Antes mesmo das primeiras rajadas de vento anunciando o outono na serra da Mantiqueira, as árvores se despediam de suas folhas trocando a vestimenta. As poucas chuvas renovavam o verde do pasto. A nascente mantinha sua vivacidade e os lagos abrigavam uma recente família de patos selvagens. Algumas rolinhas se abrigavam em ninhos na estrutura de madeira da garagem aberta sujando o piso e, por descuido meu, o teto do carro que coloquei justo em baixo.
Havia retornado há pouco tempo às montanhas. O chão estava coberto. A grama de extensa área em torno da casa mesclava-se de folhas em tonalidades variadas. Um frescor na alma tomava conta ao sentir-me imerso nesse complexo sistema… O campo tem a virtude de abraçar conectando-nos com ele. E de forma natural não pensamos na tribulada rotina diária do escritório. Que incômodo e sedutor poder! Como pode que sejamos conduzidos a esse estado de forma tão natural? Ali me encontrava totalmente enlevado e mesmo induzido àquele bem-estar.
Na interação com a natureza sempre descobrimos algo sobre nós mesmos de um modo espontâneo, como quem está em um ambiente seguro que nos permite sentir sem amarras. Nesse encontro me dei conta de algo que nossas organizações frequentemente esquecem. A arte de liderar tem uma gênese. Ela não surge abruptamente no ser humano. Ela tem uma base natural. Portanto ela faz parte de todo ser humano. Ela tem raízes no comportamento de conduzir. Toda pessoa no seu raio de ação pessoal e profissional conduz situações para o êxito consciente ou não. Com grande ou pequeno impacto. Conduzir é próprio dos seres que se movem. A necessidade fisiológica é uma base que nos impulsiona. A sede é o corpo impulsionando o comportamento à busca.
Assim também movem a fome, o sexo e a convivência social ou em grupo em muitos animais. Mover-se e mover as coisas é tudo que podemos fazer, afirmou Charles Sherrington – Prêmio Nobel em Fisiologia. Nosso sistema nervoso se desenvolveu para mover-nos alcançando objetivos práticos e depois simbólicos. Foram milhares de anos a vida ensaiando, testando, alcançando resultados. O resultado? Somos sistemas complexos, eficientes, produtivos e em movimento. Às vésperas do outono pude ver as formigas escolherem o seu menu de folhas e moverem-se cortando, abastecendo. Organizando-se em busca randômica e depois, alinhadas, construindo estradas virtuais onde trafegam e trocam informações químicas importantes para serem precisas e eficientes. Com a força do movimento coletivo, cobrem áreas extensas trabalhando e se protegendo num fluxo e refluxo impressionante.
Uma organização emergente sem centro… As formigas ilustram a engenhosidade da vida se organizando. Movem-se. O movimento constante é uma identidade entre a vida humana e a natureza. Está presente na organização inteligente (ou não tao inteligente as vezes) das nossas cidades e nessa organização emergente das formigas. Planejamos uma capital como Belo Horizonte e vemos como a vida de forma espontânea transbordou a avenida do Contorno como limite lógico e impôs a organização vital. O mesmo passou com Brasília. A organização vital está no nosso DNA e se a lógica não se apoia na vida ela é vencida com o simples avançar do tempo. O movimento tem sempre uma direção, ainda que não possamos atribuir sempre uma intenção. Em qualquer direção que olhamos há um fluir constante. Temos as demandas do corpo quanto as do espírito… espírito de iniciativa, de realização, de conduzir. Entre o movimento vital das formigas e a organização estratégica ou planificada dos seres humanos existem graus.
Se as saúvas mostram organização sem centro, os patos me mostraram algo diferente: condução com propósito.
Em visita ao lago com Lannister, Bella e Tyreon, meus três cachorros, surpreendemos um casal de patos. Não tinhamos qualquer intenção de caça ou mesmo de assustá-los. Pelo contrário. Amo observar os animais livres de qualquer aprisionamento e contemplar as plantas em seu estado natural e de contornos silvestres. Tenho uma casa de montanha em Aiuruoca, Minas Gerais, com hectares e hectares de mata e me emociona caminhar pelas trilhas rústicas montanha acima. O encontro inesperado tirou-lhes a tranquilidade com que nadavam no lago. O macho começou a emitir grasnados altos e insistentes, bater as asas vigorosamente e a nadar muito rápido em nossa direção, passando muito perto e se deslocando para o lado oposto de onde estavam os seus filhotes. E retornou em nossa direção repetindo o mesmo comportamento de distração defensiva, seu bailado. Claramente estava tentando nos distrair e atrair-nos para longe de sua família. Pude ver que ao mesmo tempo a fêmea deslocava-se rápida e silenciosa com os filhotes pela mata saindo do lago e tentando ocultá-los a nossa percepção.
O pato distraía os prováveis predadores e a pata conduzia os filhotes a uma zona segura. Um comportamento organizado em função de um objetivo. Poderia reduzir esse feito ao instinto e isso em nada mudaria o fato de que estávamos diante de um comportamento de condução, embrionário da liderança, assim como a linguagem não criou o desejo de comunicar; antes, encontrou nele seu terreno fértil. O impulso para comunicar pertence à nossa natureza. A linguagem é a forma consciente e simbólica que esse impulso assumiu na espécie humana. O pai tentava manter nele a nossa atenção e levar-nos a um outro espaço. A mãe em perfeita sincronia com o pai aproveita a distração para levar os filhotes a um espaço de segurança, garantindo o êxito e a sobrevivência da sua prole. E repetiram esse comportamento todas as vezes que coincidia a visita ao lago com o momento em que lá se estavam alimentando. Isso é liderança embrionária antes da consciência humana.
Em um experimento mental, se acrescentássemos a eles a consciência humana teríamos a liderança em seu conceito natural. O que exatamente a consciência acrescentaria ao comportamento do pato? Antes de tudo ele perceberia e poderia avaliar o que estava acontecendo. O instinto protege porque não pode fazer diferente; a consciência protege porque escolhe fazê-lo. Ele poderia decidir entre as alternativas “enfrentar” ou “fugir”. Manter-se com a família escapando para a mata. Antes de tudo a consciência nos permite eleger quando e como fazer. Se beneficia do motor principal de ação mas o modela com a decisão de fazer ou não. Essa mesma análise se aplica quando admiramos um quadro de Miró ou Pablo Picasso. Miró buscava espontaneidade.
Suas figuras lembram desenhos infantis, mas cada linha foi cuidadosamente pensada para produzir leveza, ritmo e equilíbrio. A aparência é simples; a construção é sofisticada. Poderíamos dizer que nossas crianças fariam algo parecido a algumas obras do pintor espanhol. A diferença principal que vejo é que Pablo Picasso escolheu expressarse de uma determinada forma e usar tal técnica que se parece a de uma criança. Teria dito Picasso: “Levei quatro anos para pintar como Rafael, mas uma vida inteira para pintar como uma criança.” A criança não. Ela expressa-se plasticamente assim por ser o seu limite representativo. É o melhor que ela consegue com as habilidades plásticas que possui.
Com a consciência, os patos poderiam ter a antecipação do risco, a análise do grau de exposição, avaliação da necessidade ou não de repetir o comportamento mesmo depois de constatar que não havia comportamento predatório etc. Teriam um aprendizado em espiral ascendente. Esse comportamento de proteção poderia se generalizar para outras situações em que o risco não é apenas o da prole. Poderíamos multiplicar as variações que observo no campo. A grosso modo podemos avaliar que há uma clara separação quando comparamos o comportamento dos outros animais e o homem. É como admirar um arco-íris. À distância se nomeiam facilmente as cores de que se compõe. Quando nos aproximamos vemos que as fronteiras não são tão marcadas entre uma cor e outra. Há um incrível degradê suave entre elas. Assim também é desafiante tentar encontrar o momento de ruptura e os saltos aparentes que a natureza deu ao diferenciar o comportamento de condução propriamente humano do de nossos vizinhos filogenéticos.
A antecipação mental dos acontecimentos nos deu tempo para pensar em cenários possíveis e assim simular respostas distintas para cada possibilidade. Ela permitiu que as ideias morram no nosso lugar. Isso me parece um salto genial. Quando uma empresa decide adquirir um concorrente, lançar um novo produto ou entrar em um mercado desconhecido, a decisão começa em um desejo ou em uma necessidade. Isso ainda está muito próximo do instinto. A razão assume o comando quando passamos a perguntar: Que cenários são possíveis? Quais riscos corremos? Como esse movimento criará valor? O retorno esperado compensa o capital e os recursos que comprometemos? Quanto os colocamos no centro de avaliações e questões estamos impregnando de consciência o ato da sobrevivência ou dos desejos. Demos um passo significativo usando recursos que nos permitem afastar-nos do presente e pensarmos em questões que não estão no aqui e agora. A arte de fazer perguntas e de saber escolher as que importam é definitivamente o corolário desse processo.
Veja por exemplo um dos meus funcionários que trabalha no campo. Ele traz seu filho para trabalhar junto dele e lhe proporciona a aquisição de habilidades que os bancos escolares não podem oferecer. Trabalha exercitando-se até que o filho ou seu liderado alcance pleno domínio garantindo condições efetivas de sobrevivência. Pode-se vê-lo como um líder que desenvolve a equipe, investe tempo preparando, orientando, fazendo junto, socorrendo. Anseia ver o filho com pleno domínio não precisando mais do seu suporte. Eles têm pouco tempo de banco escolar, mas de modo intuitivo atuam com avançados conceitos de liderança sem que possam jamais ter lido qualquer livro a respeito disso. A vida parece funcionar assim. Não poderia ter se enriquecido se não houvesse cooperação, complementariedade de competências, competição e liderança.
A liderança faz parte da vida. Ela é mais abrangente que o espaço de nossos escritórios. Aliás os nossos ambientes corporativos se inserem em um universo muito maior que é alcançado pelo ato de liderar. Vemos a informática e a criação de inteligência artificial tendo por base a compreensão crescente das redes neurais. A vida foi muito mais adiante do que nós conseguimos desenvolver até agora com a nossa inteligência. Não apenas a arte tenta imitar a vida mas também a tecnologia. Não é diferente com a liderança. Ignorar essa realidade é perder-se. Gastar tempo andando por caminhos que não nos levam muito longe e que nos obrigam a retroceder e recalcular rota. A evolução trilhou todos esses caminhos que tentamos agora de modo consciente.
Por estar em nossa natureza e na natureza, eu os convido a observar para aprender e somente então teorizar. Um artesão prepara e treina sua equipe em como fazer e quando fazer, tomar decisões de não fazer para alcançar resultados que a todos beneficiam… Alguém organizando uma festa, liderando aos profissionais que estão associados ao empreendimento ou um maestro conduzindo uma sinfônica… Vejo claramente uma linha evolutiva do mesmo princípio que é o cerne da liderança: conduzir para resultados.
Se a vida nos trouxe até aqui com toda essa efetividade e complexidade, levou também milhões de anos. Ela teve muito mais tempo a sua disposição para experimentar que a curta existência da espécie. Para compreender podemos comparar o tempo de formação e desenvolvimento de uma floresta aos poucos dias de uma vida, ainda que plena, de uma mosca doméstica. Porém ela trouxe para nós os alicerces do cenário sobre o qual nos desenvolvemos e criamos a sociedade moderna. Liderar e sustentar ao longo do tempo é uma tarefa grande e desafiante para as nossas instituições mas muito mais para as nossas organizações. Será porque as instituições se aproximam mais da natureza mesma da liderança?
Uma instituição não tem endereço, nem organograma, nem dono. Ela não se instala – ela se enraíza. É antes uma necessidade da vida em sociedade que foi ganhando forma: normas, valores, modos de agir que a comunidade reconhece e sustenta ao longo do tempo, sem que ninguém precise assiná-los ou registrá-los em cartório.
A família, por exemplo, cresce das mesmas raízes – vínculos, expectativas e obrigações que têm por base natural as relações reprodutivas e afetivas e, na atualidade, se formaliza por meio de organizações como um Cartório, Vara de Família, o Estado pois registram e regulam essa instituição. Assim também o mercado (normas de propriedade, contrato, preço, concorrência) é uma instituição que tem uma base natural: a necessidade de troca e cooperação para satisfazer necessidades materiais escassas já que nenhum indivíduo produz sozinho tudo que precisa e tem uma propensão a permutar e negociar uma coisa pela outra facilitada pela divisão do trabalho. As organizações relacionadas a essa instituição são as empresas, bolsas de valores, bancos, órgãos reguladores.
Há uma empresa no Japão, a Kongō Gumi, que atravessa os séculos como se o tempo não lhe dissesse respeito. Nasceu antes de o Brasil existir como ideia, antes de impérios que hoje só encontramos em livros, e seguiu de pé por guerras, epidemias e revoluções que redesenharam o mundo ao seu redor. Em 2026, completa 1.448 anos – e é, ainda assim, uma rara exceção. Poucas outras a acompanham nessa longevidade, algumas com uns 700 anos de existência, o suficiente para nos fazer perguntar: o que sabem elas sobre conduzir que a maioria das nossas empresas ainda não aprendeu?
Quanto precisamos compreender a fisiologia da condução para fazer com que nossas empresas sejam mais perenes. Há muita oportunidade em jogo. Mas quando desvio o olhar da empresa para a instituição, a paisagem muda. É como sair de um jardim cultivado e entrar na mata – o que dura ali não foi plantado, cresceu. E a mais antiga dessas matas, a mais reconhecível de todas, é a família. Ela antecede a escrita, os Estados, as religiões organizadas e o comércio. Possivelmente surge na revolução neolítica que está entre 10.000 – 8.000 a.C. Nesse período reconhece-se que surge a agricultura, a propriedade, as aldeias permanentes e a transmissão do patrimônio. Se há transmissão do patrimônio pergunta-se de quem é esta terra? Quem herdará? Quem pertence a qual família?
Nesse momento, o casamento deixa de ser apenas um vínculo afetivo ou reprodutivo e passa a ser uma instituição jurídica e econômica. E passaram-se milhares de anos. Ela continua desempenhando praticamente as mesmas funções fundamentais. Recordemos os patos do nosso sítio. Eles formam pares. Na cultura porém, encontramos esposos. São realidades diferentes. O animal pode formar um casal. Pode ter obrigações imediatas. Mas apenas o ser humano transforma essa união em uma instituição que cria obrigações futuras reconhecidas por terceiros. Em outras palavras: O instinto une indivíduos. A consciência cria instituições.
O casamento é uma das primeiras grandes obras da consciência humana. Ele obriga o indivíduo a agir não apenas segundo seus impulsos imediatos, mas segundo um compromisso que permanece válido mesmo quando os sentimentos, as circunstâncias ou os interesses mudam. Ao mesmo tempo a sua base natural possibilita que o matrimônio construído culturalmente sob as bases naturais sejam duráveis.
Pensemos na escassez de recursos que nos impulsiona a trocar, a negociar. Base natural do mercado que se transmutou em muitas formas de existir mas que por estar tão intrinsicamente ligado a necessidade de sobrevivência, de alimentar-se, aquecer-se segue vigente independente das organizações que se sucedem culturalmente. Ele tem existido há milhares de anos enquanto as empresas ainda não têm uma vida muito longa comparada à existência da família que as criou. A racionalização dos nossos planos estratégicos ainda é superada pela força intrínseca do mercado que como a água encontra sempre um caminho entre as pedras e obstáculos antinaturais que possam se lhe antepor.
A base natural da liderança é esquecida como abordamos inicialmente e que o meu contato com o campo nesse período de transição de carreira após mais de 16 anos na liderança de grandes grupos empresariais me fez refletir de forma única. Comecei a me perguntar algo muito simples. Se a condução consciente é capaz de criar estruturas que duram séculos, por que a maioria das empresas modernas trata a liderança como técnica de manual, desconectada dessa raiz longa?
Temos tanto material disponível por meio de cursos, frameworks que prometem de forma abrangente sintetizar toda a complexidade da liderança, modelos etc. Tenho impressão de ouvir sempre uma voz de fundo constante acenando com soluções rápidas e apressadas. A rapidez de uma resposta ou solução técnica de um especialista pode ocultar anos de experiência por trás que lhe permite ser breve e simples. E quem vem depois pode ignorar acreditando que a síntese captada às pressas pode não funcionar. A simplicidade é o último grau da sofisticação, expressou Leonardo da Vinci. Seu pensamento fala de uma gênese que se teve para chegar lá pois houve uma longa gestação que acompanhou o ser humano na construção da família ou do mercado. Enquanto a seleção natural garantiu, a seu próprio ritmo, a complexidade da vida, a condução intencional antecipou resultados, acelerou o crescimento, inventou a educação, racionalizou os passos a seguir…
O ciclo sazonal da natureza com a chegada do outono fez com que as árvores revejam suas prioridades. As folhas que tanto produziram no verão que terminou agora estão esgotadas e necessitam substituição. Os ypês abriram mão de todas as folhas. Trabalham silenciosamente para florescer. Devem anunciar a nova temporada de chuvas que chegará. Não há ruptura nem descontinuidade. A aparência é de abandono e morte mas na realidade é ganho de força e renovação para seguir adiante. Assim é o outono vivido por nós no mundo empresarial. A volta ao campo, as origens, longe do movimento frenético e apressado é silêncio renovador porque é necessário despojar-se do peso excessivo que já não é mais produtivo. A nossa carreira no mercado necessita de pausa também. Não apenas para reflexão mas para encontrar novos caminhos e ideias que renovarão nossa capacidade de criar e empreender.
A história da vida conta o momento em que os resultados deixam de ser acidentais, aleatórios e passam a emergir de uma condução intencional e consciente: a isso chamo de liderança. Um comportamento natural que se amplifica e se complexifica em nós com a intenção. Somos seres intencionais em movimento o tempo todo. Portanto a capacidade de liderar tem uma gênese natural. Que outras leis da natureza a liderança ainda obedece, sem que percebamos?




