Tecnologia & inteligencia artificial, Estratégia, Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
3 minutos min de leitura

A IA aumentou a produtividade, mas quem está ganhando tempo?

Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.
Co-fundador e CMO do Reportei

Compartilhar:

Existe uma contradição cada vez mais evidente no marketing. Quanto mais ferramentas surgem para acelerar o trabalho, mais difícil parece encontrar tempo para fazer tudo com calma. A inteligência artificial aumentou a capacidade de execução das equipes, mas muitas empresas estão tratando essa capacidade adicional como espaço para elevar permanentemente o volume e a velocidade das entregas.

Uma pesquisa do Reportei com profissionais da área ajuda a dimensionar esse movimento. Embora 94% dos entrevistados utilizem IA ou automação no trabalho, somente 12,5% afirmam ter reduzido claramente a carga de trabalho. Para 71%, a adoção dessas ferramentas veio acompanhada de aumento nas expectativas de entrega.

Isso indica uma mudança na relação entre tecnologia e produtividade. Durante muito tempo, automatizar uma tarefa significava ganhar tempo. Agora, em muitos ambientes, ganhar tempo significa criar espaço para outra demanda. A eficiência conquistada por uma ferramenta é rapidamente incorporada à operação e se transforma em uma nova referência de desempenho.

Esse ciclo parece eficiente no papel. Se uma equipe consegue produzir mais em menos tempo, a empresa aumenta sua capacidade sem necessariamente ampliar a estrutura. O problema aparece quando essa lógica se torna permanente. Sempre existe uma nova entrega, uma nova urgência, uma nova campanha, uma nova métrica para acompanhar. O ganho de produtividade se torna uma espécie de dívida porque quanto mais rápido o profissional consegue fazer, mais se espera que ele faça.

Os sinais de desgaste já são claros. 59,5% dos profissionais entrevistados trabalham fora do expediente pelo menos algumas vezes por semana, enquanto 65% recebem demandas urgentes semanalmente. Metade afirma já ter sentido sintomas de burnout. Em uma área que depende diretamente de criatividade, repertório e capacidade de análise, 52% relatam redução frequente ou constante de motivação e criatividade.

O mais preocupante é que esse modelo pode comprometer justamente aquilo que o marketing tenta proteger quando fala em produtividade: a qualidade da entrega. Criar uma campanha, interpretar um comportamento de consumo ou construir uma estratégia exige mais do que capacidade operacional. Exige tempo para observar, discutir, testar hipóteses e, muitas vezes, mudar de ideia.

É por isso que a discussão sobre IA precisa sair da contagem de tarefas automatizadas e chegar à organização do trabalho. A atualização da NR-1, que passou a considerar os fatores de riscos psicossociais no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, reforça a importância de olhar para elementos como excesso de demandas, falta de suporte e condições de organização da rotina.

Não acredito que o caminho seja reduzir o uso da tecnologia. Seria ignorar uma transformação que está acontecendo e que pode, de fato, eliminar uma quantidade enorme de trabalho operacional. A discussão mais interessante está em quem fica com o ganho produzido por essa eficiência.

Se uma automação economiza duas horas de trabalho, essas duas horas podem virar mais duas horas de tarefas. Mas também podem virar planejamento, aprendizado, uma conversa que estava sempre sendo adiada ou simplesmente o fim do expediente no horário certo. Essa escolha diz muito mais sobre a cultura de uma empresa do que a ferramenta utilizada.

O marketing passou anos tentando convencer as empresas de que produtividade significava fazer mais. A inteligência artificial tornou essa promessa tecnicamente muito mais fácil de cumprir. Agora corremos o risco de descobrir o seu lado perverso: uma equipe pode atingir níveis inéditos de produtividade e, ainda assim, terminar o dia com a sensação de que não conseguiu fazer o suficiente.

Talvez esse seja o verdadeiro teste da IA no trabalho. Não quantas tarefas ela consegue colocar para dentro de um dia de trabalho, mas se consegue abrir espaço para que as pessoas voltem a ter alguma margem dentro dela.

Compartilhar:

Artigos relacionados

A IA aumentou a produtividade, mas quem está ganhando tempo?

Se toda hora economizada pela tecnologia é imediatamente preenchida por outra demanda, talvez o problema não esteja nas ferramentas, mas na forma como organizamos o trabalho. O artigo discute por que produtividade e bem-estar não deveriam ser objetivos opostos e como a inteligência artificial está colocando essa contradição em evidência.

A IA não está substituindo os bancos. Está mudando o trabalho dentro deles.

O que realmente importa para quem utiliza serviços financeiros é resolver uma demanda com segurança e agilidade. Em um setor cada vez mais digital, a vantagem competitiva estará menos na tecnologia em si e mais na capacidade de combinar automação e inteligência humana da forma certa em cada etapa da jornada.

A Reforma Tributária já não é um tema fiscal. É um tema de supply chain.

O artigo mostra por que a transição para o novo modelo tributário exige uma visão integrada da cadeia de suprimentos e alerta que a vantagem competitiva poderá estar menos na interpretação da legislação e mais na capacidade de adaptar processos, sistemas e operações antes que as mudanças se tornem obrigatórias.

Futebol feminino: O que mulheres aprendem quando têm espaço para competir?

A conquista histórica do São Paulo no Brasileirão Feminino vai além do esporte e convida a uma reflexão sobre como desenvolvemos competências que costumam ser associadas à liderança. O artigo explora como experiências vividas dentro e fora das organizações ajudam a construir confiança, influência, resiliência e capacidade de disputar espaços de forma saudável, preparando novas gerações para desafios que começam muito antes do primeiro cargo de liderança.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho
9 de setembro de 2026 09H00
Os agentes de IA não pedem aumento, não tiram férias e não podem ser administrados como funcionários tradicionais. Como gerir colaboradores digitais que não seguem as regras tradicionais de contratação, supervisão e desligamento?

Bruno Padredi - Fundador e CEO da B2B Match

4 minutos min de leitura
Estratégia
8 de setembro de 2026 18H00
Empresas expostas aos mesmos dados, cenários e tendências frequentemente chegam a decisões opostas. O que explica essa diferença não é a informação disponível, mas a forma como cada organização interpreta a realidade.

Angelina Bejgrowicz - Fundadora e CEO da AB - Global Connections

10 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
8 de setembro de 2026 14H00
Na mitologia grega, os centauros simbolizavam a convivência entre razão e instinto. Hoje, a união entre inteligência humana e artificial cria uma nova versão desse mito e desafia líderes a equilibrar produtividade, discernimento e autonomia em um mundo cada vez mais automatizado.

Lilian Cruz - Fundadora da Zero Gravity Thinking

3 minutos min de leitura
Direito, Regulação & Compliance
8 de setembro de 2026 08H00
Muito utilizada em contratos de locação em shopping centers, a chamada cláusula de raio impede que lojistas abram operações concorrentes em uma determinada área geográfica ao redor do empreendimento. Embora não seja considerada ilegal por si só, a prática tem sido cada vez mais questionada por seus potenciais impactos sobre a livre concorrência, a liberdade empresarial e os direitos dos consumidores. O artigo analisa a evolução do entendimento dos tribunais e do CADE sobre o tema e discute os critérios que devem orientar a avaliação de sua legalidade.

Daniel Cerveira - sócio do escritório Cerveira, Bloch, Goettems, Hansen & Longo Advogados Associados e Coordenador da Comissão de Expansão e Pontos Comerciais da ABF - Associação Brasileira de Franchising

2 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 14H00
Muito além da programação e da montagem de robôs, o artigo mostra como a robótica educacional está ajudando estudantes a pensar criticamente, experimentar, colaborar e criar soluções para problemas reais, conectando aprendizagem, propósito e impacto social desde a escola.

André Brandão Sala - CEO da Robomind

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
7 de setembro de 2026 08H00
O Brasil já demonstrou sua capacidade de formar pesquisadores altamente qualificados. O desafio agora é fortalecer as pontes entre universidades, empresas, investidores e empreendedores para que a produção científica gere mais inovação, competitividade e impacto social.

Luiz Caires, PhD - Cofundador e CEO da Vyro Bio

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
6 de setembro de 2026 15H00
Nem sempre a queda de engajamento está relacionada à falta de motivação individual. Muitas vezes, ela surge em ambientes onde as pessoas deixam de se sentir ouvidas, evitam discordar e aprendem que é mais seguro permanecer em silêncio.

Rodrigo Rovaris - Gerente de Gente & Gestão da Blendus

3 minutos min de leitura
Cultura organizacional, Marketing & growth
6 de setembro de 2026 08h00
À medida que a produção de conteúdo se torna cada vez mais presente na vida profissional e pessoal, surge uma questão importante: estamos ampliando oportunidades ou naturalizando a ideia de que toda experiência, habilidade e momento da vida precisam ser convertidos em visibilidade, audiência e monetização?

Ingrid Spyker - sócia da Creator Economy

4 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial
5 de setembro de 2026 14H00
A maioria das organizações sabe exatamente quanto faturou ontem. Poucas sabem quanto perderiam se amanhã não conseguissem operar. Ao discutir os impactos financeiros da indisponibilidade de sistemas, o artigo propõe uma mudança de perspectiva: cibersegurança não deve ser vista apenas como um investimento em tecnologia, mas como uma estratégia de proteção da receita, da continuidade operacional e da capacidade do negócio de seguir funcionando diante de incidentes cada vez mais frequentes.

Felipe Berneira - CEO da Pronnus Tecnologia

2 minutos min de leitura
Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Inovação & estratégia
5 de setembro de 2026 08H00
À medida que a inteligência artificial assume atividades repetitivas e amplia a capacidade analítica das organizações, surge uma oportunidade para redefinir a gestão de pessoas. O artigo mostra como tecnologias aplicadas a remuneração, benefícios e bem-estar podem fortalecer decisões mais inteligentes e personalizadas, sem substituir aquilo que continua sendo exclusivamente humano: empatia, julgamento e liderança.

Natalia Ubilla - Diretora de RH no iFood Pago e iFood Benefícios

3 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #174

Mobilização é o novo segredo da execução