Tecnologias exponenciais
4 min de leitura

A IA pode aproximar a geração de riqueza do Brasil e seus pares aos níveis de países desenvolvidos?

Entenda como a ReRe, ao investigar dados sobre resíduos sólidos e circularidade, enfrenta obstáculos diários no uso sustentável de IA, por isso está apostando em abordagens contraintuitivas e na validação rigorosa de hipóteses. A Inteligência Artificial promete transformar setores inteiros, mas sua aplicação em países em desenvolvimento enfrenta desafios estruturais profundos.
Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Compartilhar:

O pano de fundo

É possível afirmar, sem medo, que Inteligência Artificial é a aplicação de métodos estatísticos para identificar padrões, propor hipóteses (preditivo – IA generativa), simular e, mais importante, estimular cenários.

É uma importante ferramenta para resolver problemas de grande representatividade, a partir de alterações rígidas ou incrementais em padrões existentes.

É também possível afirmar, dessa vez com mais cautela, que a maioria dos problemas coletivos tem em comum a importância do estado para regular, transigir ou mesmo participar da solução per se. Os bolsos profundos do estado sempre estiveram presentes em grandes soluções.

Porém, no palco das ações, o ambiente dos países em desenvolvimento é mais fragmentado, em razão de democracias ainda em desenvolvimento. Esse fato aumenta a incidência do conflito do agente-principal nas relações comunitárias.

Nesses países, e o Brasil está nessa lista, os tomadores das decisões de importância coletiva agem sem ampla coordenação e com responsabilização muito limitada por seus atos, principalmente atos que levam à ineficiência.

Além disso, é nesses países que muitas vezes o poder público figura como o maior e mais importante empregador, garantindo a seus empregados benefícios que a iniciativa privada não consegue ofertar, o que leva o funcionalismo público nesses países a carecer de uma carga de propósito que poderia arrefecer esses conflitos de interesses e trazer melhores processos para o estado.

Por essa razão esses países enfrentam maiores níveis de corrupção, e como forma de combate tendem a dificultar a contratação e a transação do poder público com a iniciativa privada. O Estado acaba contratando mal ou expelindo mão de obra qualificada pela burocracia e pelo ambiente complexo.

Qualidade e acesso a dados

Vamos considerar o caso do Brasil.

Se a construção de estruturas de dados (data pipelines) se caracteriza principalmente pelo uso de diferentes profissionais, desde a captura até o tratamento dos dados, e a aplicação de técnicas estatísticas ou preditivas – que estabeleçam novas hipóteses e por consequência soluções – os estados precisam fazer boas contratações, de diferentes habilidades (pessoas ou empresas), e por diferentes intervalos de tempo (geralmente sobrepostos em qualquer projeto). Esse desafio é naturalmente impossível para nossas estruturas burocráticas.

Os desafios começam a parecer intransponíveis já nos níveis iniciais da jornada de uso da IA: a obtenção de dados.

Estruturados ou não, transacionais ou não, esses dados estão presos nas empresas, nos diferentes níveis governamentais (agências reguladoras, por exemplo), ou em associações de classe.

As associações de classe Brasileiras, por exemplo para as que tem dados, mesmo que desorganizados, ainda são jovens. A grande maioria não tem dados.

É preciso lembrar que a democracia na América Latina é um fenômeno recente, com pouco mais de 30 anos, e ainda inconsistente. Essas associações sofrem da mesma falta de orientação e governança que sofrem os Estados latino-americanos. Navegam em um ambiente institucional que, como argumentado, é fragmentado.

E em última instância, essas organizações sofrem para compreender a direção das políticas públicas, ou seja, para compreender a “estratégia corporativa” do Brasil, usando o jargão de negócios.

Dados nas empresas

Então vamos às empresas. Elas têm dados, mas não sabem muito bem o que fazer com eles, e o grau de fragmentação desses dados, distribuídos em pequenas empresas, torna o trabalho economicamente inviável. A solução estaria na concentração desses dados em associações de classe, mas o leitor a essa altura já percebe a referência circular (para profissionais da área de dados), ou beco sem saída (para nossos ávidos leitores).

No caso de empresas internacionais atuando nos países em desenvolvimento, essas têm dados suficientes, mas por falta de coordenação dessas subsidiárias, ou por ausência de “governança legislada” desses países, ficam paralisadas ou atuando em iniciativas de pouco impacto.

O exemplo da ReRe

A ReRe é uma empresa que investiga dados em operações agrícolas e de consumo intenso, como bebidas, alimentos e químicos, procurando indícios que levem a melhores hipóteses. Nesse momento estamos trabalhando com olhos para os resíduos sólidos. Sim! Estamos mergulhados no hype da circularidade.

Todos os problemas acima estão no nosso cotidiano, e o que temos a nosso favor é um fundador com apetite para soluções contraintuitivas.

Ele nos garante funding para coletar, confirmar e tratar dados, mesmo não enxergando de forma muito clara os outputs dessa jornada.

Nosso cotidiano é altamente complexo. Temos que convencer esses diferentes players a nos fornecerem dados, que muitas vezes têm e não querem compartilhar, ou que nem mesmo têm capacidade de coletar, quiçá transformar.

Sofremos nos corredores de empresas, órgãos de controle de práticas agrícolas, congressos federal e estaduais, prefeituras, departamentos públicos de dados estatísticos, um número incontável de iniciativas ESG públicas e privadas, que muitas vezes são redundantes e não combinam suas iniciativas.

Não diferente, convencer players a utilizarem essas informações, a olharem para direções que resolvem problemas coletivos, mas contrariam seus interesses privados, consome muita energia de nossos colaboradores.

Nosso orçamento é grande para a confirmação in loco dos dados quantitativos obtidos dessa extrema fragmentação, para realizar entrevistas que ajudem interpretar qualitativamente o que os dados silenciosamente querem demonstrar, e para manter nossas equipes engajadas.

Diante de todas os desafios em construir um data warehouse que possibilite análises críveis e hipóteses que parem em pé, preditivamente podemos afirmar que, usando os jargões do setor, não é provável que tenhamos resultados que mudem o jogo, considerando <= 0,95 como altamente provável e >= 0,05 como altamente improvável.

Todavia, nossos primeiros resultados têm nos dado esperança, já que apontamos problemas que antes eram invisíveis e a cada evolução do processo nossa tese principal vai ganhando musculatura: os dados propõe soluções contraintuitivas.

O uso de embalagens de defensivos agrícolas, corretivos de solo e fertilizantes, com contaminação química nociva ao ser humano, à fauna e à flora, usadas na agricultura Brasileira e fornecidas por empresas químicas multinacionais foram encontradas em transporte de alimentos para consumo humano, em escolas, supermercados e diversos locais que não deveriam ter contato com esse material. Entre outros achados.

As soluções para problemas dessa natureza e dimensão surgirão de modelagens computacionais modernas e com a cooperação das comunidades, assim como imaginamos para as embalagens usadas na agricultura em um país continental como o Brasil.

Mas o que é de fato altamente provável em tudo isso é que, se os dados forem obtidos e confirmados, e se as ferramentas de IA forem devidamente aplicadas a ponto de gerarem soluções para o mundo em desenvolvimento, as habilidades emocionais e de relacionamento necessários para enfrentar todas as variabilidades e externalidades desse ambiente terão sido os grandes atores nesse movimento.

Compartilhar:

Pesquisador e operador em Organizational Theory, com trajetória internacional marcada por decisões fora do roteiro tradicional. Atuou por mais de uma década na Ásia e também nas Américas e Europa, lidando com operações complexas, ambientes regulatórios adversos e contextos nos quais não há manual disponível. Autodidata e avesso a soluções de prateleira, atua na interseção entre economia, contratos sociais, tecnologia - com foco em processos, modelos descritivos e formulações matemáticas - e organização do trabalho. É membro do Comitê Global de Inovação da Fast Company e colaborador da HSM. Atualmente, lidera a RMagnago, apoiando acionistas e executivos em decisões estratégicas de alto risco e elevada ambiguidade.

Artigos relacionados

74% das marcas poderiam desaparecer – e ninguém sentiria falta

No ritmo do mundo, só permanece quem sabe se adaptar. Este artigo mostra por que a relevância das marcas não depende mais de presença ou investimento, mas da capacidade de interpretar o tempo, integrar diversidade e transformar propósito em ação concreta.

O Brasil na corrida farmacêutica global

Este é o segundo artigo de uma série que explora o setor farmacêutico brasileiro, suas capacidades industriais, dependências e posição na nova corrida global da saúde. Para sua elaboração, foram consideradas contribuições de Reginaldo Braga Arcuri, presidente executivo do Grupo FarmaBrasil, entidade que reúne algumas das principais fabricantes nacionais de medicamentos. Recomenda-se também a leitura do primeiro artigo da série.

Sem operação, agentes inteligentes são apenas promessas

IA sem operação é só experimento caro. Este artigo revela por que a maioria das iniciativas ainda não gera impacto real – e como o verdadeiro desafio não está na tecnologia, mas na capacidade de estruturar, governar e operar processos em escala.

Gestão de pessoas & arquitetura de trabalho, Cultura organizacional
2 de maio de 2026 13H00
Relações de poder, saúde relacional e o design das conversas que as organizações precisam ter. Este artigo parte de uma provocação simples: e se o problema não estiver em quem fala, mas em quem detém o poder de ouvir?

Daniela Cais - TEDx Speake e Designer de Relações Profissionais

8 minutos min de leitura
Liderança
2 de maio de 2026 07H00
Neste artigo, a figura do Justiceiro, anti-herói da Marvel Comics, serve como metáfora para discutir o que realmente define o legado de um líder: a capacidade de sustentar princípios quando resultados pressionam, escolhas difíceis se impõem e o custo de fazer o certo se torna inevitável.

Cristiano Zanetta - Empresário, escritor e palestrante TED

4 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde, Cultura organizacional
1º de maio de 2026 14H00
Se o trabalho mudou, o espaço precisa mudar também. Este artigo revela por que exigir presença física sem intencionalidade cultural e cognitiva compromete saúde mental e produtividade.

Thierry Cintra Marcondes - Conselheiro, Influenciador e Professor

16 minutos min de leitura
Liderança, Marketing & growth
1º de maio de 2026 07H00
Os melhores líderes internacionais não se destacam apenas pela estratégia. Destacam-se por perceber cedo os pequenos sinais de desalinhamento entre a matriz e os mercados, antes que eles virem problemas caros.

François Bazini - CMO e Consultor

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 18H00
A nova norma exige gestão contínua de risco, mas só a inteligência artificial permite sair da fotografia pontual e avançar para um modelo preditivo de saúde mental nas organizações. Esse artigo demonstra por que a gestão de riscos psicossociais exige uma operação contínua, preditiva e orientada por dados.

Leandro Mattos- Expert em neurociência da Singularity Brazil e CEO da CogniSigns

5 minutos min de leitura
Tecnologia & inteligencia artificial, Inovação & estratégia, Liderança
30 de abril de 2026 15H00
Este artigo desmonta o mito de que “todo mundo já chegou” na inteligência artificial - os dados mostram que não é verdade. E é exatamente aí que mora a maior oportunidade desta década (para quem tiver coragem de começar).

Bruno Stefani - Fundador da NERD Partners

6 minutos min de leitura
Liderança, Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
30 de abril de 2026 11H00
O futuro não é humano nem artificial: é combinado. O diferencial está em quem sabe conduzir essa inteligência. Este artigo propõe uma mudança radical de mentalidade: na era em que a inteligência deixou de ser exclusiva do humano, o diferencial competitivo não está mais em saber respostas - mas em fazer as perguntas certas, reduzir a fricção cognitiva e liderar a combinação entre mente humana e IA.

Eduardo Ibrahim - Fundador e CEO da Humana AI, Faculty Global da Singularity University e autor do best-seller Economia Exponencial

6 minutos min de leitura
Bem-estar & saúde
30 de abril de 2026 08H00
Quem nunca falou e sentiu que o outro “desligou”? Este artigo recorre à neurociência para explicar por que isso acontece - e sugere o que fazer para trazer a atenção de volta.

Viviane Mansi - Conselheira de empresas, mentora e professora

3 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 18H00
Este é o primeiro artigo de uma série de cinco que investiga o setor farmacêutico brasileiro a partir de dados, conversas com líderes e comparações internacionais, para entender onde estamos, como o capital vem sendo alocado e até que ponto a indústria nacional consegue, de fato, gerar inovação e deslocamento tecnológico.

Rodrigo Magnago - CEO da RMagnago

17 minutos min de leitura
Inovação & estratégia
29 de abril de 2026 13H00
Sua empresa tem um lab de inovação, patrocina hackathon e todo mundo fala em "mindset de crescimento". Mas o que, concretamente, mudou no seu modelo de negócio nos últimos dois anos?

Atila Persici Filho - CINO da Bolder e Professor FIAP

8 minutos min de leitura

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão

Baixe agora mesmo a nossa nova edição!

Dossiê #172

Missão China: No ano do cavalo e de fogo

Não basta olhar para a tecnologia chinesa; a grande diferença está em entender sua gestão