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A fila do Brasil reinventa o tênis

O Grupo Dass, gestor da marca de origem italiana na América Latina, montou um laboratório de biomecânica e, com ele, descobriu uma tecnologia de amortecimento inovadora
Jornalista especializada em gestão, inovação e negócios, com mais de 30 anos de experiência como redatora, repórter, editora e revisora. Colaboradora de HSM Management e de MIT Sloan Management Review Brasil.

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Dizem que os quenianos, quando entram em uma prova de atletismo, correm dos leões. Mas isso não é verdade: eles é que são os leões. essa é a opinião de Moacir Marconi –ou “Coquinho”, como é mais conhecido–, técnico do Fila Running team, patrocinador dos atletas quenianos que costumeiramente sobem ao pódio das competições de longa distância mundiais. todo ano, Marconi viaja ao Quênia, à tanzânia e à etiópia como olheiro em busca de talentos. 

Seus selecionados, que passam por uma série de testes, vêm para o Brasil em períodos de competição e ficam alojados no centro de treinamento Casa Quênia, da Fila, no Paraná, com toda a infraestrutura necessária, mais acesso a dentista, fisioterapeuta e o que precisarem para ter grandes resultados nas provas que disputam. o espírito de superação desses atletas e o apoio do patrocinador explicam boa parte de seu êxito, mas eles agora têm uma ajuda adicional: o tênis. após uma análise de como os quenianos correm em seu laboratório de biomecânica, a equipe de desenvolvimento da Fila no Brasil, liderada pelo diretor de design norte-americano tobin Dorn, contrariou a lógica dominante no mercado e redefiniu o calçado mais eficaz para correr. 

A fim de amortecer de modo mais rápido e eficiente o impacto inicial de cada passada sobre o esqueleto do corredor e, ao mesmo tempo, ampliar sua propulsão, a equipe da Fila desenvolveu um sistema diferenciado de amortecimento nos calcanhares, onde colocou um composto do sintético eva e borracha batizado de “energized rubber”, com gomos independentes. no restante do solado, há o amortecimento tradicional. trata-se de algo bem diferente do padrão dos tênis, em que uma entressola feita de eva acompanha toda a planta do pé, proporcionando um amortecimento distribuído. o efeito prático? Segundo tobin Dorn, o impacto é amortecido em uma transição suave do calcanhar para o meio do pé, seguindo para o antepé e, então, para os dedos, o que amplia a propulsão. a tecnologia de amortecimento inovadora recebeu o nome de ribbons e, embora aplicada antes aos corredores profissionais, chegou ao mercado consumidor em 2014, com o lançamento do tênis Fila ribbons.

> **SAIBA MAIS SOBRE O GRUPO DASS**
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> Com receita anual de cerca de R$ 840 milhões, o grupo gaúcho Dass é resultado da fusão iniciada em 2004 entre a Calçados Dilly, empresa fundada em 1968, e a Clássico, de 1980. Hoje, o grupo tem duas divisões: calçados e confecção. Na seara de calçados, o grupo atua com a marca própria Tryon, como fabricante OEM das marcas Nike, Adidas e Converse e com gestão em 360 graus das marcas internacionais Fila e Umbro –nesse caso, responde por concepção e desenvolvimento dos produtos, prototipação, fabricação, entrega, marketing, pós-venda etc. 
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> O Grupo Dass detém a licença vitalícia da marca Fila para toda a América Latina, criando e produzindo localmente desde 2003. A marca, originada em Biella, na Itália, em 1911, mudou de mão duas vezes: em 2003, quando foi para a norte-americana Sports Brands International, do fundo Cerberus, e em 2007, quando a subsidiária independente Fila Korea adquiriu por US$ 400 milhões o controle da empresa mundial. O gaúcho Dass pode ser considerado internacional, na medida em que conta com um escritório na Ásia, que fica atento a novos materiais e também produz componentes  e alguns produtos inteiros, e escritórios  de representação em diversos países  da América Latina.

**ESPÍRITO DE P&D**

A equipe de desenvolvimento da Fila atua no Dass Creation Center, centro criativo do Grupo Dass, inaugurado em meados de 2013 na cidade de ivoti, no rio Grande do Sul. esse laboratório de pesquisa e desenvolvimento é bastante produtivo. em 2014, só da marca Fila –o grupo trabalha com outras marcas [veja quadro ao lado]– saíram dali os tênis Fila ribbons, Fila Flow Windspeed e Fila anatomix Ultra, por exemplo. todos embutem a preocupação da empresa com a inovação. 

O Windspeed se diferencia por um solado vazado que permite o fluxo de ar, inspirado em uma técnica da indústria automobilística que aumenta a aceleração e a velocidade dos carros de Fórmula 1. O Anatomix, muito flexível e leve, buscou na nasa, a agência espacial dos eUa, a tecnologia Super Foam para fazer palmilhas mais confortáveis aos pés durante a corrida, além de ter o desenho do solado inspirado no avestruz, o bípede mais rápido do mundo. 

> **A CRIAÇÃO DO LABORATÓRIO**
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> _Aproximação com universidade mostrou  ser fundamental para a iniciativa_
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> Em 2011, o programa de tv Fantástico, da Rede Globo, exibiu uma reportagem que falava sobre como o uso de sapatos de salto durante a infância era prejudicial à saúde, exibindo testes realizados pelo Laboratório de Biomecânica do Departamento de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da universidade de são paulo (usp). A matéria chamou a atenção dos gestores do Grupo Dass, que procuraram a equipe da USP liderada pela professora isabel sacco para realizar a primeira pesquisa de biomecânica de um de seus calçados. “percebemos que esse tipo de teste trazia ganhos tanto aos processos como aos produtos”, lembra Jonas schneider, gerente do grupo. 
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> Por vários fatores, como custo elevado para terceirizar tais testes com frequência, necessidade de respostas mais rápidas e de maior interação entre os pesquisadores e a área de desenvolvimento, o grupo decidiu criar um laboratório próprio de biomecânica, dentro do Dass, na cidade gaúcha de ivoti. Em 2012, com investimento de cerca de R$ 700 mil somente em equipamentos, era inaugurado o laboratório. 
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> Hoje, o trabalho de biomecânica propriamente dito é desenvolvido por três profissionais, como Andrea Naomi Onodera, mestre e doutoranda nessa ciência. “Eu era aluna da usp e fui selecionada para integrar a equipe do novo laboratório”, comenta ela. Outros especialistas, em solados, processos etc., também integram a estrutura. Onodera afirma que o trabalho desenvolvido no laboratório diferencia o produto também por ser focado nos pés brasileiros. “A antropometria [medidas dos pés] indica diferenças continentais, apesar da inexistência de estudos nacionais.” 
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> A USP continua a ser parceira do Grupo Dass, mas em um modelo informal, incluindo trabalhos de cooperação no dia a dia, de ambos os lados. Outro parceiro é o Serviço Nacional da Indústria (Senai), com o qual a empresa também troca ideias e compartilha equipamentos. por exemplo, o senai tem um scanner que vez ou outra interessa ao Dass, enquanto o Dass tem estrutura para a cinemática (estudo dos movimentos), que às vezes é utilizada pelo senai. “usp e senai nos ajudaram a criar nossa metodologia e nossos processos”, conta schneider. O laboratório do Dass faz questão de manter uma relação próxima com o meio acadêmico, tanto que recebe, pelo menos seis vezes por ano, a visita de estudantes.

**BIOMECÂNICA**

O principal diferencial do Dass Creation Center talvez seja o laboratório de biomecânica, onde os corredores quenianos fazem seus testes, feito antes, em 2012. trata-se de raridade no meio corporativo –normalmente, as empresas usam laboratórios de universidades e institutos. 

“Não conheço outro no mundo ligado a uma empresa. acho que o nosso é pioneiro”, diz Jonas Schneider, gerente de desenvolvimento e novas tecnologias. o trabalho do laboratório de biomecânica geralmente começa com um briefing para que se faça um protótipo voltado para algum nicho de mercado. Depois, esse protótipo é testado qualitativamente em corridas por alguns dos 400 atletas cadastrados no banco de dados da empresa, e também quantitativamente, quando se reproduz várias vezes a sensação do consumidor ao calçá-lo. 

A equipe do laboratório hoje usa protocolos para corridas, mas está criando protocolos também para outras modalidades esportivas. “Por exemplo, já estamos desenvolvendo protocolos para tênis e futebol”, conta Schneider. Os problemas identificados pelos pesquisadores nos testes –relativos a movimento, força e temperatura– são informados à área de engenharia, que faz mudanças, e mais testes são realizados. antes da fabricação, o novo tênis é visualizado em realidade virtual. os atletas quenianos merecem o cuidado.

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