Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia
4 minutos min de leitura

A falsa IA do backoffice: o custo oculto que destrói eficiência fiscal no Brasil

Enquanto o discurso corporativo vende inovação, o backoffice fiscal segue preso em planilhas - e pagando a conta
co-CEO e cofundadora da Qive, Isis é empreendedora e mentora Endeavor. Referência em eficiência financeira e automação de processos, ajuda mais de 210 mil empresas em todo o Brasil a transformarem os desafios do Contas a Pagar em estratégia, segurança e escalabilidade.

Compartilhar:

Existe um abismo entre parecer moderno e ser, de fato, eficiente. Nunca se falou tanto em Inteligência Artificial nas companhias brasileiras. E, paradoxalmente, nunca se investiu tão pouco nessa ferramenta, especialmente nos setores em que o dinheiro realmente ‘passa’.

Enquanto áreas como marketing experimentam modelos generativos, criam campanhas mais rápidas e testam novos formatos, o backoffice financeiro e fiscal — responsável por volumes bilionários, riscos reais e impacto direto no caixa — ainda depende, em grande parte, de planilhas, controles paralelos e processos manuais. O discurso evoluiu. A prática, nem tanto.

Esse descompasso entre ambição estratégica e base operacional não é percepção isolada. Dados recentes do Panorama do Contas a Pagar 2026 mostram que apenas 33% das empresas usam IA no dia a dia nesta área. Só 16% tiveram orçamento dedicado ao tema. Mais de 55% afirmam que não investem ou sequer têm previsão de investir. E mais da metade ainda depende fortemente de planilhas no backoffice.

O problema não é apenas a baixa adoção. É onde — e como — a tecnologia está sendo usada. Quando existe automação, ela costuma estar focada em registrar o passado: lançar, conferir, arquivar, reconciliar. O fluxo anda. A decisão continua parada. Digitaliza-se o processo, mas não se constrói inteligência para antecipar riscos, apoiar escolhas ou orientar o negócio.

O que isso cria, na prática, é uma ilusão perigosa: companhias que se declaram “data-driven”, “AI-ready”, mas que ainda precisam de planilha, validação manual e retrabalho para rodar o contas a pagar. Ambição estratégica sem base operacional sólida não escala. E, no backoffice, esse custo é invisível até o momento em que vira problema.

Erros recorrentes, pagamentos em duplicidade, vencimentos perdidos, dados inconsistentes, retrabalho constante. Em operações de alto volume, essas falhas não são exceção — são estatística. O mesmo Panorama, pesquisa destacada anteriormente, apontou que ineficiências operacionais e erros em processos financeiros podem consumir até 1% da receita anual de uma organização, um impacto que se acumula silenciosamente ao longo do tempo. A “IA de fachada” custa dinheiro, reputação e tempo do time. E custa algo ainda mais difícil de recuperar: capacidade analítica. 

Existe ainda um paradoxo pouco discutido: as pessoas estão mais prontas do que os sistemas. O estudo citado mostra que 51% dos profissionais querem investir em IA e 39% apontam planejamento e estratégia como prioridades. O apetite por um backoffice mais analítico existe. O que falta não é apenas a decisão de investimento, mas também dados confiáveis, infraestrutura e integração sólida de ferramentas. Nem todo profissional de backoffice está preparado para atuar de forma analítica. E mesmo entre os que têm esse repertório, a travessia não é automática. Tecnologia de ponta apoiada em dados ruins, fragmentados ou pouco confiáveis não gera inteligência. Gera ruído. Automatiza erros. E aumenta a insegurança na tomada de decisão.

Sem dados íntegros, governados e acessíveis, a IA não acelera o pensamento, ela atrapalha.

O Brasil, inclusive, parte de uma posição única. Temos uma das infraestruturas fiscais mais digitais do mundo, com documentos altamente estruturados, dados abundantes e regras claras. 

O problema é que boa parte das empresas sequer tem acesso consistente a essas informações — e, quando tem, elas não chegam de forma gerenciável, integrada ou confiável o suficiente para trabalhar a favor do negócio. Esses dados existem, mas seguem espalhados entre sistemas, e-mails e controles paralelos.

Sem organização, governança e integração, essa riqueza informacional não vira inteligência. Vira apenas mais uma obrigação a ser cumprida. E isso, sim, é um desperdício estratégico.

O futuro não é apenas digital. É inteligente. IA não pode ser tratada como vitrine, experimento isolado ou discurso de palco. Ela exige orçamento, integração de ponta a ponta, dados confiáveis e, acima de tudo, coragem para redesenhar fluxos.

Enquanto a solução for tratada como fachada, o backoffice seguirá operando no escuro. A pergunta não é se a IA importa, e sim o que ou quem está travando seu uso no setor hoje: dados, orçamento, cultura ou liderança. Inteligência de verdade exige decisão, investimento e a escolha clara de transformar o backoffice em centro de inteligência, não apenas em centro de custo.

Compartilhar:

Artigos relacionados

Como celebrar o dia das mulheres

Depois do Carnaval, março nos convida a ir além das flores e mimos: o Dia Internacional da Mulher nos lembra que celebrar mulheres é importante, mas abrir portas é essencial – com coragem, escuta e propósito.

Cultura organizacional
9 de janeiro de 2026
Alta performance contínua é uma ilusão corporativa que custa caro: transforma excelência em exaustão e engajamento em sobrecarga. Está na hora de parar de romantizar quem nunca para.

Rennan Vilar - Diretor de Pessoas e Cultura do Grupo TODOS Internacional

4 minutos min de leitura
Cultura organizacional
8 de janeiro de 2026
Diversidade não é jogo de aparências nem disputa por cargos. Empresas que transformam discurso em prática - com inclusão real e estruturas consistentes - não apenas crescem mais, crescem melhor

Giovanna Gregori Pinto - Executiva de RH e fundadora da People Leap

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de janeiro de 2026
E se o maior risco estratégico para 2026 não for uma decisão errada - mas uma boa decisão tomada com base em uma visão de mundo desatualizada?

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB – Global Connections

8 minutos min de leitura
Estratégia, ESG
6 de janeiro de 2025
Com a reforma tributária e um cenário econômico mais rigoroso, 2026 será um divisor de águas para PMEs: decisões de preço deixam de ser operacionais e passam a definir a sobrevivência do negócio.

Alexandre Costa - Gerente de Pricing e Inteligência de Mercado

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
5 de janeiro de 2026
Inovar não é sinônimo de começar do zero. A lente da exaptação revela como ideias e recursos existentes podem ser reaproveitados para gerar soluções transformadoras - da biologia às organizações contemporâneas.

Manoel Pimentel - Chief Scientific Officer na The Cynefin Co. Brazil

8 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Cultura organizacional, Tecnologia & inteligencia artificial
2 de janeiro de 2026
Em 2026, não será a IA nem a velocidade que definirão as empresas líderes - será a inteligência coletiva. Marcas que ignorarem o poder das comunidades femininas e colaborativas ficarão para trás em um mundo que exige empatia, propósito e inovação humanizada

Ana Fontes - Fundadora da Rede Mulher Empreendedora e do Instituto RME. Vice-Presidente do Conselho do Pacto Global da ONU Brasil e Membro do Conselho da Presidência da República - CDESS.

4 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
1º de janeiro de 2026
O anos de 2026 não será sobre respostas prontas, mas sobre líderes capazes de ler sinais antes do consenso. Sensibilidade estratégica, colaboração intergeracional e habilidades pós-IA serão os verdadeiros diferenciais para quem deseja permanecer relevante.

Glaucia Guarcello - CEO da HSM, Singularity Brazil e Learning Village

5 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
31 de dezembro de 2025
Segurança da informação não começa na tecnologia, começa no comportamento. Em 2026, treinar pessoas será tão estratégico quanto investir em firewalls - porque um clique errado pode custar a reputação e a sobrevivência do negócio

Bruno Padredi - CEO da B2B Match

2 minutos min de leitura
ESG
30 de dezembro de 2025
No dia 31 de dezembro de 2025 acaba o prazo para adesão voluntária às normas IFRS S1 e S2. Se sua empresa ainda acha que tem tempo, cuidado: 2026 não vai esperar. ESG deixou de ser discurso - é regra do jogo, e quem não se mover agora ficará fora dele

Eliana Camejo - Conselheira de Administração pelo IBGC e Vice-presidente do Conselho de Administração da Sustentalli

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia, Aprendizado
30 de dezembro de 2025
Crédito caro, políticas públicas em transição, crise dos caminhões e riscos globais expuseram fragilidades e forçaram a indústria automotiva brasileira a rever expectativas, estratégias e modelos de negócio em 2025

Bruno de Oliveira - Jornalista e editor de negócios do site Automotive Business

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #170

O que ficou e o que está mudando na gangorra da gestão

Esta edição especial, que foi inspirada no HSM+2025, ajuda você a entender o sobe-e-desce de conhecimentos e habilidades gerenciais no século 21 para alcançar a sabedoria da liderança