Vendas, Liderança
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A meta não assusta. O comportamento do líder, às vezes, sim.

Toda equipe de vendas convive com metas. O problema começa quando a pressão pelo resultado transforma forecast em interrogatório, cobrança em ansiedade e gestão em controle excessivo. A autora traz uma reflexão sobre como líderes podem influenciar a performance sem comprometer a confiança e a qualidade das decisões comerciais.
CEO da Conectas, empresa de Educação Corporativa especializada em times de vendas. Autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e o do recém lançado Vendas Movem o Mundo.

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Faltam dez dias para o fechamento do mês e o número alcançado ainda está distante da meta… de repente, alguma coisa muda.

A reunião que durava trinta minutos passa a durar uma hora, o forecast começa a ser revisado todos os dias, o grupo de WhatsApp fica mais agitado, o vendedor que dizia que uma oportunidade tinha 50% de chance de fechamento passa a ser interrogado até que ela pareça ter 80% e aquela pergunta começa a aparecer com uma frequência quase religiosa:

“Quando teremos o aceite desse cliente?”

Essa não é uma história fictícia. Ela se repete religiosamente todo mês em MUITAS empresas e, quem trabalha com vendas, conhece bem essa cena. O que talvez a gente discuta menos é o efeito que ela produz.

Eu tenho uma hipótese: muitas equipes não têm medo da meta. Têm medo do que acontece com a liderança quando a meta corre o risco de não vir. Pressão comercial é algo que desce (e cresce) pela organização: o diretor pressiona o gerente, que pressiona o coordenador, que pressiona o supervisor, que pressiona o vendedor, que pressiona o cliente. E, no caminho, chamamos isso de gestão de performance.

Na boa, nem sempre é. Muitas vezes isso não passa de ansiedade hierárquica sendo retransmitida.

E vamos lá: eu não estou defendendo uma gestão comercial sem cobrança.  Ela faz parte do rolê. Vendas tem meta, compromisso, prazo, resultado e deveria ter consequência. Fugir do excesso de pressão não pode significar criar uma cultura em que ninguém é responsabilizado pelo resultado.

A questão não é cobrar ou não cobrar, mas entender os efeitos que a cobrança produz.

Meta é uma referência de resultado, é drive, é direção. Gestão é o trabalho de construir as condições para que esse resultado aconteça. Parece óbvio, mas basta observar uma reunião comercial em um mês difícil para perceber como essas duas coisas se confundem.

“Precisamos vender mais.”

Isso é meio óbvio. Aliás, mesmo quando o resultado está bom esse é um mantra, principalmente num mercado repleto de potencial. O ponto é identificar onde especificamente está o gap (ou as oportunidades de crescimento).

Precisamos aumentar conversão? Ticket? Reativar clientes? Ganhar participação dentro da carteira? Abrir novas contas? Melhorar mix? Acelerar oportunidades paradas? Abordar outros decisores? Corrigir uma proposta de valor fraca? Desenvolver competência de negociação?

Dizer ao time que faltam R$ 2 milhões informa o tamanho do problema, mas não diz absolutamente nada sobre como resolvê-lo.

Eu sempre digo: meta é destino, não estratégia.

O trabalho da liderança comercial começa justamente quando o número é decomposto em variáveis que podem ser gerenciadas. Afinal, números são consequências de ações e as ações podem ser gerenciadas; pessoas podem ser lideradas.

Quando isso é compreendido, fica claro que pressão mal administrada costuma atrapalhar.

Quando o líder entra em modo de sobrevivência, a tendência é buscar mais controle: mais reunião, mais microgereneciamento, mais atualização, mais cobrança, mais atividade, mas controle não produz resultado (apesar de fazer dar a sensação de algo está sendo feito na direção do resultado desejado).

O Gartner1 vem chamando atenção para esse problema. Segundo pesquisas recentes da consultoria, gestores comerciais podem ter impacto de até seis vezes na performance dos vendedores, mas apenas 18% relatam liderar equipes de alta performance. O papel do gestor, segundo a pesquisa, está frequentemente sobrecarregado e desalinhado daquilo que deveria gerar maior impacto comercial.

Ou seja, se o líder é uma variável tão importante do resultado, talvez seja hora de parar de tratá-lo apenas como o mensageiro da meta (até porque se o gestor age dessa forma, deve existir uma cultura que te dê respaldo).

Um bom líder comercial transforma pressão em prioridade. Ele não pergunta apenas “quanto falta?”, mas “o que está impedindo que esse resultado aconteça?”. Ele não olha apenas para o placar, ele olha para as variáveis que produzem o placar. Não pede indiscriminadamente mais atividade, identifica qual atividade precisa de ajuste ou intensidade.

Essa distinção importa porque, sob pressão, nosso horizonte tende a encurtar.

O vendedor passa a olhar para o que consegue fechar agora, mesmo que precise dar mais desconto. Prioriza a oportunidade mais fácil, não necessariamente a mais estratégica. Coloca negócio frágil no forecast. Para de prospectar porque toda energia foi deslocada para converter e tentar salvar o fechamento.

A organização cria, assim, um paradoxo curioso: na tentativa de proteger a meta do mês, começa a prejudicar a meta dos meses seguintes.

E aí chega o primeiro dia do próximo ciclo com pipe baixo, poucas oportunidades novas e cliente acostumado a negociar no desespero do fechamento (sim, os clientes “pegam a manha”).

Pressão pode até aumentar esforço, mas gestão de verdade precisa aumentar capacidade e essa diferença também muda a conversa com quem está abaixo da meta.

Um vendedor que não entrega resultado precisa ser responsabilizado, mas responsabilizar alguém não significa repetir o número até que ele se sinta suficientemente culpado para produzir uma solução. Quando o time ganha remuneração variável isso fica ainda mais evidente: será mesmo que o vendedor que está com baixa performance não quer ganhar mais dinheiro?

O papel do gestor comercial é identificar se o time está diante de um problema de esforço, competência, estratégia, processo, carteira, priorização ou contexto e, a partir daí, definir o que precisa mudar.

Aliás, outro estudo recente do Gartner2 mostra que empresas usam atingimento de meta para avaliar vendedores, mas raramente usam o mesmo indicador para questionar a qualidade da própria definição das metas. Metas mal desenhadas também aumentam custos e prejudicam motivação (não estou culpando a meta, mas padrões precisam ser investigados).

O que quero dizer é que assim como nem todo resultado ruim é culpa do sistema, nem todo resultado ruim é culpa do vendedor. Uma gestão comercial madura consegue sustentar essas duas verdades ao mesmo tempo.

Por isso, toda vez que eu ouço que “o time está com medo da meta” eu dou dois passos pra trás: Preciso ampliar a visão do que está acontecendo numa perspectiva menos reducionista.

Meta é um número e número não grita, não ironiza, não expõe ninguém na reunião, não manda mensagem às 22h perguntando se o pedido entrou e não transforma um mês ruim em julgamento sobre a competência de alguém.

Pessoas, culturas e sistemas de gestão fazem isso e o medo tem consequências comerciais concretas.

Quando errar custa caro demais, as pessoas escondem problema. Quando admitir que uma oportunidade esfriou gera bronca, o CRM fica mais otimista do que a realidade. Quando dizer “não sei” é interpretado como fraqueza, o gestor recebe certeza onde deveria receber informação.

E aí o líder ganha exatamente o contrário daquilo que buscava com mais controle: menos visibilidade sobre o negócio. É por isso que segurança para falar a verdade e accountability não são opostos. Não existe gestão de performance sem conversas difíceis, mas também não existe gestão de performance quando as pessoas têm medo de colocar o problema real sobre a mesa.

O ponto, portanto, não é transformar vendas em um ambiente confortável. A área de vendas por si só não é confortável: tem rejeição, incerteza, negociação, concorrência, meta e meses em que o número não é alcançado.

O papel do líder não é retirar essa tensão e sim impedir que ela vire desorganização, produzindo clareza quando todo mundo começa a produzir urgência e separando fato de narrativa, problema de sintoma e esforço de efetividade.

O papel do líder comercial é ajudar o vendedor a responder três perguntas muito mais úteis do que “quanto você vai fechar o pedido ou receber o aceite?”:

  1. Onde exatamente estamos perdendo resultado?
  2. O que ainda está sob nosso controle?
  3. O que vamos fazer diferente a partir de agora?


Então, da próxima vez que perceber seu time tenso diante de uma meta difícil, antes de perguntar por que as pessoas estão com medo, talvez o líder devesse olhar para si mesmo: “Como eu me comporto quando percebo que talvez meu time não vá alcançar a meta? Fico mais controlador? Aumento a cobrança? Transformo o forecast em interrogatório? Começo a transmitir para o time a ansiedade que estou recebendo de cima?”

Talvez seu time não tenha medo da meta, e sim tenha medo de quem você se transforma quando ela não vem.

Aquele abraço!

Referências:

  1. https://www.gartner.com/en/documents/8151729?utm
  2. https://www.gartner.com/en/conferences/na/sales-us/sessions/detail/4507334-How-to-Redesign-the-Sales-Manager-Role-of-the-Future?

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CEO da Conectas, empresa de Educação Corporativa especializada em times de vendas. Autora dos best sellers #BORA BATER META, Coragem e mais alguns Cês da Vida e o do recém lançado Vendas Movem o Mundo.

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