Liderança

A liderança se horizontaliza

Muito atento ao momento atual, em que ainda não existem melhores práticas para um novo modelo de trabalho, Jorge Elias afirma que o futuro já começou – e ele não combina com hierarquia

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O ambiente pós-pandemia impõe às empresas o desafio de articular a nova melhor rotina de trabalho para os colaboradores, com um equilíbrio entre o presencial e o remoto. Entendendo que a tradição de escritórios totalmente ocupados foi sepultada de vez, o CEO da Ingredion (ex-Corn) para a América do Sul, Jorge Elias, mantém esse tema no radar. “Estamos vivendo um momento para o qual ainda não existem melhores práticas”, observa. A empresa de soluções de ingredientes de origem natural é mais conhecida por seus produtos, como o óleo Mazola, a Maizena, a Knorr e a maionese Hellmann’s.

Uruguaio apaixonado por correr, Elias assumiu o comando da empresa em 2020, coroando uma trajetória iniciada em 2016 quando se tornou vice-presidente de finanças para a América do Sul. Em sua avaliação, a área de recursos humanos começa a ocupar espaço como vetor estratégico do negócio, consolidando sua importância para o desempenho positivo das organizações e parando com as atividades transacionais. Nesta conversa com Viviane Gaspari, vice-presidente de RH da Ingredion para América do Sul, ele comenta, entre outras coisas, a transição da hieraquia para uma liderança horizontal e compartilhada.

__Viviane Gaspari – Você costuma falar que os colaboradores devem usar a Ingredion como ferramenta. Pode explicar melhor?__
__Jorge Elias –__ Eu digo que queremos o profissional engajado, que é aquele que vibra, vai além, tem paixão pelo que faz, quer crescer e aprender e que utiliza a Ingredion como uma ferramenta para tudo isso. Seus sonhos vão ao encontro dos nossos. As pessoas mais engajadas são as que se enxergam crescendo e ganhando responsabilidades na companhia. E o engajamento vai ao encontro do sentimento de pertencimento. Para isso, prezamos por um ambiente em que transparência e empatia são essenciais. Essa combinação se provou eficiente, já que alcançamos 84% de engajamento na última pesquisa interna, 4 pontos acima da pesquisa de 2019.

__Você falou da nossa combinação, mas quais são as boas práticas de engajamento que devemos dividir?__
Uma das melhores práticas tem sido criar o espaço para conhecer as pessoas e o que é importante para elas em cada estágio do desenvolvimento pessoal e profissional. Isso só é possível quando permitimos a elas exteriorizar o que estão sentindo. E nosso papel como líderes é apoiar nossas decisões nos feedbacks das pessoas. Ou não conseguiremos assegurar que o local de trabalho seja um lugar inspirador, capaz de engajar cada colaborador e fazê-lo ter sucesso. Durante a pandemia, a distância, fizemos diversas pesquisas para ter esses feedbacks nos quais apoiar nossas decisões.

Outra melhor prática é o cuidado com a saúde mental. Após um ano de trabalho remoto, realizamos uma série de ações com foco nesse tema, como a implementação das sextas-feiras sem reunião, palestra do Dr. Dráuzio Varella, eventos lúdicos. Tivemos um cuidado especial com vocês, a equipe de recursos humanos, para a qual oferecemos sessões dedicadas. Quisemos cuidar de quem cuida de nós.

__Como as prioridades estratégicas da organização devem ser capturadas pela área de RH?__
Para que a companhia alcance bons resultados é importante que o RH esteja estrategicamente envolvido na gestão do negócio, sendo capaz de traduzir os desejos e as necessidades dos colaboradores e propondo maneiras de alinhar tudo isso a um objetivo comum.

Um dos grandes desafios do nosso RH hoje é a busca por um modelo que apresente o que há de melhor entre o presencial e o remoto no retorno ao escritório. Criamos nosso próprio plano de retorno ao escritório para a América do Sul, o “Back to Better”. Nossa estratégia está sendo ouvir os colaboradores, entender suas necessidades e utilizar essa fase de transição para experimentar uma nova rotina de trabalho. Nossas pesquisas mostraram que a maioria dos trabalhadores afirmou querer voltar para o escritório, mas não todos os dias.

A proposta é ter o remoto em primeiro lugar. Para isso, estabelecemos um modelo de retorno gradual não obrigatório de duas a três vezes por semana para todos os colaboradores administrativos da companhia na América do Sul. Nosso plano estabelece ocupação de até 50% dos escritórios, com agendamento de presença via aplicativo, em que as pessoas deverão seguir todos os protocolos de segurança, como uso de máscaras e distanciamento entre as posições de trabalho.

__Ouvir as pessoas é um jeito de liderar. Você crê que há um jeito de liderar melhor que os outros?__
Para mim o sucesso empresarial é consequência de estratégia, liderança e execução certeiras. Você pode ter uma estratégia muito boa, mas sem uma liderança que consiga transformar a organização, essa estratégia será bonita no papel, mas não será executada. O que faz com que estratégia e execução deem certo são as pessoas. E os bons líderes têm um jeito para identificar as pessoas capazes de colocar em prática suas estratégias. A boa liderança cumpre seu papel de oferecer o suporte para que as pessoas façam seus trabalhos e alcancem seus objetivos com confiança.

__Que avanços você vê na gestão de pessoas que podem influenciar o futuro das nossas organizações?__
Considerando que o cotidiano e os problemas mudam, acaba sendo impossível saber o tipo de desafio que está por vir e, para isso, você precisa criar times multidisciplinares para resolver diferentes desafios. E isso não combina com hierarquia. Hoje, você pode colocar um diretor trabalhando com três ou quatro pessoas de times diferentes, áreas diferentes e até países distintos, desde que este seja o time ideal para solucionar uma determinada demanda ou criar uma estratégia. Diante disso, creio que um modelo de liderança horizontal, um desses avanços que você menciona, seja essencial nos dias de hoje, por trazer mais aprendizados e evolução nos diferentes níveis de organização.

Também há o avanço da gestão compartilhada: os líderes precisam entender que algumas questões nem sempre podem ser resolvidas por eles; eles precisam contar com outros profissionais. E, como nossos processos não podem ser burocráticos e travados e nossos times precisam tomar decisões de maneira ágil, isso leva ao avanço da autogestão.

__Qual o maior desafio dos líderes este ano?__
A “volta ao normal”, o que inclui não só a definição de um modelo de trabalho como a busca por talentos e um nível de engajamento alto da parte deles. Manter um ambiente de trabalho que acolha as pessoas e seja um convite à criatividade faz parte desse pacote igualmente.

__Quais os desafios dos líderes do futuro?__
Os principais, sem dúvidas, são desenvolver a capacidade de aprender e se adaptar. Eu acredito que os líderes de gerações mais antigas também precisam entender que é necessário saber conectar todos para poder engajar a organização e trazer talentos do mercado para sua empresa.

__O que o RH ainda faz e não deveria estar fazendo?__
Atividades transacionais. O RH da Ingredion, por exemplo, passou um processo de migração da maneira de operar que vem permitindo que áreas especialistas desenvolvam soluções, os business partners atuem direto com as áreas e as atividades transacionais sejam executadas pelos centros de serviços compartilhados. Isso libera o time de RH para uma atuação mais estratégica dentro da companhia, não somente respondendo rapidamente, mas antecipando as demandas do negócio.

__É estratégico lidar com diversidade? E com ESG?__
Sim e sim. O desenvolvimento de um negócio diversificado e inclusivo nos torna mais fortes socialmente e impacta positivamente a nossa estratégia de inovação, e tudo isso é estratégico. Vale citar iniciativas de dois grupos de afinidade que temos, dedicados ações e oportunidades de desenvolvimento para pessoas com deficiência e pessoas negras.

Quanto a ESG, a Ingredion tem muitas ações em curso, com objetivos já para 2025. Cito como exemplo a renovação de nosso parque energético na fábrica de Cabo de Santo Agostinho (PE). A partir de 2023 vamos consumir só energia eólica lá. No pilar social, no Brasil, há uma forte estratégia de inclusão de grupos minoritários e, em apenas quatro anos, os negros passaram a fazer parte de 32% dos times, ante apenas 5% em 2017.

__Qual seu maior erro e como você aprende?__
O erro foi achar que o que motivava outras pessoas era o mesmo que me dava motivação. Eu aprendo muito de forma prática, mas também sou adepto de boas leituras de gestão. Gosto particularmente de biografias de grandes líderes.

__Jorge Elias__
Estudou gestão financeira na Erasmus University e liderança em Wharton.

__Viviane Gaspari__
Entrou na Ingredion em março de 2021 para transformar o RH na região.

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