainda precisa lidar com alguém que pergunta se ela está de TPM. E foi assim que muitas mulheres aprenderam, mesmo que sem querer, a se encolher. Pedir desculpa antes de falar, justificar a opinião antes de expor uma ideia e até mesmo rodear um assunto delicado em vez de ir direto. Se assertiva demais, é mal-vista e se reservada demais, é ignorada.
O problema é que isso também custa caro, uma vez que quem começa uma frase se desculpando já perdeu autoridade antes da primeira ideia sair da boca. E é nesse sentido que o desafio da liderança feminina já não é mais apenas chegar à mesa de decisões. Em muitos casos, o desafio é conseguir falar sem ser interrompida, defender uma ideia sem ser considerada agressiva e discordar sem que sua competência seja colocada em dúvida.
A boa notícia é que comunicação se desenvolve. Diferentemente do que muitas pensam, saber se comunicar não é dom, mas prática. O primeiro passo é planejar a fala antes de entrar na sala. Saber exatamente o que quer dizer, com que objetivo, e dizer isso olhando no olho, com serenidade. Sem pedir desculpa antecipada, sem rodeio.
Outro passo importante é tratar bem as próprias palavras, inclusive as que a executiva diz para si mesma antes de qualquer reunião. Autocrítica severa vaza para fora na forma de insegurança na fala. Também ajuda buscar quem contribua para enxergar os próprios pontos cegos, como uma mentoria.
Empresas onde homens e mulheres dividem espaço de decisão têm resultado melhor do que empresas onde só um gênero é ouvido. Isso é fato, mas equidade de gênero também é uma questão de comunicação e isso pode ser trabalhado. O desafio não é exclusivamente da mulher já que existe um sistema que muitas vezes pode fazê-la sentir que está inadequada, desenvolver recursos de comunicação pode ampliar seu repertório e fortalecer seu protagonismo e ajudá-la a ocupar esses espaços com mais segurança.
As barreiras que ainda afastam mulheres dos espaços de liderança são reais, mas a oportunidade de transformá-las também é. Isso exige ações nas políticas de contratação, desenvolvimento e promoção, mas exige igualmente atenção à forma como elas se comunicam, são ouvidas e têm suas contribuições reconhecidas.
Afinal, a comunicação é um dos caminhos mais poderosos para transformar presença em influência e diversidade em resultados.




