Inovação & estratégia, Tecnologia & inteligencia artificial
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A nova morada dos softwares são as interfaces de IA

Durante anos, as empresas disputaram espaço na tela dos usuários por meio de aplicativos, portais e plataformas digitais. Agora, a ascensão das interfaces de inteligência artificial inaugura uma nova lógica: em vez de buscar atenção, os softwares passam a competir para estar presentes no momento exato em que uma decisão é tomada.
Head global de inovação da Foursys

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Durante anos, a principal decisão tecnológica das empresas que desenvolvem software esteve relacionada à infraestrutura. A pergunta era simples: onde essa aplicação vai rodar? A resposta, quase sempre, era a nuvem. Agora, uma nova questão começa a ganhar protagonismo: onde o usuário vai encontrar esse software quando precisar tomar uma decisão?

A resposta está deixando de ser “no aplicativo”, “no portal” ou “no SaaS” para migrar, cada vez mais, para as interfaces de Inteligência Artificial Generativa. Esse movimento reforça uma mudança importante. Em vez de obrigar o usuário a abrir diversos aplicativos para executar tarefas, as interfaces inteligentes passam a concentrar parte da jornada de decisão.

Essa direção também aparece nas projeções do mercado. O Gartner estima que, até 2028, cerca de um terço das experiências digitais migrarão de aplicações tradicionais para interfaces agênticas, nas quais agentes de IA atuarão como intermediários entre usuários e sistemas corporativos.

Indo nessa linha, nos últimos meses, grandes plataformas de IA passaram a incorporar aplicações e serviços diretamente em seus ambientes conversacionais. Ferramentas como Booking, Spotify, Canva, Zillow e Coursera já podem ser acessadas como componentes interativos dentro do ChatGPT, enquanto empresas como Microsoft, Google e Anthropic seguem estratégias semelhantes de integração entre IA e aplicações de terceiros.

Nesse cenário, o software deixa de depender exclusivamente do seu próprio ambiente para entregar valor. Isso porque, durante a última década, as empresas disputaram espaço em um ambiente dominado pela economia da atenção. O objetivo era aumentar o tempo de permanência do usuário em aplicativos, sites e redes sociais. Agora, as interfaces de IA introduzem uma lógica diferente, a chamada economia da intenção.

Quem inicia uma conversa com um assistente de IA normalmente já possui um propósito claro: pesquisar um destino, comparar produtos, resolver um problema, contratar um serviço ou tomar uma decisão. Ou seja, o foco deixa de ser capturar minutos de navegação e passa a ser participar do momento exato em que essa decisão acontece.

Para empresas que desenvolvem SaaS e produtos digitais, isso representa uma nova estratégia de distribuição e relacionamento com o cliente. Não se trata apenas de ampliar visibilidade, mas de estar presente quando o usuário demonstra intenção de compra ou necessidade de resolver uma tarefa específica.

Embora a tendência seja clara, isso não significa que todo software deva ser executado dentro de um modelo de linguagem. Existe uma limitação econômica importante. Processar regras de negócio complexas diretamente por meio de modelos de IA consome grande volume de tokens, elevando custos operacionais sem necessariamente gerar benefícios proporcionais.

Na prática, a arquitetura que vem se consolidando separa responsabilidades. Enquanto as interfaces conversacionais assumem atividades que exigem interpretação, comparação, recomendação e apoio à decisão, o processamento crítico – como transações, regras de negócio, integrações e operações financeiras – continua sendo realizado na infraestrutura original da empresa. Ou seja, não é a aplicação inteira que muda de endereço, mas sim a camada responsável por interagir com o usuário e apoiá-lo na tomada de decisão.

Outro aspecto relevante dessa transformação é a continuidade da jornada digital. Em vez de percorrer canais isolados, o usuário poderá iniciar uma pesquisa em um navegador, aprofundar informações em um aplicativo móvel e concluir a decisão dentro de uma interface de IA, sem perceber rupturas entre esses ambientes.

Considerando os aspectos de tendências, se a última década foi marcada pela omnicanalidade, a próxima tende a ser definida pela “omni-interação”, em que a Inteligência Artificial se torna a camada capaz de conectar diferentes aplicações em uma única experiência conversacional, a qual ela assume o papel de orquestradora da experiência digital. Essa mudança exige que empresas repensem arquitetura, experiência do usuário, integração de APIs e estratégias de distribuição de seus produtos.

Durante muitos anos, o desafio era construir aplicações escaláveis, resilientes e capazes de operar na nuvem. Esse desafio permanece importante, mas deixa de ser suficiente. A questão estratégica passa a ser identificar quais etapas da experiência realmente precisam acontecer dentro das interfaces de IA e quais devem continuar sendo executadas na infraestrutura tradicional da organização.

As empresas que encontrarem esse equilíbrio poderão reduzir custos operacionais, aproveitar melhor o potencial da Inteligência Artificial e posicionar seus produtos exatamente no momento em que o usuário toma decisões. Não é só mais uma mudança tecnológica, trata-se de uma nova lógica de distribuição de software: uma transformação que tende a redefinir a forma como aplicações, plataformas SaaS e produtos digitais serão concebidos nos próximos anos.

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